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ROBERTO MANGABEIRA UNGER
''Tenho muitas idéias, só não tenho caneta''
O ministro diz que há uma nova classe média no País, mestiça e morena, e defende a idéia de o Estado impor o capitalismo

Por RUDOLFO LAGO E OCTÁVIO COSTA

ISTOÉ - Já com os militares, sua relação tem sido muito boa. Tanto que seu gabinete fica em uma sala no prédio do Comando do Exército.
Mangabeira
- Sou o primeiro civil agraciado com um espaço aqui dentro. Tudo para mim tem sido uma surpresa. Se eu tivesse que nomear quem tem sido os meus aliados mais entusiasmados, colocaria em primeiro lugar os cientistas, depois as Forças Armadas e a Igreja.

ISTOÉ - A Igreja?
Mangabeira - Sim. Eu me reuni com a direção da CNBB, a convite de seu presidente, dom Geraldo Lírio, para expor minhas idéias sobre o País, e todos foram muito receptivos. Agora, pretendo expor essas idéias a representantes de outras confissões.

ISTOÉ - Em que se afinam as suas idéias e as dos militares?
Mangabeira - Na certeza de que não existe estratégia nacional, seja econômica, seja social, sem estratégia de defesa. Pela primeira vez, com a ajuda do ministro Nelson Jobim, a discussão militar associa-se à discussão de País como um todo. Não basta as Forças Armadas apresentarem uma lista de equipamentos que precisam adquirir. Isso é acessório. A aquisição depende da idéia de política de defesa que desejamos. É isso o que estamos construindo.

ISTOÉ - Sendo de longo prazo, seu projeto não corre o risco de ser jogado no lixo pelo próximo governo?
Mangabeira - Esse é um risco real. Eu encaro a minha tarefa como uma contribuição para um projeto de Estado, e não um projeto governamental. Assim, além de buscar a convergência dentro do próprio governo, é preciso buscar uma convergência de opiniões dentro da sociedade. Para que isso ganhe uma dinâmica própria natural, que não pareça uma imposição de idéias ao próximo governo. É por isso que tenho, como no caso das idéias para a Amazônia, procurado viajar, apresentando minhas propostas ao meio acadêmico e à sociedade organizada.

ISTOÉ - Antes de entrar para o governo, o sr. fez pesadas críticas à gestão Lula. O sr. mudou de idéia?
Mangabeira - Naquele momento, eu fui levado por um excesso, por uma paixão. Queria reforçar o discurso de que precisamos tirar a política da sombra corruptora do dinheiro. Não distingui os elementos do sistema dos elementos pessoais. Hoje, sei que o governo foi vítima de um sistema perverso de construção de maiorias que precisa mudar. O que eu sei hoje é que não foi fácil para o presidente Lula fazer o convite a mim. E não foi fácil, para mim, aceitar.

"A eleição de Obama pode acelerar o momento de inflexão dos EUA. E pode ser boa para o Brasil"
ALEX BRANDON/AP/IMAGEPLUS

ISTOÉ - Qual papel o sr. atribui ao presidente Lula?
Mangabeira - Há uma nova classe média surgindo no País. Morena, mestiça, que inaugura uma nova cultura, um novo modo de pensar. O Brasil é um país onde só uma minoria da sociedade está organizada. É fácil comunicar-se com a minoria organizada. Mas essa minoria não é referência das necessidades de todo o Brasil. E é difícil comunicar-se com essa maioria desorganizada. Nisso, a identificação do presidente Lula e a sua facilidade de comunicação com a sociedade são fundamentais.

ISTOÉ - O sr. foi professor do senador Barack Obama. Que previsão o sr. faz para a disputa eleitoral americana?
Mangabeira - Na Divina comédia, o castigo no inferno para quem faz previsão é ser preso com uma corda no pescoço com a cabeça sempre voltada para trás. Conheço Obama, que foi meu aluno. Ele é uma pessoa de grandes qualidades morais. Sem querer fazer previsões, eu avalio que o perfil de Obama é o que mais se aproxima do momento pelo qual estão passando os EUA.

ISTOÉ - Que momento é esse?
Mangabeira - Há sinais de que os EUA estão se aproximando de um grande momento de inflexão histórica. A lógica de governo do Partido Republicano baseava- se numa conjugação dos interesses da plutocracia e da classe trabalhadora branca. Isso está sendo desmontado. A eleição de Obama pode acelerar esse processo. E pode ser muito boa para o Brasil.

ISTOÉ - Por quê?
Mangabeira - Porque o Brasil é o país do mundo mais parecido com os EUA. Em ambos, houve o povoamento europeu somado à escravidão africana. Em ambos, há grandes desigualdades sociais. Imensos territórios. E, agora, tanto aqui como lá, parece haver, com essa inflexão que mencionei nos EUA, um interesse de mudar o atual modelo de desenvolvimento para a organização de uma economia menos hostil, mais hospitaleira.

ISTOÉ - Se somos tão parecidos, o que falta ao Brasil para chegar ao patamar dos EUA?
Mangabeira
- Vontade forte e idéia clara. Para quem tem isso, o mundo está cheio de oportunidades.

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26/3/2008


 
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