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Entrevista  
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HAROLDO LIMA
''Podemos trocar petróleo por ferrovias e portos''
Presidente da ANP quer recriar o monopólio do Estado na extração e defende a criação de uma nova estatal para o setor

ISTOÉO sr. diz que o Brasil, hoje com seis dezenas de empresas na área de exploração e produção de petróleo, poderia passar a ter milhares. Como?
Lima – Os Estados Unidos têm 23 mil empresas desse tipo, a maioria pequenas e médias. O que se vê é que perto de uma grande indústria há um “cavalo de pau” (pequena máquina de perfuração) tirando petróleo. É apenas um poço, que mantém uma pequena empresa familiar onde todos ganham muito bem. Tiram 5, 6, 10 barris de petróleo por dia. Uma pesquisa revela que 600 dessas empresas americanas tiram 4 barris por dia. É como se fosse uma vaquinha, que sustenta uma família. Nos EUA podem-se ver belas plantações de arroz, por exemplo, com uma torre de exploração de petróleo no meio. Temos que fazer isso aqui.

ISTOÉ Na última rodada de licitação para exploração do petróleo, as pequenas e médias empresas se destacaram. O mercado brasileiro já está mudando?
Lima – As grandes não compareceram, mas a rodada foi recorde de negociações. As pequenas e médias empresas tiveram um desempenho importante. Acredito que isso pode apontar para uma nova realidade do mercado. Teremos o bolo dividido entre a nossa grande estatal, as outras grandes empresas e, por fim, as pequenas e médias empresas. Essa terceira vertente tem que ser incentivada. Para se ter uma idéia, temos 157 campos em terra, que correspondem a 0,6% das reservas brasileiras. Isso daria para criarmos um grande setor de médios e pequenos produtores, com milhares de poços de petróleo a serem desenvolvidos e reativados.

ISTOÉ Pelo visto, há muito o que explorar ainda...
Lima – Temos 29 bacias sedimentares brasileiras. Nós estamos presentes em apenas 4,7% da área dessas bacias. É pouquíssimo. Nosso conhecimento geológico refere-se a apenas 8% dessa área. Há muito ainda por explorar. Tanto é assim que somente no final do século XX descobrimos a maior reserva de ferro do planeta, que é Carajás.

“Sarney, apesar de conservador, evitou que adotássemos o modelo argentino: mercado aberto, sem estatal"
LEOPOLDO SILVA

ISTOÉO sr. afirma que no final do governo FHC a Petrobras estava em atividade declinante, o que a tornaria inviável. O presidente fez isso deliberadamente?
Lima – Essa expressão “declinante” e essa idéia de que isso seria um plano para inviabilizar a Petrobras é do (José Sérgio) Gabrielli, atual presidente da empresa. Minha análise é que logo após a abertura do mercado pensouse em privatizar a Petrobras. Mas houve uma movimentação no Congresso que impediu que isso acontecesse. O momento culminante foi quando José Sarney, presidente do Senado na época, resistiu. Ele disse que só colocaria o projeto de quebra do monopólio em votação se FHC mandasse uma declaração por escrito de que não haveria privatização da Petrobras. Sarney, que apesar de conservador é um homem nacionalista, conseguiu então evitar que adotássemos aqui o modelo argentino: mercado aberto, sem estatal. Com Lula, a empresa saiu dessa linha declinante e passou para a ofensiva, voltou a crescer.

ISTOÉComo é a relação da ANP com a Petrobras? Há algum tipo de pressão por parte da empresa?
Lima – Não tem. Esse modelo aberto com presença estatal está completando 10 anos, é recente e representa uma experimentação para o Brasil, para a ANP e para a Petrobras. A empresa nunca foi controlada por uma agência e nenhuma agência controlou um gigante como a Petrobras. Claro que notamos que volta e meia a Petrobras quer conversar conosco ou trocar idéias. Mas desde que estou aqui nunca apresentou nenhuma resistência e nenhum pleito. O que houve é que a ANP foi criada com um viés contrário à Petrobras. Mas, desde que estou aqui, esse viés deixou de existir. Não somos contra ou a favor a Petrobras. Agora que estamos discutindo um novo marco regulatório, a empresa não participa, já que ela estará inserida nessas regras.

ISTOÉ Não é curioso que o sr., um tradicional comunista, ensine aos capitalistas brasileiros como modernizar o mercado do petróleo?
Lima – Estamos mostrando como se faz para defender os interesses da Nação. Isso não pode ser feito inviabilizando a exploração de petróleo. Aí, não estaríamos defendendo o interesse de ninguém. Devemos permitir que haja uma boa margem de funcionamento das empresas, mas que os interesses brasileiros sejam resguardados.

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28/3/2008


 
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