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Entrevista  
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JOSÉ MÁRCIO CAMARGO
Melhor que no milagre econômico
O economista que formulou o Bolsa Família explica por que a atual fase de crescimento é mais consistente que a da época da ditadura e reclama uma nova agenda para o Brasil

Por CARLOS JOSÉ MARQUES, LUCIANO SUASSUNA E MÁRIO SIMAS FILHO

ISTOÉ Qual a nova agenda?
José Márcio – Ela começa pela educação. A taxa de retorno no Brasil é altíssima. Não há nada que renda mais do que investir em educação. A cada ano adicional que o sujeito fica na escola, a renda aumenta 10%. No entanto, a demanda por educação no Brasil é muito pequena. Não vejo um candidato a presidente ter como plataforma melhorar a qualidade da educação.

ISTOÉ – O Bolsa Família é um começo?
José Márcio – A idéia do Bolsa Família é comprar o tempo da criança para que ela fique na escola. Nas famílias pobres, uma criança pode trazer até 30% do orçamento familiar, vendendo balas em semáforos, por exemplo. Então, entre deixar a criança na escola ou colocá-la para trabalhar, os pais preferem a segunda opção. O Bolsa Família paga o pai para deixar o filho na escola.

ISTOÉNão cria uma geração que deixa de trabalhar porque recebe mensalmente do governo?
José Márcio – Esses são os pais. A criança está na escola. Não interessa o que o pai faz com o dinheiro. A produtividade desse sujeito já é muito baixa. O que interessa é investir na criança. O Bolsa Família, a meu ver, é o melhor programa social que o País poderia ter.

ISTOÉÉ um programa eleitoreiro?
José Márcio – O sujeito que é contra ele não terá o voto daqueles que se beneficiam. Mas isso é normal. Qualquer programa de governo afeta as eleições. Ninguém nunca diz que as bolsas que a Capes dá para o cidadão fazer doutorado nos Estados Unidos são eleitoreiras ou assistencialistas.

ISTOÉO que vem depois do Bolsa Família?
José Márcio – Acho que agora é lutar por escola em tempo integral. Nenhum país conseguiu resolver seu problema de educação, de igualdade educacional sem haver tempo integral na escola pública.

“José Serra é a última liderança política da velha guarda e ele não deveria se colocar como candidato"
DANIEL GUIMARÃES

ISTOÉ Só na rede pública?
José Márcio – Lembro de uma conversa com o professor Darcy Ribeiro, vice-governador do Rio, logo que o Brizola fez os Cieps. As pessoas diziam que os Cieps ofereciam educação em tempo integral e que isso era jogar dinheiro fora. Em um jantar com o Darcy, um pessoal do PMDB reclamou e o professor disse: “Quando seu filho chega da escola e não sabe fazer a lição, o que acontece?” O sujeito respondeu que a mulher o ajudava na tarefa. Então, Darcy concluiu: “Pois é, em família pobre, se o filho chega em casa e não sabe fazer a lição, ele não faz porque o pai também não sabe. Ou ele faz tudo na escola ou não vai fazer nada em casa. O filho do pobre precisa da escola em tempo integral para ter as mesmas oportunidades do filho do rico.”

ISTOÉ Por que os Cieps não deram certo?
José Márcio – Os pais precisavam do filho trabalhando. Por isso o Bolsa Família acerta ao pagar para a criança ficar na escola. Mas os Cieps do Brizola foram os embriões do Bolsa Família.

ISTOÉO que falta para o Brasil acertar na educação?
José Márcio – O Brasil passou de 1940 a 1980 dando incentivo fiscal para empresário investir em capital físico. Depois, a partir de 1990, o País passou a gastar dinheiro com seus idosos. Hoje, o Brasil gasta 22 vezes mais per capita com aposentadoria e pensão do que com ensino fundamental. Ou seja, resolvemos gastar dinheiro com os idosos e nunca gastamos dinheiro com as crianças. É o único país que investe no passado. O resultado dessa equação é que 50% das crianças brasileiras vivem em famílias pobres e só 10% dos idosos vivem em famílias pobres. Ou seja, o brasileiro é pobre quando criança, segue pobre quando adulto e deixa de ser pobre a partir dos 60 anos.

ISTOÉ A nova reforma tributária aumenta ou diminui impostos?
José Márcio – A reforma que está posta não tem a função de reduzir carga tributária, e sim de tornar o sistema mais eficiente. Mas temos uma carga muito elevada. O Brasil precisa reduzir alíquotas de impostos, e não desonerar setores específicos.

ISTOÉ Mesmo sem a CPMF o Brasil tem batido recordes de arrecadação. Por quê?
José Márcio – Por causa das reformas. A lei das micro e pequenas empresas está trazendo um monte de gente para a formalidade. O mesmo acontece com o crédito consignado. Antes, o trabalhador não fazia questão de estar na formalidade. Agora não. Com um contracheque, ele faz o empréstimo para comprar o que pretende.

ISTOÉ Os nomes cotados para a sucessão de Lula podem comprometer essa boa onda econômica?
José Márcio – Acho que está na hora de o Brasil mudar de tecla política. Os candidatos que tivemos até hoje são produtos do período ditatorial. As campanhas são muito calcadas nas disputas que vieram daquele período. Acho que José Serra é a última liderança política da velha guarda e ele não deveria se colocar como candidato. O Brasil precisa superar essa discussão. Está na hora de olhar mais para a frente. Precisa de outras idéias, que liderem uma nova agenda.

ISTOÉ Não há o risco de um aventureiro levar a eleição?
José Márcio – Entramos em uma rota que é difícil mudar. Desses candidatos todos, o que mais se aproxima do que vivemos é o Aécio. Ele é novo porque não tem preconceito contra esse processo. Está disposto a aceitar o que outros aceitaram a contragosto.

ISTOÉ O que, por exemplo?
José Márcio – A privatização, por exemplo. A última campanha do Alckmin mostrou quanto o PSDB estava incomodado em defender a privatização. E o Lula continuou com ela. Isso é importante. O acordo com o FMI também foi a contragosto. Mas isso é um processo e quando se entra nele é difícil sair.

ISTOÉNosso crescimento hoje é melhor do que no período do milagre econômico?
José Márcio – É mais sólido, mais consistente.

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19/3/2008


 
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