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A chama da discórdia
O passeio da tocha olímpica, que deveria simbolizar a integração mundial, se transforma em vitrine de protestos

DANIELA MENDES

PHILIPPE WOJAZER/REUTERS/LATINSTOCKReza a mitologia grega que Prometeu roubou o fogo de Zeus, o senhor do Olimpo, e o deu aos humanos. Para celebrar a passagem deste elemento sagrado ao homem, os gregos criaram as corridas de revezamento. Os atletas passavam a tocha entre si até o vencedor cruzar a linha de chegada. Os Jogos Olímpicos surgiram em 776 a.C. Além de ser uma oportunidade para honrar os deuses, eles marcavam um período de trégua em meio às constantes guerras. Uma chama permanecia sempre acesa durante as Olimpíadas como um sinal de pureza, razão e paz.

O simbolismo da tocha foi esquecido desta vez. A viagem da chama pelos cinco continentes está sendo marcada por protestos contra a China, paíssede dos jogos, e pelo confronto entre polícia e manifestantes. Na segunda-feira 7, o fogo foi apagado quatro vezes na passagem da tocha por Paris. Críticos do regime de Pequim conseguiram driblar a segurança e afixaram na torre Eiffel uma faixa criticando a realização dos jogos na China. Com quatro metros de comprimento, ela mostrava os anéis olímpicos feitos de algemas, uma crítica aos direitos humanos no país e à dominação imposta ao Tibete. Cerca de 30 manifestantes foram presos, número semelhante ao de detidos em Londres no dia anterior.

PATRICK KOVARIK/AP/IMAGE PLUS
TUMULTO Em Paris, palco de manifestações pró-Tibete, o fogo olímpico chegou a ser apagado

PROTEÇÃO Segurança reforçada em São Francisco

Para evitar mais transtornos, a polícia francesa decidiu reduzir o trajeto da tocha pela cidade. Estratégia semelhante, aliada a um forte esquema de segurança, foi utilizada pelas autoridades de São Francisco (EUA), para onde ela seguiu depois da Europa. “Estou surpreso, não esperava isso, acho que o espírito olímpico tem de prevalecer”, diz o jogador de vôlei de praia Emanuel, escalado pelo Brasil para carregar a chama em Buenos Aires, na passagem da tocha pela América do Sul.


A onda de protestos fez os países que estão no percurso da tocha reverem a programação original. A Índia, onde a chama deve desembarcar na quinta-feira 17, decidiu encurtar em um terço o trajeto previsto para Bombaim. O país tem uma grande comunidade de exilados tibetanos (cerca de 200 mil pessoas) e o governo teme manifestações e violência. Austrália, Indonésia e Japão também irão reforçar a segurança.

Os incidentes fizeram o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, pedir à China uma solução pacífica da crise no Tibete. “Expressamos nossa inquietação e pedimos uma resolução rápida e pacífica”, disse ele, que também condenou o uso da violência. “Ela não é compatível com os valores da chama olímpica nem com os Jogos.”

 


16/4/2008


 
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