ISTOÉ - Independente
 
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Brasil  
Imprimir
 
"Levo pelo menos quatro"
O governador Teotônio Vilela recebe em sua casa o presidente da Assembléia Legislativa de Alagoas, que está afastado por improbidade administrativa, e ouve dele uma ameaça de morte

MINO PEDROSA

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ
O MOTIVO Albuquerque responsabiliza Teotônio pela investigação da PF que descobriu desvio de R$ 280 milhões na Assembléia

Há cerca de 15 dias, o presidente afastado da Assembléia Legislativa de Alagoas, deputado Antônio Albuquerque (DEM), foi ao apartamento nº 602 do Edifício Ticiano Becelli, em Jatiúca, bairro nobre de Maceió. É lá que mora o governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB). Albuquerque estava aflito e fez um pedido, quase uma súplica.

– Estão destruindo a minha vida. E você precisa impedir a perseguição da Polícia Federal.
– Tonho, eu não posso. Fui eu quem pediu a ajuda do governo federal para combater o crime organizado no Estado. É impossível para mim recuar, agora.
– Então, fala com o Renan (Calheiros, ex-presidente do Senado).
– O Renan está fragilizado. Não pode fazer nada por você.

O governador então convidou-o para sentar, mas Albuquerque, nervoso, ameaçou:

– Teotônio, já pensei em suicídio. Mas, olhe, eu não vou sozinho. Levo comigo pelo menos quatro.

Durante uma hora de conversa, Vilela tentou demover o deputado da idéia com a promessa de ajudá-lo. Ao se despedir, contudo, Albuquerque reiterou sua determinação de se suicidar e de não deixar este mundo sozinho. Apesar de alardear que é amigo de Albuquerque, Vilela tem motivos para se preocupar. O governador sempre viu o presidente da Assembléia como o obstáculo na relação entre o Executivo e o Legislativo. Apesar de ter apoiado Vilela, Albuquerque criava dificuldades para os projetos do governo na tentativa de obter favores. A amigos, Vilela confidenciou sua preocupação com o estado de espírito do deputado depois daquela conversa. A um deles, chegou mesmo a contar que o deputado lhe deu o nome dos quatro. Ele, Teotônio Vilela, encabeçava a lista. Em entrevista a ISTOÉ, o governador primeiro negou o diálogo, depois disse que não se lembrava dele. Procurado pela reportagem, o deputado Albuquerque disse: “Não quero falar com você. Eu não entreguei minha defesa ainda. Falo com você depois que entregá-la.”

SUICÍDIO O ex-presidente da Assembléia, Antônio Albuquerque, disse que vai se matar, mas só depois de se vingar do governador

ROBSON LIMA/GAZETA DE ALAGOASA crise que levou o presidente afastado da Assembléia àquele diálogo insólito com o governador começou em 17 de março último, quando o desembargador Antônio Sapucaia, do Tribunal de Justiça de Alagoas, determinou a suspensão do mandato de nove deputados estaduais. Eles foram indiciados pela Polícia Federal sob a acusação de desvio de recursos públicos do Estado da ordem de R$ 280 milhões. Um deles, o deputado Cícero Ferro (PMN), chegou a ser preso porque a polícia encontrou armas em seu poder. Acabou liberado por decisão de seus pares na Assembléia Legislativa. Os demais foram conduzidos à sede da PF para prestar depoimentos.

Para o superintendente da Polícia Federal em Alagoas, José Pinto Luna, as investigações indicam que o deputado Antônio Albuquerque, presidente da Assembléia, seria o líder do grupo. O esquema montado pelos parlamentares apropriava-se de salários e das gratificações destinadas aos servidores e assessores. “Flagramos a mulher de um deputado portando uma quantidade de cheques de funcionários fantasmas da Assembléia, que eram descontados na boca do caixa do banco, que não exigia sequer um endosso”, conta o delegado Luna. “Ela chegou a dizer que gastava dinheiro em compras pessoais, tais como bolsas Louis Vuitton e até automóveis.” O delegado Luna acrescenta que a papelada apreendida na Assembléia Legislativa revelou fortes indícios de outro esquema envolvendo parlamentares e prefeitos. “Aqui em Alagoas, a maioria das prefeituras – cerca de 70% delas – desvia verbas de merenda escolar”, acusa Luna. Na quinta-feira 3, o procuradorgeral Coaracy Fonseca impetrou uma ação de improbidade administrativa contra os deputados.

FOTOS: TÉRCIO CAPPELLO/GAZETA DE ALAGOAS
EM APUROS O deputado Celso Luiz (abaixo) teve que depor na PF sobre desvio de verbas; seu colega Cícero Ferro foi detido por posse de armas

O governador Teotônio Vilela conhece a má fama dos políticos do Estado. Por isso, tem perdido noites de sono quando recebe informações do secretário da Defesa Social, o delegado da Polícia Federal Paulo Rubin, que trabalha nas investigações de irregularidades que envolvem também políticos aliados. O governador sabe que não tem como controlar essas investigações, mas isso não serve como paliativo para eventuais desafetos.

Na semana passada, admitindo o envolvimento de Albuquerque no escândalo da Assembléia, a direção nacional do DEM resolveu expulsá-lo do partido. Poucos dias depois, dois colegas da Assembléia Legislativa se envolveram em novos escândalos. O deputado Arthur Lira (PMN), um dos nove afastados no escândalo, foi preso por agentes da Força Nacional de Segurança – que está em Alagoas a pedido do governo do Estado – por ter espancado a própria mulher. Ele responde processo referente à Lei Maria da Penha. Mas o corporativismo funcionou e 14 deputados estaduais votaram pela revogação da prisão. Outro deputado, Marcelo Victor (PTB), foi acusado de fazer “gato” para roubar energia elétrica. Ele pagava apenas R$ 20 por mês para iluminar uma casa que, segundo especialistas, deveria pagar entre R$ 300 e R$ 400. No momento em que os funcionários da Companhia de Energia Elétrica de Alagoas (Ceal) chegaram para efetuar o corte de energia, o deputado, que tomava banho, saiu na rua enrolado numa toalha. Com uma pistola na mão, agrediu um dos funcionários com coronhadas. O presidente da Ceal, Joaquim Brito, indignado, pediu instauração de inquérito policial a fim de apurar a agressão.

Casos de crimes encomendados são comuns num Estado marcado pela violência política. Um dos mais famosos foi a chacina na residência da deputada federal Ceci Cunha (PSDB), em 16 de dezembro de 1998. Ela, o marido e dois parentes foram assassinados por quatro pistoleiros. Tempos depois um deles, conhecido como “Chapéu de Couro”, confessou que tinha sido contratado pela suplente da deputada, Talvane Albuquerque – que não tem nenhum parentesco com o ex-presidente da Assembléia Antônio Albuquerque. Na quarta-feira 2 a Força Nacional de Segurança prendeu o principal suspeito do assassinato do vice-prefeito de Pilar, Beto Campanha, morto em janeiro em plena luz do dia na principal rua da cidade. Outro crime de repercussão foi o assassinato, em 1º de outubro do ano passado, do então vereador Fernando Aldo, pré-candidato a prefeito do município de Delmiro Gouveia. As investigações apontaram como principal suspeito o deputado estadual Cícero Ferro – o mesmo preso pela PF pela posse de armas.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

3/4/2008


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
       

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions



>