"Lula tem uma popularidade surpreendente. É o político com maior capacidade de transferência de votos que já vi” |
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ISTOÉ – Os dados, então, já circulavam pelo Senado?
Dias – A notícia sobre a existência do dossiê circulou desde o início de fevereiro. Então, veio o esforço do governo propondo a CPI no Senado inicialmente, depois se acabou aceitando a CPI mista, numa negociação que realmente não ficou bem. É claro que os farejadores começaram a perseguir esse dossiê e a buscar informações. Eu tive acesso às informações na semana anterior à divulgação. Tive notícias de que outras pessoas também viram. As pessoas temem se apresentar como fonte porque alegam tratar-se de informações sigilosas. Mas não são.
ISTOÉ – Se as informações não são sigilosas, por que o sr. não revela sua fonte?
Dias – Há um erro quando se questiona um senador sobre fontes. As pessoas parecem esquecer que o artigo 56 da Constituição, em seu parágrafo sexto, assegura ao parlamentar não revelar as fontes das suas informações. O sigilo da fonte é essencial no processo democrático, principalmente num país como o nosso, em que os escândalos de corrupção pipocam. Quem ofereceria informações delicadas à imprensa se não tivesse certeza do sigilo? É claro que comprometeria o processo de investigação.
ISTOÉ – O sr. acredita na tese de conspiração contra a candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência?
Dias – Se há conspiração é interna corporis. É uma conspiração doméstica, familiar. Essa ave tucana não sobrevive nessa selva petista do Palácio do Planalto. Se houve conspiração, o presidente da República é o grande responsável. Ele antecipou o processo eleitoral, a meu ver, indevidamente. O PT é um partido de facções. É possível que isso tenha despertado o conflito interno. Eu não saberia assegurar se houve conspiração doméstica e se o presidente deu combustível para o fogo amigo. No vazamento, houve uma precipitação. Talvez alguém que não morra de amores pela candidatura da ministra tenha atravessado o cronograma estabelecido.
ISTOÉ – O sr. vê relação entre os problemas da ministra e a tese da reeleição do presidente Lula?
Dias – Há forte suspeição de que tenha havido aí uma estratégia do presidente. O lançamento da candidatura da ministra seria uma forma de desviar o foco, enquanto ardilosamente se prepara o plano para um terceiro mandato. Até porque a ministra não tem grande apelo popular. Portanto, pode ter sido o modelo ideal para o presidente ocupar o espaço e viabilizar o projeto de terceiro mandato. O deputado autor da proposta na Câmara (Devanir Ribeiro, do PT de São Paulo) é do círculo de amizades do presidente. Enquanto o presidente afirma não desejar o terceiro mandato, o deputado continua agindo. Nós temos o direito de acreditar numa encenação do presidente.
ISTOÉ – A oposição denuncia erros e corrupção do governo, enquanto o presidente vive uma popularidade jamais vista. Por que isso acontece?
Dias – O País está dividido ao meio. Essas denúncias encontram eco numa parte da sociedade, que independe dos programas assistencialistas do governo. Mas isso não tem sido suficiente. O presidente Lula tem, de fato, uma popularidade surpreendente. É o líder político com a maior capacidade de transferência de votos que eu já conheci em 33 anos de mandato eletivo. A minha conclusão é que a população pobre cultiva a virtude da gratidão e responde aos benefícios diretos que recebe. E iludem-se os que acham que seja só o Bolsa Família. O presidente Lula hoje tem uma imagem tão forte que anulou seus coadjuvantes. Eles não existem. É por isso que a população não sabe os nomes dos seus ministros. O governo Lula é Lula. Houve ainda um aparelhamento do Estado e a criação de uma relação de promiscuidade com os movimentos sociais, em convênios ministrados pelos ministérios que vão parar em ONGs ligadas a esses movimentos.
ISTOÉ – Falta à oposição um discurso para essa parcela diretamente beneficiada pelas políticas sociais do governo?
Dias – Falta. A oposição sente-se impotente diante desse arsenal cuja montagem surpreendeu. A verdade é que houve um certo receio da oposição em criticar o governo Lula. Um receio de que prevalecesse a teoria do preconceito. De que estamos criticando Lula porque é um operário e nós da elite estamos combatendo o homem. A oposição tornou-se tímida. O movimento oposicionista cresceu durante a crise do mensalão, mas a oposição perdeu a oportunidade. Eu defendia que se instaurasse ali um processo de impeachment porque havia condições para isso. Reconheço que poderia não haver apoio popular. Mas a obrigação da oposição era propor a instauração do processo, mesmo que o impeachment não viesse a ocorrer. A verdade é que a oposição não ocupou os espaços e não teve capacidade de mobilizar a opinião pública.
ISTOÉ – E agora, em 2008, a oposição pode ter sorte melhor?
Dias – Eu não confundo eleição municipal com eleição federal.
ISTOÉ – Mas o presidente Lula confunde, ele está federalizando as eleições.
Dias – É verdade. O presidente tenta transferir a sua popularidade para aparelhar os municípios com seus prefeitos. É legítimo. Quer aumentar a força eleitoral. Mas não estará em discussão o governo Lula na eleição municipal. São peculiaridades locais. É o caso da aliança entre PSDB e PT em Belo Horizonte. Isso acontece porque os partidos não são unitários e ideológicos. O espectro partidário é o “samba do crioulo doido”. Não há programas, não há ideais. As condições locais é que prevalecem.
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