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O tempo certo do corpo
Cientistas desvendam os ritmos do organismo e usam as informações para aumentar o desempenho no esporte, no trabalho e até para criar novos remédios

Por GREICE RODRIGUES E MÔNICA TARANTINO

Se você precisa se submeter a uma cirurgia, talvez seja melhor marcar o procedimento para a parte da manhã. Mas se o seu caso é fazer bonito no trabalho, reserve as horas do meio até o final da tarde para preparar aquele relatório que o seu chefe tanto aguarda. Dessa maneira, você certamente sentirá menos dor após a operação ou terá boas chances de ganhar mais um ponto na carreira. Essas recomendações não são fruto de batidos livros de auto-ajuda ou de gurus que dizem prever o futuro. Elas são baseadas nas descobertas da cronobiologia, um ramo mais recente da ciência que estuda os ritmos biológicos, sua interação com o ambiente e como o ser humano - ao conhecê-los e respeitá-los - pode aproveitá-los para melhorar o desempenho na vida pessoal, social e profissional.

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Até pouco tempo atrás restrita aos laboratórios das instituições de pesquisa, essa nova ciência começa agora a ganhar espaço entre a população com a publicação de livros a respeito do assunto. O mais recente é o Sex sleep eat drink dream, a day in the life of your body (Sexo dormir comer beber sonhar, um dia na vida do seu corpo), de Jennifer Ackerman. Nele, a escritora científica faz uma compilação de vários estudos da área. Lançado no ano passado nos Estados Unidos, o livro está entre os mais vendidos. A autora prevê que seja lançado por aqui dentro de um ano.

O grande segredo do sucesso que o assunto faz entre os leigos é justamente o fato de a cronobiologia estar decifrando para o homem um mecanismo que lhe é inato, importantíssimo para o bom funcionamento do corpo e da mente, mas que até então era pouco conhecido. Pode parecer incrível, mas só a partir dos anos 90 é que os cientistas - na verdade, os pioneiros da cronobiologia - obtiveram mais detalhes sobre o relógio biológico, o principal astro do mecanismo que sincroniza o vai-e-vem de processos como a temperatura, pressão arterial, freqüência cardíaca e as funções renais e endócrinas com a alternância entre dia e noite.

Os achados feitos a seu respeito denunciam mais uma das belas e complexas engrenagens do organismo. Acionados pela luz, são os ponteiros do corpo que vão coordenar uma cascata de reações bioquímicas que pautarão todas as funções de órgãos e sistemas. É esse relógio, por exemplo, que determina quando um hormônio deve subir em concentração no sangue ou quando deve diminuí-lo a níveis muito baixos. E faz isso regido por uma lógica própria e bastante inteligente, voltada para a adequação da função a ser desempenhada de acordo com a parte do dia ou da noite. Um exemplo claro dessa perfeição é o que ocorre logo após o almoço. Guiado pelo relógio biológico, o corpo diminui a produção de hormônios responsáveis pelo estado de alerta para centrar esforços na fabricação de hormônios importantes para o processo da digestão. "Essa é uma das razões da sonolência típica do período", explica o neurocientista John Fontenele Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos principais estudiosos brasileiros de cronobiologia. Ao mesmo tempo, também sob a batuta do tal relógio, o corpo baixa sua temperatura e envia mais sangue para o sistema digestivo, fechando um pacote que aumenta o sono, mas em compensação mobiliza o organismo para o que, naquele momento, é o mais importante.

É por causa de constatações como essas que os conceitos da cronobiologia têm despertado tanto interesse. Afinal, são informações úteis para definir ações nas mais variadas áreas da vida humana - desde recomendar a melhor parte do dia para fazer um exercício de alta performance até qual o horário ideal para tomar um medicamento. Na Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos, por exemplo, funciona um grupo coordenado por Jim Waterhouse, um dos grandes pesquisadores da área. Neste centro, os cientistas já chegaram a conclusões interessantes, algumas relacionadas ao tempo do corpo e o exercício físico. "O melhor horário para ganhar condicionamento e aumentar a resistência é no fim da tarde e início da noite. Neste período, o alerta e a motivação estão em alta", disse Waterhouse à ISTOÉ. A pesquisadora Leana Araújo, do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício Físico da Unifesp, com quem Waterhouse desenvolve um trabalho em comum, adiciona outra explicação para a escolha do momento para os exercícios pesados. "No final da tarde, a percepção corporal está mais aguçada, o que eleva a rapidez nas reações de proteção para não sofrer lesões", diz Leana.

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5/3/2008


 
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