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DENGUE NO RIO DE JANEIRO
Epidemia criminosa
Omissão de ministro, governador e prefeito favorece a proliferação do mosquito e leva o Rio à pior onda de dengue de sua história

Por RENATA CABRAL E RENATO GARCIA FOTOS: ALEXANDRE SANT'ANNA/AG. ISTOÉ

Temporão, o resistente

Dizem que foram a negligência, as falhas na fiscalização epidemiológica e as chuvas que mataram o menino Rodrigo Yamawaki Roig, na foto ao lado com o pai e as irmãs, e outras 30 pessoas na cidade do Rio de Janeiro até a quarta-feira 26. No atestado de óbito de cada um deles consta que foram vítimas de dengue. Essas explicações, entretanto, não justificam por que a epidemia anunciada chegou a esse ponto dramático. Revoltados, os cariocas evocam outras causas para a mais grave crise da doença registrada no Estado - e particularmente na sua capital - nos últimos anos: esculhambação, incompetência, ausência de sentimento humanitário nos políticos, que nem sequer usaram o dinheiro disponível para evitar a proliferação do mosquito ou para atender os contaminados. Como não responsabilizar a falta de ação do prefeito Cesar Maia, a indiferença do governador Sérgio Cabral - que cortou quase 49% da verba deste ano destinada a combater a dengue no Estado -, e a lentidão do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, pela desgraça?

A história de descaso começa com o desleixo na prevenção de uma tragédia que já estava anunciada. Em junho do ano passado, por exemplo, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que a quantidade de imóveis na capital não vistoriados pelos agentes incumbidos de acabar com os criadouros do mosquito Aedes aegypti, o transmissor do vírus da dengue, era muito maior do que a aceitável. Àquela altura, eles somavam 40% das residências. O tolerado é no máximo 10%. Era uma bomba em gestação. Mas, como mostra a realidade, pouco se fez para desarmá-la. As desculpas? Beiram o patético e, de novo, remetem à velha ladainha brasileira de empurrar a responsabilidade pelo que dá errado para o gabinete alheio. O secretário de Saúde da capital, Jacob Kligerman, alfineta: "Os agentes encontraram dificuldades em áreas dominadas por traficantes. Coisas que o governo do Estado tinha que resolver." O secretário de Saúde do Estado, Sérgio Côrtes, rebate: "Em Niterói (cidade vizinha), o número de infectados é pequeno e não foram registradas mortes. Lá tem um programa de saúde eficiente."

Retrato de família Rodrigo, com medalha ganha no judô, o pai e as irmãs Yasmin (à dir.) e Luiza: sonhos interrompidos

O garoto que queria estudar
Rodrigo Yamawaki Aguilar Roig, seis anos, estava muito feliz porque iria aprender a ler e escrever. Antes de as aulas começarem, ele passou horas sentadinho no seu quarto colando adesivos nos cadernos que ganhara. O resto do material escolar já estava dentro da mochila nova e o clima prenunciava um grande acontecimento, o que não acontecerá mais. O menino que estava tão animado para entrar no mundo das letras morreu justamente na sua primeira semana de aula. Na terça-feira 19 de fevereiro, Rodrigo reclamou de cansaço e sonolência. Os pais, Marcos e Glória, o levaram a uma clínica particular do bairro em que moram, na Penha, subúrbio do Rio. Foram informados de que o filho tinha rinite crônica. Dois dias depois, a criança piorou e foi levada para outra clínica, que, enfim, deu o diagnóstico de dengue - mas mandou-o de volta para casa. No quarto dia, já em desespero, os pais procuraram outra emergência pediátrica.

Tiveram que pegar uma senha e esperar o atendimento. O pequeno Rodrigo não agüentou e desmaiou. Nas mãos do médico, teve a primeira parada cardíaca. Horas depois, morreu por falência múltipla dos órgãos, causada por dengue hemorrágica.

Era o dia 22 de fevereiro.

A data marca um futuro que não vai existir. Rodrigo não ganhou tantas medalhas no judô quanto poderia e nem viu seu Botafogo entrar no estádio do Engenhão, no Rio, como sonhara. O menino de olhar curioso não chegará a ser "consertador", a profissão que tinha escolhido por admirar o trabalho do pai, eletrotécnico. "Ele era a minha sombra, queria as mesmas coisas que eu", lembra Marcos. A alegre casa da família agora soterra a todos com lembranças dolorosas. "Os piores momentos são os das refeições", diz Glória. Ela era recompensada com abraços nas pernas dados pelo filho quando o prato era frango ensopado.

As irmãs, Luiza, quatro anos, e Yasmin, dez, que dividiam o quarto com Rodrigo, estão dormindo em colchonetes perto dos pais. Ninguém teve coragem, ainda, de mexer no que ele deixou. Exceto Marcos, por um motivo especial. Ele botou no pequeno caixão do filho algumas medalhas de judô, o boneco Ben10, que ele tanto amava, e a blusinha preferida com o escudo do Botafogo. Ainda destroçado, Marcos parte para outro tipo de ação: processará as clínicas a que recorreu e pretende entrar com uma notícia-crime na Justiça responsabilizando a União pela morte de Rodrigo. No mais, a família mantém o único direito que restou: chorar pelo que é incompreensível, inenarrável e indefensável.

O documento do TCU revela outra falha grave. Segundo o relatório, o governo do Estado não aplicou como deveria o dinheiro disponível para cumprir os planos de prevenção. "Em dezembro de 2006, havia R$ 8 milhões na conta que não tinham sido usados. Eles ficaram em aplicações financeiras e, em abril de 2007, o saldo em conta era de cerca de R$ 9,2 milhões", afirma Valmir Campelo, ministro do tribunal responsável pela auditoria. "Queremos saber por que essa verba estava parada quando a maior parte dela deveria estar sendo usada na intensificação das ações do Plano Nacional de Combate à Dengue", diz o ministro.

A negligência mostrou sua face também na área do atendimento, quando finalmente a epidemia explodiu. Os hospitais da rede pública, tal como os particulares, mostraram-se despreparados para atender à alta demanda. Os problemas começam já na hora do diagnóstico. Muitos médicos trataram os sintomas como se fossem os de uma virose comum. Em outras centenas de casos, mães e filhos estão sendo obrigados a percorrer um, dois, três hospitais em busca de uma resposta. Esta foi a saga da dona-de-casa Maria Zilma dos Santos Luiz. Na quartafeira 26, ela acompanhava o atendimento de seu bebê Rodrigo, sete meses, em uma das tumultuadas enfermarias do Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, zona oeste do Rio - a mais atingida. "Viemos transferidos da Unidade de Pronto Atendimento de Campo Grande", contou. Também há falta de leitos para tantos infectados - até a quarta-feira 26, eles já somavam 28.233.

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28/3/2008


 
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