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Comportamento  
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Para fazer nada
Clube de Nadismo defende o ócio em doses diárias contra o stress

ADRIANA PRADO

DIVULGAÇÃO
O FUNDADOR Marcelo Bohrer criou o clube, que tem como marca um cubo branco: vazio

Não é de estranhar que um sincero “Ahn?” seja a primeira reação de quem ouve falar em um grupo que está conquistando cada vez mais sócios pelo Brasil: o Clube de Nadismo. Isso mesmo: um grupo de pessoas cuja filosofia é... fazer nada de vez em quando. O fundador, o designer Marcelo Bohrer, 32 anos, de Porto Alegre, explica: “Fazer nada às vezes é fundamental para uma boa qualidade de vida. E isso é difícil, porque as pessoas se sentem culpadas, acham que estão desperdiçando tempo.” Ele teve a idéia após um burnout (exaustão provocada pelo stress), em 2003, que o fez repensar seu até então frenético ritmo de vida. E garante que hoje vive melhor, após criar este clube cujo nome, reconhece, causa estranheza. “No início as pessoas acham engraçado, mas depois entendem a proposta”, conta.

Quem está no clube, portanto, leva o fazer nada a sério. Como o executivo paulistano Rubens Miranda, 57 anos, que decidiu rever seus hábitos depois que dois amigos tiveram infarto. “Quando vi que poderia acontecer comigo, decidi agir preventivamente”, diz. Ele conheceu o grupo pela internet e hoje, cinco meses depois, sente que a relação com a família está melhor. “Eu era muito estourado. Agora, penso antes de falar”, diz.

Os encontros do clube acontecem uma vez por mês em parques ou praças da capital gaúcha. No local há sempre um grande cubo branco, que simboliza o vazio. São 45 minutos de absoluta inatividade. Não há muitas regras. A pessoa pode ficar sentada ou deitada. Só não vale dormir. “A orientação é que todos fiquem de olhos abertos. Dormir não é fazer nada. É uma necessidade”, explica Bohrer.

Miranda diz que se pode praticar em casa mesmo. Duas vezes por dia, ele desliga os celulares, tira o telefone do gancho e, sentado na sala, “faz nada” por dez minutos. Sua mulher ainda não se acostumou com a nova filosofia. “Quando falei sobre o grupo, ela me chamou de maluco, achou ridículo. Queria saber o que eu ganharia com aquilo. Ganhei qualidade de vida. Você aprende a buscar suas necessidades de uma forma menos louca”, resume ele.

Fazer nada, segundo Bohrer, é a radicalização de movimentos como o Slow – que, basicamente, prega a valorização do tempo. Vive melhor quem vive mais devagar. O que não é lá uma novidade para o cantor Martinho da Vila. Devagar, devagarinho, ele chegou aos 70 anos esbanjando disposição. “É uma filosofia de vida. Quem anda devagar chega. E chega descansado”, brinca ele, que nem por isso trabalha menos. “Trabalho muito, mas não abro mão do meu tempo à toa. Fazer nada já faço faz tempo”, ri. Segundo o psicólogo Esdras Vasconcellos, professor da USP, fazer nada é saudável: “Quando esvazia a mente, você entra numa freqüência psicofísica muito baixa, e isso faz bem.”

Thainá Gallo, 17 anos, de Porto Alegre, é outra sócia satisfeita. Ela se considera extremamente agitada e está empolgada com o aprendizado. “Tenho que admitir que não é uma coisa normal. Até me perguntei o que estava fazendo ali. Depois consegui relaxar. Acho que vai me ajudar a ser mais calma”, diz. Não é nada, não é nada... mas é muita coisa!


5/3/2008


 
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