Testemunhas, segundo a polícia, deram depoimentos conflitantes com o relato de Alexandre. Um vizinho disse ter visto a família subir junta no elevador. Dois outros, um do primeiro andar do prédio e outro de uma casa vizinha, teriam ouvido gritos de criança na hora do incidente. “Pára, pai, pára, pai”, disseram ter ouvido. “Isso é porque o pai estava fazendo alguma coisa errada. Mas não se sabe se a voz era da criança que morreu”, disse o delegado Calixto Calil Filho, responsável pela investigação. Desde o início, o delegado deu a entender que acredita no envolvimento do pai e da madrasta na morte da menina. O caso agora corre em segredo de Justiça.
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| O DELEGADO Calixto Calil Filho aposta no envolvimento do pai |
Há outras contradições. Ao sargento Luiz Carvalho, Alexandre contou ter visto um homem jogar sua filha pela janela, mas não repetiu a informação em depoimento. Para a polícia, ele disse que havia um ladrão no prédio, mas o porteiro Valdomiro da Silva Veloso e o sargento fizeram buscas e não viram ninguém suspeito na área. Afirmou ainda que tinha se desentendido com o pedreiro Mizael dos Reis Santos. A polícia ouviu o pedreiro e descartou seu envolvimento no crime. “As versões que temos até agora não batem. Posso adiantar, genericamente, que a história apresentada (pelo pai e pela madrasta) no dia do crime e nos depoimentos é fantasiosa”, disse, na sexta- feira 4, o promotor Francisco Cembranelli, representante do Ministério Público nas investigações.
Duas testemunhas que vivem no prédio onde Alexandre e a mulher moravam antes de se mudar para o edifício London, dois meses atrás, contaram que o casal brigava muito. Ela era considerada geniosa e também se desentendia com seu pai, Alexandre Jatobá. Anna Carolina chegou a registrar pelo menos dois boletins de ocorrência contra ele por agressão, em 2004 e 2005. Neste último, ela diz que estava no computador, seu filho de nove meses chorava e seu pai lhe disse para pegá-lo. Anna Carolina se recusou, alegando que o bebê chorava mesmo nos seus braços. O pai, então, começou a xingá-la, ameaçou-a e depois arremessou um vaso contra ela, que estava com o menino no colo.
O marido Alexandre e Anna Carolina Jatobá eram colegas de faculdade, iniciaram o relacionamento quando Isabella ainda era bebê e logo foram morar juntos. A relação com a mãe da menina terminou logo depois que ela nasceu. Ana Carolina Oliveira, 24 anos, tinha 16 quando eles começaram a namorar e aos 17 ficou grávida. Isabella costumava passar o fim de semana com eles a cada 15 dias e adorava brincar com os irmãos. O apartamento novo, de 82 m2 e três quartos, no valor de R$ 280 mil, havia sido comprado para Alexandre pelo pai, Antônio Nardoni, que adquiriu o imóvel vizinho para outra filha. Alexandre se formou em direito em 2006 (ainda não tem registro da OAB) e trabalhava com o pai, que o auxiliava nos seus gastos e também na pensão de Isabella, de R$ 280.
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| O PAI Alexandre Nardoni se apresenta à polícia para cumprir prisão temporária: versões contraditórias |
Antônio Nardoni também era o dono do Ford Ka que transportou a família de Alexandre na noite do crime e do Vectra utilizado pelo filho, além de outros carros e imóveis. Segundo pessoas próximas da família de Ana Carolina Oliveira, Alexandre tem um temperamento difícil, explosivo e os dois volta e meia se desentendiam por causa da pensão. “Era um relacionamento cordial, para não afetar a relação da Isabella com o pai, mas desgastado”, diz um amigo. “Às vezes, ele recebia o dinheiro da pensão do pai e não transferia para Carol.” Em setembro de 2003, Ana Carolina chegou a registar um boletim de ocorrência contra Alexandre, que teria ameaçado matá-la e à sua mãe e sumir com Isabella. Ele não concordava que a menina, então com um ano e quatro meses, fosse matriculada na escola.
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| A MADRASTA Anna Carolina Jatobá na delegacia: declaração de amor à enteada em carta |
Ana Carolina é descrita pelos amigos como uma mãe amorosa. Funcionária do Unibanco, tem fotos de Isabella na mesa de trabalho e falava dela com freqüência para os colegas. “Mesmo a Carol sendo superjovem, sempre assumiu a filha com muito orgulho. Certa vez, em um feriado, deixou de viajar com os amigos para levála ao Parque da Mônica”, conta Júnior Zanellato, amigo de infância de Ana Carolina. É com o apoio dos pais, Rosa e José, e dos irmãos, Felipe e Leonardo, que ela tem contado para atravessar este momento difícil. A família vive junta em um sobrado simples, de classe média, numa rua tranqüila da zona norte de São Paulo. Rosa e José são donos de uma pequena loja de roupas na vizinhança, a Atitude Zero, onde Isabella ia com freqüência.
Diante da tragédia, Ana Carolina optou pela reclusão. “O pai dela escolheu escrever cartas. Eu preferi o silêncio”, disse ela à ISTOÉ, em tom sereno. “Acabaram com a vida da minha filha, mataram a minha filha e nem ao menos sei quem foi.” Ela não está tomando calmantes, tem tido dificuldade para dormir à noite e ninguém a deixa sozinha em momento algum. No enterro, na segunda-feira 31 de março, ela passou o tempo todo segurando um coelho de pelúcia azul da filha, ora debruçada no caixão chamando por ela, ora sentada, em estado de choque. Alexandre ficou ao lado do caixão, em pé, com a mão sobre o vidro, de onde era possível ver o rosto da criança. Os pais ficaram próximos, mas não conversaram, nem se abraçaram.
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