ISTOÉ - Independente
 
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Entrevista  
Imprimir
 
CAMILLE PAGLIA
''Não há mais o culto à mulher bem-sucedida profissionalmente'
Uma das principais vozes do pós-feminismo, a escritora valoriza a mãe que abre mão da carreira para cuidar da família

Por CLAUDIA JORDÃO

MISA MARTIN/DIVULGAÇÃOA escritora americana Camille Paglia, 60 anos, é considerada uma das principais teóricas do pós-feminismo e uma das intelectuais mais influentes da atualidade. É professora da Universidade das Artes, na Filadélfia, EUA, colunista do site salon.com e editora da revista Interview. Camille ficou conhecida mundialmente na década de 90 ao lançar o livro Personas sexuais, no qual aborda de forma particular (contrariando as teóricas de sua geração) a mulher e o feminismo do século passado. Freqüentemente apontada como "a feminista que as outras feministas amam odiar", Camille, eleita em 2005 pela revista inglesa Prospect a número 20 da lista dos 100 intelectuais vivos mais respeitados do mundo, trata com igualdade de valores as mulheres que têm uma vida profissional de sucesso e aquelas que optam por abrir mão de carreiras promissoras para ficar em casa cuidando da família. Nesta entrevista, Camille, que tem cinco livros publicados (o último é Break, Blow, Burn, ainda não editado no Brasil), fala, entre outros temas, sobre o comportamento das mulheres e dos jovens contemporâneos, de sexualidade e política. Ela votará em Barack Obama, em abril, nas prévias no Estado da Pensilvânia.

ISTOÉ - No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Quais as principais conquistas femininas?
Camille Paglia - Desde a Revolução Industrial, de dois séculos para cá, as mulheres vêm conquistando, de uma maneira gradual, espaço na vida pública e na política. Graças ao acesso à educação, elas têm conseguido cargos até então improváveis de ser alcançados, em profissões como direito, medicina e na pesquisa científica, por exemplo. A maior dificuldade, tanto para as mulheres quanto para os homens, ainda é, porém, a aceitação do sexo feminino em cargos de chefia, tanto nas empresas quanto na política.

ISTOÉ - Por quê?
Camille - A questão é a seguinte: como uma mulher deve manter o equilíbrio no exercício de sua autoridade, a natureza de seu lado emocional e a sexualidade de suas roupas, acessórios, cosméticos e jóias? É um dilema que não faz parte do universo masculino, cujas vestes de trabalho são menos provocativas e expõem menos o corpo. É importante que ela aprenda a lidar com essa questão e seja treinada para assumir posições de chefia.

ISTOÉ - Como?
Camille - As mulheres precisam aprender técnicas de expressão e apresentação que combinem poder e clareza, consistência e dignidade. Em muitos países, como no Japão, os códigos locais ainda predominam e exigem da mulher um comportamento cordial, o que inevitavelmente as marginaliza no local de trabalho.

ISTOÉ - No Brasil, casos de mulheres que abrem mão de sua profissão para cuidar dos filhos, marido e casa são cada vez mais comuns. Como é nos EUA?
Camille - Até a década de 50, a maioria das moças americanas colocava o casamento e a família acima de qualquer coisa, inclusive da carreira. Muitas nem sequer fizeram faculdade, outras se formavam e seguiam direto para o altar. Mas a minha geração, dos baby boomers, que chegou à universidade nos anos 60, quando o movimento feminista pulsava, era mais egoísta. Acontece que, na década de 90, quando elas alcançaram os 40 anos, claramente começaram a se questionar.


ISTOÉ - O que questionaram?
Camille - As mulheres que haviam deixado a maternidade para priorizar a carreira começaram a querer ser mães e a ter problemas para engravidar. As líderes feministas, que haviam prometido um mundo de possibilidades a elas, nunca haviam mencionado o fato de que ficar grávida é muito mais fácil e saudável para as jovens. Então, profissionais bem-sucedidas e solteiras começaram a perceber que haviam aberto mão de sua vida pessoal. Elas passaram a escrever artigos e livros sobre sua solidão e desilusão a despeito da posição profissional e da prosperidade material. Só para ilustrar, os homens de 40 anos, solteiros ou divorciados, não estavam casando com mulheres da mesma idade, mas com moças de 20 e poucos anos.

ISTOÉ - As mulheres de hoje aprenderam com a experiência de suas mães?
Camille - As jovens de hoje, tendo observado as escolhas feitas pelas feministas mais velhas, parecem reconsiderar o equilíbrio entre família e carreira em suas vidas. Não há mais o culto à mulher bem-sucedida profissionalmente como case de fêmea ideal. As mais novas devem se perguntar sobre o que irá lhes satisfazer quando atingirem a meiaidade e a velhice. Por outro lado, é preciso que encorajemos as jovens a desenvolver seus talentos e seu lado profissional, para que tenham independência financeira. No passado, era a dependência da mulher por seu pai ou marido que criava tantas e severas injustiças sociais.

"Madonna aprendeu como se vive em reciprocidade com um homem. Finalmente ela encontrou alguém que controla seus excessos"
HERMANN J. KNIPPERTZ/AP/IMAGEM

ISTOÉ - A sra. já disse que Madonna é a maior responsável pelas mudanças do feminismo na década de 80. Diria que o comportamento dela nos últimos anos (casou, teve filhos, está mais caseira) tem sido parecido com o de grande parte das mulheres contemporâneas no Ocidente?
Camille -
A Madonna tinha uma dificuldade enorme em manter relações românticas. Ela é muito forte, decidida e workaholic e sua personalidade apaga a de seus pares. Isso tem acontecido com grandes estrelas - de Marlene Dietrich e Joan Crawford a Barbra Streisand. A Madonna precisou aprender como é que se vive em reciprocidade com um homem. Finalmente, em Guy Ritchie ela encontrou alguém que tem confiança própria, que sabe como se portar e que controla seus excessos.

ISTOÉ - Mulheres como Madonna precisam de homens como Guy?
Camille - Ela já admitiu publicamente que teve de fazer muitas e desconfortáveis concessões para manter seu casamento. Houve muito stress e conflito, mas tanto Madonna quanto Guy devem ter optado por colocar as necessidades das crianças em primeiro plano. Por isso o casamento deles parece ser uma relação sólida. Desde os anos 90, a maioria das cantoras e atrizes tem tido filhos e sinalizado a seu público a importância da família em seu sucesso profissional.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

12/3/2008


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
       

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions



>