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Os pecados do século XXI
Em meio à debandada de fiéis dos confessionários, Igreja Católica acrescenta à lista de faltas graves questões ligadas à manipulação genética e ao meio ambiente

DÉBORA CRIVELLARO

FOLHA PRESS
REFLEXÃO A igreja do papa Bento XVI quer mostrar as variações do pecado no mundo moderno

Vícios sistematizados
Opecado começou a ser sistematizado em listas desde o Antigo Testamento. A primeira delas, e a mais clássica, são os Dez Mandamentos, descritos no livro do Êxodo. Quem contraria as orientações desses preceitos (“Não furtar”, “Não desejar a mulher do próximo”, “Não levantar falso testemunho”, por exemplo) está pecando. O apóstolo Paulo, na Carta aos Gálatas (Novo Testamento), também elenca ações como fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes.

Uma das listagens mais conhecidas são os sete pecados capitais (orgulho, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça), uma classificação de vícios chamados capitais porque seriam capazes de gerar outros. Não há registro deles na Bíblia. Eles foram criados pelo teólogo e monge grego Evágrio do Ponto, no século IV, que teria escrito uma lista de oito crimes e paixões humanas. Essa doutrina foi conhecida pelo monge e teólogo João Cassiano, que a divulgou no Oriente. No século VI, o papa Gregório Magno adaptou-a para o Ocidente, reduzindo a lista para sete. A atual versão é uma organização de São Tomás de Aquino, no século XIII.

Igreja Católica quer mostrar para seus fiéis as novas faces do pecado na sociedade contemporânea. A largada foi dada pelo bispo Gianfranco Girotti, integrante da Penitenciaria Apostólica, um tribunal da Cúria Romana que trata de questões de consciência, durante uma entrevista concedida ao jornal oficial da Santa Sé, L’Osservattore Romano, após a conclusão de um curso de atualização do sacramento da confissão para sacerdotes.

Girotti avaliou que os pecados cometidos atualmente têm um impacto social, principalmente por causa da globalização. “Antes, eles tinham uma dimensão individual”, explicou. A partir dessa conclusão, ele discorreu sobre o que também é pecado a partir de agora. A manipulação genética, incluindo o uso de embriões, os danos ao meio ambiente e o uso de drogas formam essa lista. A grande preocupação são as questões que envolvem a bioética, na qual, segundo o membro da hierarquia romana, “há violações dos direitos fundamentais do ser humano, com resultados difíceis de prever e controlar”. O tráfico e o consumo de drogas aparecem como “um perigo que enfraquece a psique e obscurece a inteligência, deixando muitos jovens fora da Igreja”. Outra grande ofensa são as desigualdades sociais. Para o bispo, os católicos devem pedir perdão e fazer penitência por “alimentar uma insuportável injustiça social”. Fechando a lista de pecados, os crimes ecológicos, “que hoje despertam grande interesse”.

Para dom Pedro Stringhini, bispo auxiliar de São Paulo, a Cúria Romana está querendo fazer uma reflexão atualizada do sentido do pecado, que é uma ofensa ao ser humano. “O meio ambiente, por exemplo. Há 50 anos, quem se importava com alguém que jogava garrafas de plástico na rua?”, indaga. Stringhini lembra que o pecado social é não só estrutural, mas também individual. “A avareza, por exemplo, um dos sete pecados capitais, é também a ganância de alguns em detrimento de outros e, portanto, um pecado social”, acredita.

O professor Antônio Flávio Pierucci, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), tem linha de raciocínio diferente. O curioso desses pecados sociais, segundo ele, é que a religião é sempre a salvação do indivíduo, não da coletividade. Ou seja, para os cristãos, o pecado é individual e o arrependimento é pessoal. “Quem tem culpa do pecado social? Quem toma banho demorado peca? A pessoa precisa se confessar por causa do aquecimento global do planeta?”, argumenta. O professor suscita outra questão. Para ele, a igreja não está preocupada em refletir sobre os crimes ecológicos ou o tráfico de drogas. O ponto nevrálgico é a manipulação genética, cujo debate, tal qual no Brasil, também está movimentando a Itália. “A estrutura lógica do discurso católico é incapaz de acompanhar a abertura dos enunciados científicos, por isso ela toma essas atitudes”, considera.

Independentemente dos motivos que a impelem, a Igreja Católica sob o comando do papa Bento XVI sabe que está inserida num mundo secularizado e quer enfrentá-lo conhecendo as armas do inimigo. “Para a consciência da sociedade de hoje, o apelo ético a responsabilidades sérias pode funcionar muito mais e melhor do que insistir em vícios de conduta, como vaidade e avareza”, diz o teólogo jesuíta João Batista Libânio, autor de diversos livros sobre política eclesial romana. “E, por mais que o atual papa seja um fiel e rigoroso cumpridor das leis, ele também é um intelectual, o que o faz refletir sobre a defasagem de certas idéias e a gravidade de determinadas situações”, completa o jesuíta, que conviveu com Bento XVI durante a juventude.

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19/3/2008


 
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