A política industrial de Miguel Jorge Governo prevê investimentos de R$ 251 bilhões até 2010 em 24 setores da economia, mas a eficácia desse plano vai depender da política monetária
Por OCTÁVIO COSTA
Obviamente, a decisão dos fabricantes de automóveis vai depender dos rumos da economia. E este é o único reparo que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) fez até o momento sobre a nova política industrial. Para técnicos da entidade, muitas das propostas dos empresários foram atendidas e o pacote acerta ao indicar metas concretas e bem quantificadas, mas terá de ser coerente com a política econômica. “O plano fixa um norte, é bem desenhado, porém falta assumir uma estratégia de desenvolvimento de maneira mais firme, como foi feito com o PAC. O investimento em infra-estrutura se sobrepôs aos ditames da política monetária”, afirma o economista Maurício Mendonça, gerente de competitividade industrial da CNI. Em suma, o plano de Miguel Jorge é bem-vindo, mas sua eficácia vai depender – e muito – dos cordéis movidos por Guido Mantega e Henrique Meirelles.
DESLIZE O ministro Mantega pode ter vazado informação do BC
TEM BOI NA LINHA
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, costuma tomar cuidado com o que diz. Sabe que pode influenciar o mercado, levando investidores a tomar decisões erradas. Às vezes, porém, comete deslizes. Foi assim quando anunciou a criação de um imposto para substituir a CPMF e também quando antecipou medidas cambiais que jamais foram postas em prática. Na semana passada, ele deu novo escorregão ao informar que o governo está preocupado com a explosão do consumo e vai tomar medidas que ponham limites ao endividamento das famílias. Vêm aí medidas de corte do crédito, trombetearam os jornais. Uma medida seria a redução do prazo máximo de financiamento de automóveis de 99 meses para 36 meses. A notícia correu o País e assustou até mesmo o presidente Lula. Na segunda-feira 24, durante a reunião da coordenação política, no Planalto, Lula perguntou que história era aquela de frear o consumo e encurtar prestações. O ministro disse que tudo não passou de um mal-entendido. Segundo sua versão, um jornalista perguntou se não estava preocupado com o excessivo aquecimento da demanda e ele teria respondido que, por enquanto, tudo corre bem. Em 2009, porém, poderá haver problemas com o fornecimento de aço para a indústria. O entrevistador quis saber, então, se Mantega não achava que já era hora de reduzir o prazo de financiamento de veículos. O ministro garante que deixou a resposta no ar e que o prazo de 36 meses saiu da cabeça do repórter. Diante da explicação, Lula pediu que Mantega convocasse a imprensa e fizesse um desmentido público. O que o ministro fez, sem esconder o constrangimento. Seus assessores juram que tudo não passou de uma grande confusão. Ela, de fato, ocorreu, mas foi de outra ordem. A Fazenda voltou a bater cabeça com o Banco Central, que está, sim, estudando medidas de contenção do crédito. Pode impor limite ao endividamento através de cartões de crédito e aumentar os custos nas operações de leasing. Ironicamente. o Banco Central não descarta a redução do prazo dos empréstimos. Pelo visto, Mantega deixou vazar uma informação confidencial. O que pega mal para um ministro da Fazenda.