A pesquisadora reuniu mais de 500 estudos sobre o tema para fazer uma espécie de auditoria do que já pode ser aceito como verdade. Uma das mais sólidas descobertas é que as crianças que cresceram em um ambiente de acolhimento e segurança emocional em geral são providas de maior senso de integração social e mais capazes de regular o próprio comportamento para manter a saúde do corpo e da mente independentemente do apoio de outras pessoas.
A outra constatação, tão sólida quanto a primeira, é que o contrário disso – viver em famílias cujo cotidiano é marcado por episódios de raiva e agressões – torna crianças, adolescentes e adultos vulneráveis a uma ampla gama de males físicos e mentais. Isso vale tanto para ameaças imediatas – como ficar mais desprotegido diante do risco de tornar-se dependente de álcool, tabagismo e outras drogas – quanto para firmar as bases de longo prazo para a expressão de males cardiovasculares e de desordens afetivas, como a depressão e a ansiedade. Os pesquisadores acreditam que a manutenção da tensão doméstica e a sensação de desamparo constante, por exemplo, levam ao desajuste de vários sistemas do organismo e podem antecipar enfermidades para as quais a pessoa tenha alguma predisposição genética, como a diabete e o câncer. “O que estamos vendo é que existe uma grande e profunda interligação entre as relações familiares, o estilo de vida, a genética, a saúde e a maneira como as pessoas enfrentam as doenças”, explica o geriatra Fábio Nasri, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.
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Interessados em aprofundar a compreensão de todo esse complexo mecanismo, os cientistas estão desenvolvendo investigações em todo o planeta. Grande parte delas reforça os achados da pesquisadora Rena Repetti. Na Universidade de Hong Kong, por exemplo, um grupo dedicou-se a avaliar a evolução de 47 crianças que participaram de um programa de tratamento da asma. As que tiveram uma redução de sintomas mais notável, como a diminuição da inflamação dos brônquios, e aderiram melhor às mudanças recomendadas foram aquelas cujos pais se engajaram ativamente nas sessões de terapia familiar oferecidas pelo projeto de controle da doença. “Quando os familiares se envolvem e criam uma rotina que abrange a tomada da medicação na hora certa, as crianças incorporam as medidas de controle com mais tranqüilidade, se preocupam menos com os sintomas e vão parar menos vezes no atendimento de emergência”, disse à ISTOÉ a psicóloga Barbara Fiese, da Universidade de Siracusa, nos Estados Unidos. A instituição também participou do trabalho.
Processo semelhante ocorre com adolescentes, como assinalou um trabalho da Universidade de Chicago, também nos EUA, sobre a bulimia, transtorno alimentar caracterizado pela ingestão de alimentos e posterior indução ao vômito. Cerca de 30% dos jovens cujos pais e irmãos aceitaram fazer psicoterapia – por causa do distúrbio de um dos membros da família – se mantiveram a salvo de novos episódios seis meses após o tratamento, contra 10% entre os que foram tratados sem a mobilização dos familiares.
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Harmonia à mesa
A mudança começou por Elbia Melo. Depois, entraram no novo esquema de alimentação o marido, Leonardo, e o filho Márcio. Hoje, a família, que recebeu a orientação da Equilibrium Consultoria Nutricional, de São Paulo, se esforça para manter uma dieta mais saudável. “Um estimula o outro a persistir nos bons hábitos. Sem isso seria mais difícil”, diz Elbia. |
As linhas invisíveis que unem a saúde atual e futura de uma pessoa à sua família são ainda mais impressionantes. Quem poderia imaginar, por exemplo, que um ambiente familiar estável e com espaço para expressão das emoções e conflitos pode postergar o início das alterações hormonais que levam à puberdade? Segundo pesquisadores de duas universidades americanas, de Wisconsin e do Arizona, isso é possível e, melhor ainda, pode ser um fator de proteção da juventude. Eles chegaram a essa conclusão depois de observar 277 famílias e seus filhos da infância até o ensino médio. Para os especialistas, a antecipação da puberdade é um conhecido risco para problemas de saúde, como transtornos de humor, gravidez precoce e a exposição a doenças sexualmente transmissíveis, como o vírus HPV, que em suas formas mais graves pode levar ao câncer de colo de útero. Segundo os pesquisadores, pobreza, conflitos de casal, negatividade e agressões entre pais e filhos podem acelerar esse processo de antecipação.
Muitos estudos também procuram explicar as conseqüências das relações conjugais bem administradas e daquelas mais conturbadas. Um deles foi feito por pesquisadores americanos e do Rio Grande do Sul com jovens casais de Porto Alegre. “A depressão está associada à má qualidade conjugal. Um problema pode levar ao outro, mas vimos que entre os jovens brasileiros a pobre qualidade da vida conjugal é que abre as portas para a depressão, especialmente nas mulheres”, disse à ISTOÉ o pesquisador Cody Hollist, da Universidade de Nebraska (EUA). Ele agora está avaliando por que as desavenças prolongadas a dois imprimem sua marca com tanta força na saúde mental. Uma das hipóteses do estudo de Nebraska é que a vida a dois gera um apoio social que ajuda as pessoas a lidar com as contrariedades do dia-a-dia. Inversamente, porém, elevados níveis de stress sem interrupção podem levar à depressão e à ansiedade crônica.
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