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Ciência  
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Os passos de Charles Darwin no Brasil
Ministério da Ciência e Tecnologia refaz a viagem do naturalista inglês ao País. Ele gostou de nossas borboletas e rãs, mas detestou os brasileiros

Por ANTONIO CARLOS PRADO

“Essa vasta floresta fará um naturalista lamber o pó da sola dos pés de um brasileiro"
Charles Darwin

O naturalista inglês Charles Darwin passava horas conversando com uma borboleta, mas era esquivo no contato com seres humanos. Esse traço de sua personalidade transparece em seu diário de viagem quando esteve no Brasil durante quatro anos (1832 a 1836) e apaixonou-se por nossa fauna e flora em seus estudos sobre a evolução das espécies. Mas ele abominou outra evolução e desancou os brasileiros – a evolução dos blocos de Carnaval. É aqui que entra o mau humor: “Esse é o primeiro dia do Carnaval (...) não estava nada determinado a encarar suas ameaças (...) ficarmos molhados com grandes esguichos e sermos atingidos por bolas de cera cheias de água (...) difícil manter nossa dignidade andando pelas ruas”. Já quanto a nossa natureza tropical, não a de folião, mas sim a das florestas e bichos, ele escreveu: “(...) deleite é uma palavra fraca para expressar os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, esteve perambulando sozinho numa floresta brasileira”. Completam- se agora 176 anos da passagem de Darwim pelo País a bordo do navio inglês HMS Beagle e uma equipe de pesquisadores brasileiros tenta refazer os seus passos. O interesse é justificável: em 2009 comemoram-se dois séculos de seu nascimento e 150 anos da publicação do livro A origem das espécies, que fez de Darwin o pai da teoria evolucionista da seleção natural, contrapondo-se à teoria teológica da criação.

O Ministério da Ciência e Tecnologia está igualmente empenhado em reunir material sobre Darwin no Brasil. Já se sabe, por exemplo, que foi no Rio de Janeiro onde ele permaneceu a maior parte de sua viagem (ficou por 93 dias) e chegou a fixar residência: no bairro de Botafogo, ao pé do Corcovado. E lá chovia muito. Também há registros de que, montado numa mula, ele subiu a Serra da Tiririca, seguindo o trajeto entre Niterói e Macaé. Na Bahia, onde temeu ser esguichado no Carnaval, o naturalista quedou-se numa hospedaria onde hoje é a praça Castro Alves.

Isso é pouco, mas, na verdade, é quase tudo. Praticamente as pistas de Darwin se apagaram, até porque o seu diário é mais rico em comentários sociológicos sobre o Brasil do que na descrição de locais urbanos por onde andou. Quando aborda as matas, ele rende o seu tributo às cigarras, aos pirilampos, aos grilos e às rãs: “Em meio à profusão de objetos notáveis, a exuberância geral da vegetação ganha longe (...) uma pequena rã, do gênero hyla, senta-se sobre uma folha de grama cerca de uma polegada acima da superfície da água e emite um coaxar agradável”. Eis o naturalista que gostou do Brasil. Mas, quando está nas cidades e se refere aos seus habitantes, Darwin deixa claro o quanto se sentia incomodado. Chegou a anotar que há brasileiros que “são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas pessoas”. Eis o homem de temperamento forte e um tanto mal- humorado.


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28/3/2008


 
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