Os estudos sobre a relação entre o funcionamento cerebral e o comportamento teen ganharam fôlego há uma década. Um dos pioneiros nesta área é o pediatra americano Jay Giedd, do Departamento de Psiquiatria do Instituto Nacional de Saúde Mental, em Maryland, nos Estados Unidos. Há 19 anos, ele conduz um experimento com adolescentes, acompanhando a evolução do cérebro de cada um por meio de exame de imagens. Os primeiros resultados mais consistentes foram divulgados há quatro anos e já apontavam várias modificações. Na última semana, um artigo publicado pelo pesquisador no Journal of Adolescent Health confirmou os achados anteriores e os detalhou ainda mais. O trabalho já está sendo considerado pelos especialistas um divisor de águas no que diz respeito à compreensão do universo adolescente. "Abriu-se a caixa de Pandora que era o cérebro durante a puberdade", afirma a pediatra Marilúcia Picanço, coordenadora do Ambulatório do Adolescente do Hospital Universitário da Universidade de Brasília (UnB).
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Dificuldade para pegar no sono
Não importa o quanto a mãe lute para fazê-lo dormir mais cedo: o carioca Lucas Ferreira, 15 anos, fica "ligado" até por volta de 1h. Seja no computador, no telefone ou em frente à televisão, ele enrola o mais que pode. Lucas sabe que o hábito prejudica seu desempenho escolar, mas não consegue evitar. Resultado: acaba cochilando à tarde, quando isso não acontece dentro da sala de aula onde cursa o último ano do ensino fundamental. "Nos fins de semana, saio com amigos e também durmo tarde", diz.
EXPLICAÇÃO: a melatonina, hormônio que induz ao sono, é produzida por uma glândula localizada na base do cérebro. Nos adolescentes, sua fabricação começa mais tarde, o que atrasa o início do sono |
A primeira grande constatação de Giedd é a de que o cérebro não está totalmente maduro aos 11 ou 12 anos, como se imaginava. Ele atingiu o volume de um cérebro adulto, mas só alcançará sua maturidade - quando suas estruturas e conexões estão devidamente equilibradas - por volta dos 25 anos. Além disso, é exatamente no início da adolescência que ele passa por uma segunda onda de reformulação. A primeira ocorre ainda na gestação. No final da gravidez, o cérebro do feto é submetido a um processo de "poda" ou descarte dos neurônios que o próprio órgão entende não serem mais necessários. Trata-se de uma estratégia que objetiva o amadurecimento do cérebro, jogando fora o que não precisa e melhorando os canais mais importantes. O mesmo processo acontece mais ou menos aos 12 anos. E desta vez também há corte de conexões entre os neurônios. "Porém, o trabalho mostra que essa maturação acontece tardiamente no córtex pré-frontal", explica o psiquiatra Ricardo Uchida, da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O problema é que o córtex é justamente a área responsável pelo raciocínio, controle de impulsos e pela avaliação de riscos.
A escolha das conexões que serão cortadas obedece às características genéticas e à velha lei da dinâmica cerebral, segundo a qual o que não é usado é descartado - o conhecido use-o ou perca-o. Por isso, o que os cientistas estão verificando é que os circuitos cerebrais mais usados na infância, como o da linguagem ou da escrita, tendem a ser menos afetados. É também por esse motivo que os pesquisadores estão alertando para a importância de dar à criança nos primeiros anos de vida uma boa formação intelectual e também em termos de princípios, conceitos e valores. Quanto mais fortes eles estiverem gravados no cérebro, maior a chance de permanecerem.
O trabalho também aponta outras estruturas que teriam suas funções ainda não completamente amadurecidas. Uma delas é o núcleo accubens, relacionado à avaliação de quanto esforço é necessário para receber uma recompensa. Por isso, nas contas do adolescente, não vale a pena arrumar-se rapidamente para fazer um programa que considera chato. A pergunta que ele se faz é: O que eu vou ganhar com todo esse esforço? "Essa é uma das razões pelas quais é tão difícil motivar os adolescentes e por que eles preferem atividades que requerem menos esforço, mas com maior excitação", explicou à ISTOÉ Ken Winters, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Minnesota (EUA).
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