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Jurado de morte
Médico que denunciou propinas no IML do Rio vive sem proteção policial. Duas testemunhas já morreram

FRANCISCO ALVES FILHO

ALEXANDRE SANT'ANNA/AG. ISTOÉ
PREPARADO
Daniel usa colete à prova de balas e uma pistola Glock

Sempre que entra em seu apartamento, na zona sul do Rio de Janeiro, o médico legista e professor universitário Daniel Ponte perde exatos quatro quilos e meio. Esse é o peso do colete à prova de balas e da pistola Glock 45 que Ponte usa sempre que vai à rua. O costume começou há mais de um ano, por conta das ameaças de morte que passou a receber depois de acusar policiais de criarem uma quadrilha no Instituto Médico Legal fluminense. Ponte foi vice-diretor da instituição e denunciou crimes como a cobrança de pagamento para a liberação de cadáveres, convênios irregulares com funerárias e roubo de material. Entre os acusados está o próprio chefe de Polícia Civil do governo anterior, delegado Álvaro Lins (hoje deputado estadual pelo PMDB). Tanto tempo depois, as investigações da Corregedoria de Polícia ainda não chegaram a lugar nenhum. As ameaças continuam e o legista tem reais motivos para se preocupar. Dois policiais que lhe repassaram informações morreram recentemente - um deles em acidente de moto e outro assassinado a tiros, há duas semanas. Apesar disso, o denunciante continua sem proteção de uma escolta.

"Possivelmente, eu serei assassinado", diz ele, resignado. "Mesmo com essa ameaça, não me curvo nem volto atrás."

Por apenas dez dias, entre final de dezembro e início de janeiro, o legista contou com uma equipe de agentes federais para protegê-lo. A escolta foi suspensa sob a alegação de que Ponte se recusou a entrar no Programa de Proteção à Testemunha. "Para isso, teria que mudar de cidade, deixar minha família e largar meu trabalho para receber apenas uma pequena ajuda de custo. Não teria como sobreviver", diz. "O fato de não entrar no programa não desobriga o Estado de garantir a minha vida." Ponte pensa em sair do País para recomeçar carreira profissional no Exterior. Mas se preocupa com sua mãe. "Já mandaram avisos de que ela poderia sofrer alguma represália." O Sindicato dos Médicos do Rio e outras entidades já apelaram ao governo federal para conseguir escolta, sem sucesso.

“Mesmo com essa ameaça, não me curvo nem volto atrás”
Daniel Ponte, ex-vice-diretor do IML

Em sua denúncia, Ponte revela que funcionários do IML cobravam R$ 250 pela liberação dos corpos. Ficavam com 10% e encaminhavam o restante à Chefia de Polícia Civil. "Ouvi isso de um delegado e tenho testemunha", afirma. Relata também o pagamento de propina das funerárias para os funcionários, roubo de material do instituto e fraudes com seguro de pessoas que morreram. O dossiê encaminhado por Ponte à Corregedoria é extenso, com documentos, fotos e gravações. Apesar disso, ninguém foi punido até agora. A explicação da Polícia Civil é lacônica: "Estamos apurando", disse apenas um assessor, ao ser procurado por ISTOÉ. O deputado Álvaro Lins, acusado pelo legista, não respondeu aos pedidos de entrevista feitos ao seu gabinete. O denunciante continua aguardando o resultado do inquérito sob a proteção apenas do colete e da arma. Há, no entanto, outra ameaça que ele teme tanto quanto um tiro. "Ninguém está livre de um flagrante forjado", diz. Quando os denunciados são policiais, essa possibilidade não pode ser excluída.


28/3/2008


 
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