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Entrevista  
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CAMILLE PAGLIA
''Não há mais o culto à mulher bem-sucedida profissionalmente'
Uma das principais vozes do pós-feminismo, a escritora valoriza a mãe que abre mão da carreira para cuidar da família

Por CLAUDIA JORDÃO

ISTOÉ - No seu livro mais recente, Break, Blow, Burn, a sra. reage às "expectativas frustradas" e às "energias perdidas" dos jovens de sua geração. Como analisa a transição deles para o mundo adulto?
Camille - Nos anos 60, muita gente se entupiu de drogas. Eles tinham grandes ideais de transformação política e social, mas se destruíram e se neutralizaram. Depois, essa minha geração de libertação sexual deu de cara com a Aids, que explodiu nos anos 80. Mais uma vez, muitas pessoas brilhantes e profissionais promissores foram impedidos de agir. Eu tenho uma grande melancolia em relação aos meus parceiros de geração, cujas idéias, tremendamente inspiradoras, não tiveram tempo de se tornar ações na prática.

ISTOÉ - Atualmente, a preocupação com a aparência tem tomado proporções cada vez maiores entre as mulheres, inclusive entre as bem jovens. O que pensa disso?
Camille - O corpo se tornou algo como um trabalho de escultura, que pode ser infinitamente remodelado. E o Brasil tem sido o pioneiro no desenvolvimento de novas e sofisticadas técnicas de cirurgias plásticas. O que antes alcançava só a elite endinheirada, agora se tornou uma intervenção corriqueira e virtualmente acessível a todos. De qualquer forma, eu me preocupo com cirurgias realizadas em adolescentes descontentes com seus rostos e corpos ainda em desenvolvimento - antes mesmo de as feições adultas, obviamente diferentes, terem tempo de vir à tona. Além disso, uma aparência exageradamente jovem pode minar a autoridade da mulher em seu trabalho. E a neurose de uma sociedade em relação à juventude joga para baixo a condição da mulher de mais idade, que se torna planta seca na paisagem. Filmes, tevê e revistas saturam o ambiente com imagens de beleza e glamour. É muito difícil, senão impossível, resistir a esse constante apelo visual.

ISTOÉ - O que acha de os jovens americanos estarem se assumindo como homossexuais cada vez mais cedo?
Camille - A heterossexualidade efetivamente voltada para a reprodução é natural e biológica, algo que teóricos pós-estruturalistas e alguns acadêmicos fazem a loucura de negar. Mas também acredito que a maioria dos seres humanos tem um potencial para a bissexualidade, algo que deveria ser encorajado de uma maneira leve e sem moralismos. Por outro lado, estou chocada com a força do ativismo gay nas high schools (escolas que, no Brasil, correspondem aos ensinos fundamental e médio) nos EUA. Isso tem pressionado os jovens a "sair do armário" o quanto antes. Para eles, crianças e jovens de 12, 14 ou 16 anos devem fazer declarações públicas sobre sua homossexualidade. Não se sabe o que isso vai desencadear nessas pessoas quando adultas. Essa clara polarização entre gays e héteros é simplista e nada produtiva. A experiência homossexual, ou até mesmo uma fase homossexual na vida de alguém, não torna necessariamente uma pessoa permanentemente gay. Essas regras rígidas são tiranas e devem ser descartadas. A vida é mais complexa do que isso.

ISTOÉ - No Brasil, alguns casais homossexuais já conquistaram na Justiça o direito de adotar crianças. A sra. acha que esse é um ponto positivo do ativismo gay?
Camille - Os gays deveriam ser contemplados com os mesmos direitos dos heterossexuais, incluindo pensão e adoção de crianças. É claro que aplaudo essa conquista brasileira. Sou privilegiada por viver em um Estado americano (Pensilvânia) que reconhece a adoção gay, isso não acontece em todos os EUA. Eu adotei legalmente o filho de cinco anos da minha parceira, Alison Maddex, o Lucien. Eu estava profundamente envolvida com todo o processo de gravidez da Alison e tenho agido como uma segunda mãe desde que ele nasceu.

"Eu amo o fato de Barack Obama conhecer o Islã, uma grande vantagem para um presidente no perigoso mundo de hoje"
HERMANN J. RICK BOWMWE/AP/IMAGEPLUS

ISTOÉ - Como democrata declarada, quais são as suas impressões sobre o processo eleitoral americano?
Camille - Eu estou encantada com a forma com que Barack Obama tem conquistado o apoio dos eleitores americanos, de costa a costa do país, incluindo os mais conservadores, a maioria de "Estados brancos" da "América profunda". Obama está, inclusive, inspirando eleitores republicanos, atraídos por sua mensagem de reconciliação nacional e renovação. Eu amo o fato de Barack Obama ter uma linhagem internacional - seu pai é queniano -, de ter vivido sua infância em outro país (ele morou na Indonésia) e de ter conhecimento sobre o Islã, uma grande vantagem para um presidente no perigoso mundo de hoje.

ISTOÉ - Acredita que os americanos estão mais bem preparados para um presidente negro ou para uma mulher?
Camille - Definitivamente, os EUA estão preparados para uma presidente mulher. Nós temos mulheres nas prefeituras, nos governos e como presidente da Câmara dos Deputados (Nancy Pelosi). Não é pelo fato de Hillary Clinton ser mulher que muitos eleitores a rejeitaram. Ela tem um longo e questionável histórico de intrigas e decepções e, apesar de seu interesse por questões voltadas para as mulheres e crianças, seu conjunto de ações nessa área é desprezível. Além disso, a carreira inteira dela é baseada na notoriedade de seu marido, Bill Clinton - desde sua contratação como alta executiva de uma empresa de advocacia no Arkansas (ela foi reprovada no teste para um cargo de advogado em Washington) até sua eleição para o Senado por Nova York, um Estado onde ela nunca morou. A visão política de Hillary se tornou exposta com seu voto a favor da invasão do Iraque - uma escolha desastrosa dentro de um tema com que Obama está sabendo lidar.

ISTOÉ - Os Estados Unidos têm uma imagem mais negativa do que positiva no mundo. Acha isso justo?
Camille - A política internacional dos EUA precisa de um ajuste radical. Como portavoz contrária à invasão do Iraque, eu entendo por que existe tamanha visão negativa a respeito dos EUA. Existem diversas bases militares americanas ao redor do mundo e muita intromissão política em outras nações. Os EUA têm sido lentos ao se adaptar às mudanças das realidades econômicas - por exemplo, a vagarosa mudança em relação à China, que claramente está pleiteando a condição de superpotência. Tenho esperança de que Obama presidente conserte os problemas diplomáticos de hoje, obras da arrogante e incompetente administração Bush-Cheney.

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12/3/2008


 
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