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DENGUE NO RIO DE JANEIRO
Epidemia criminosa
Omissão de ministro, governador e prefeito favorece a proliferação do mosquito e leva o Rio à pior onda de dengue de sua história

Por RENATA CABRAL E RENATO GARCIA FOTOS: ALEXANDRE SANT'ANNA/AG. ISTOÉ

A face mais cruel da epidemia
Com suspeita de dengue, o menino David Almeida é examinado em tenda improvisada na zona oeste. Centenas de crianças pegaram a doença no Rio

Esta nefasta combinação de fatores resultou em uma situação desastrosa. A cidade do Rio de Janeiro está vivendo a mais grave epidemia de sua história, com um índice de mortalidade assustador. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a taxa de letalidade da doença não deve ultrapassar 1% dos casos. No Rio, já superou os 16%. Até a quarta-feira 26, 54 pessoas haviam morrido no Estado vítimas da doença. Além de estar muito acima do que seria aceitável - se é que alguma morte por dengue possa assim ser considerada -, esse número faz com que a enfermidade tenha se tornado uma praga tão ou mais destruidora quanto a violência que também castiga a cidade.

Só para se ter uma idéia, no ano passado inteiro, 12 pessoas morreram por causa de bala perdida. E, apenas em três meses deste ano, a dengue tomou a vida de 31 cidadãos no município carioca.

O caos obrigou a uma reação forjada nos tristes moldes de correr atrás do prejuízo. No início do mês, o Ministério da Saúde e as secretarias do Estado e do Município resolveram, enfim, unificar as ações. Montou-se um gabinete de crise, armaram-se tendas com profissionais de saúde nos bairros mais atingidos - foi em uma delas que o menino David Almeida, de quase dois anos, finalmente conseguiu ser atendido - e as Forças Armadas entraram no circuito. Só o Ministério da Saúde anunciou a liberação de R$ 3 milhões para o atendimento emergencial aos pacientes, além da contratação de 660 profissionais de saúde, a abertura de mais 119 leitos nos hospitais federais e o reforço de profissionais da Funasa no combate aos vetores.

A luta para ficar a salvo
Com febre havia dois dias e sem diagnóstico, Rodrigo, sete meses, foi internado, transferido e pegou fila. Na escola (ao lado), alunos de quinto ano aprendem a passar repelente

Infelizmente, são medidas de última hora, ainda insuficientes para apagar, por exemplo, a face mais cruel desta epidemia: a concentração de crianças atingidas. Das 54 mortes registradas no Estado, 27 eram de crianças com menos de 13 anos. Segundo os especialistas, elas seriam as mais vulneráveis, por conta de um sistema de defesa do corpo ainda não tão forte para lutar contra o vírus.

A epidemia também está provocando outro efeito: é desmedido o medo - já com tons de paranóia - que toma conta de toda a cidade. Um simples mosquito é capaz de provocar, atualmente, verdadeiro pânico. E a preocupação excessiva não é exclusividade de quem vive nas áreas que concentram maior número de casos da doença. Na zona sul da cidade, área nobre, há uma justificada histeria em curso. Moradora do Jardim Botânico, a fotógrafa e estilista Patrícia Câmara conta que a área verde em torno de sua casa faz com que a convivência com os mosquitos seja diária. E o medo, maior. Desde o início do surto da dengue, Patrícia mudou os hábitos: mantém as janelas fechadas, usa velas de citronela e repelentes elétricos e em creme. O filho, Thomas, de quatro anos, não sai sem a proteção dos produtos e vestido com calça comprida e meia, mesmo no calor do outono carioca. "Já pensei até em levá-lo para passar uma temporada em Petrópolis com a avó, para fugir do surto", diz, apavorada.

* Dados até 26/03/2008Nas escolas, as crianças se preparam diariamente para assistir às aulas e, ao mesmo tempo, se proteger do mosquito. Os alunos do quinto ano do Centro Educacional da Lagoa, da Unidade Jardim Botânico, na zona sul, renovam constantemente a dose de repelente em sala de aula. As crianças fazem parte, inclusive, de um grupo que fiscaliza as ações de prevenção do colégio contra a epidemia.

De uma forma trágica, o fato é que a enfermidade se infiltrou no cotidiano da cidade. E tem levado a todos - moradores do Rio de Janeiro ou não - um imenso sentimento de indignação. O apresentador Luciano Huck, vítima famosa da epidemia atual, resume bem esse estado de ânimo. "Acho uma vergonha um país como o Brasil ainda ter que lidar com questões de saúde pública tão primárias como a dengue. E acho uma irresponsabilidade dos poderes em suas três esferas, principalmente em relação às crianças", afirma.

Uma outra auditoria concluída pelo TCU em novembro do ano passado mostra que mais municípios no País enfrentam as mesma situações de descaso vistas no Rio. Se as lições do combate real e efetivo à dengue não forem aprendidas agora, este pode ser apenas o primeiro capítulo de um triste futuro.

Colaboraram: Ana Carolina Soares e Mônica Tarantino

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28/3/2008


 
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