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Comportamento  
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Geração eu
Jovens da era da tecnologia são superantenados, mas cada vez mais voltados para si mesmos

CARINA RABELO

EM CASA Orkut e MSN levam adolescentes como Daniel a preferir o isolamento a sair com os amigos

A festa do iPod é um dos hits do momento entre os jovens espanhóis. Trata-se de um encontro sem música ambiente, onde cada um leva seu aparelho, coloca os fones no ouvido e ouve o que quer. Com pouca conversa, estão todos “juntos”, mas cada um mergulhado em seu próprio mundo. Esse tipo de comportamento não está restrito ao povo espanhol. Adolescentes reproduzem a cena em todos os continentes, preocupando pais atônitos (com uma realidade muitas vezes desconhecida) e dividindo especialistas. Há os que garantem que esses garotos estão se isolando, voltando-se cada vez mais para si mesmos. Já outros defendem que, graças à tecnologia, esses mesmos adolescentes estão mais inteligentes e bem informados. De toda forma, a única coisa de que se tem certeza até agora, e é unanimidade entre as correntes de pensamento, é que os riscos e os benefícios dessas práticas podem coexistir.

A chamada “geração tecnológica” (iGeneration) inspirou a professora Jean Twenge, do Departamento de Psicologia da Universidade San Diego, a pesquisar mais de 1,3 milhão de jovens americanos. O resultado do trabalho foi publicado no livro “Generation me: why today’s young americans are more confident, assertive, entitled – and more miserable – than ever before” (Geração do eu: por que os atuais jovens americanos são mais confiantes, agressivos, rotuladores – e mais infelizes – do que qualquer outra geração – Editora: Free Press / 2007). “Os jovens de hoje têm mais liberdade e independência, mas estão mais ansiosos e solitários”, disse Twenge à ISTOÉ. “Eles são multimídia e querem fazer tudo ao mesmo tempo e a tecnologia favorece esse imediatismo. Assim, quanto mais alternativas, maior a confusão”, completa o sociólogo e especialista em juventude e tecnologia, Antônio Flávio Testa, da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo os estudiosos, o isolamento físico é o principal risco do vício tecnológico. É o caso da jovem Sabrina Pinheiro, 18 anos, de São Paulo, que sai do cursinho todos os dias às 12h30 e, ao chegar em casa, ingressa num universo paralelo. A pequena garota de cabelos castanhos é tímida, detesta maquiagem e usa óculos, mas Brina Enzo, seu personagem no jogo virtual Second Life, é loira, alta, produzida e tem um corpo “violão” – além de ser superextrovertida. Sabrina tem poucos amigos, mas Brina é a alma de qualquer festa. O personagem só sai de cena quando a estudante é obrigada a dormir para encarar a realidade do dia seguinte. “Já saí várias vezes com meus amigos e me arrependi de não ter ficado em casa jogando”, revela. O paulistano Daniel Clemente, 19 anos, outro fã do jogo, concorda. “É bem mais interessante do que a vida real. Lá a gente pode voar, correr riscos e encontrar uma novidade a cada dia”, defende.

Os tocadores de MP3 e iPods também podem funcionar como instrumento de isolamento para muitos jovens. Thayssa Carvalho, 16 anos, do Rio de Janeiro, por exemplo, sai sempre com os amigos, mas cada um leva o seu iPod para um encontro de poucas palavras e muita música, tal qual os jovens espanhóis. A mãe, Claudia, demonstra preocupação. “Às vezes ela está com a gente no carro e fica o tempo todo sem falar, só com os fones no ouvido”, revela. O MSN produz comportamentos semelhantes. Online 24 horas por dia, o estudante carioca Leandro Cruz, 21 anos, só percebeu que estava viciado na ferramenta de comunicação instantânea quando seu computador quebrou. Foram quatro dias de irritação e ansiedade. “Fiquei sem chão”, define.

As conclusões de Twenge receberam críticas de outros analistas. “A tendência ao isolamento é uma marca da personalidade de cada um, não de uma geração”, contesta o psicólogo Kali Trzesniewski, especialista em auto-estima pela Universidade de Standford (EUA). “O comportamento dos jovens depende da educação que eles receberam. Mesmo sem a tecnologia, existe o garoto que se isola da família porque prefere ler livros ou jogar bola”, complementa Testa. Mas todos os psicólogos concordam num ponto. Não adianta proibir o uso da internet, do iPod ou dos jogos eletrônicos. O fundamental é conscientizar a garotada sobre os limites do uso.

LUCIANA WHITAKER/AG. ISTOÉ
EM GRUPO Viciados em iPods, Thayssa e sua turma não dispensam os fones de ouvido nos encontros. Cada um só ouve o que gosta

12/3/2008


 
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