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Quem está matando a floresta
O Pará produz uma de cada três picanhas que chegam à mesa dos brasileiros, a Transamazônica cheira a estrume de gado e surgem novos devastadores, como o Movimento dos Sem-Tora. Qual deve ser o alvo da PF e da Força Nacional de Segurança?

Por ALAN RODRIGUES E CLAUDIO GATTI (FOTOS) - Pará

MÁRIO QUADROS
AÇÃO DIFÍCIL Policiais da Força Nacional de Segurança têm que enfrentar a aliança de interesses entre a pobreza dos colonos, a ganância dos madeireiros, o oportunismo dos pecuaristas e a complacência dos governos

A estrada de chão batido deixou de ser a cicatriz marrom na verde pele da floresta virgem. Como acontece em toda a sua extensão no Estado do Pará, a Transamazônica agora descortina uma paisagem vasta, de pequenos morros e vegetação rasteira. Não há mais sombra fácil, as árvores frondosas escasseiam como ilhas num mar de vacas, bois, novilhas, garrotes e bezerros. Estatísticas inodoras traduzem o fenômeno:

  • 70 milhões de cabeças de gado ocupam 78% das áreas abertas na antiga selva.
  • O rebanho na maior floresta do mundo cresceu 173% desde o Plano Real.
  • As exportações de gado vivo cresceram 466% em 2007.
  • Oito em cada dez hectares desmatados viraram pastos.
  • Traduzido para a mesa: uma em cada três picanhas devoradas no Brasil vem da Amazônia.

Os pés que hoje brotam da floresta, portanto, têm cascos e conduzem a chifres. Eles resultam do diabólico pacto de interesses entre a pobreza dos colonos, a ganância dos madeireiros, o oportunismo dos pecuaristas e a complacência dos governos. O resultado perverso dessa soma é que a mata nativa vem perdendo, a cada ano, uma área equivalente à do Estado de Alagoas. Em 2007, o desmatamento cresceu 8% em relação ao ano anterior. Só entre agosto e dezembro do ano passado, foram 3.235 km2 de floresta abatida, o equivalente a mais de duas vezes a área do município de São Paulo. Na semana passada, o governo federal anunciou o envio de mil homens da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança para garantir o fechamento de serrarias clandestinas na floresta, mas é pouco provável que essa operação cinematográfica consiga prender quem está matando a floresta. “O desmatamento acontece em função do mercado”, explica Paulo Barreto, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). “Quando os preços da soja e da carne caem, o desmatamento também cai porque os pecuaristas transferem seus investimentos para a região Centro-Oeste.”

O mercado é um álibi poderoso, mas a morte da floresta também é fruto de outras tramas engenhosas. A mais recente delas leva o nome de “Movimento dos Sem Tora”. Feito para confundir e ser confundido com o MST, os sem-tora se dividem em dezenas de grupos, cada um com cerca de 300 homens, todos adultos, para invadir terras na floresta. Contudo, apesar de se apossarem da bandeira da reforma agrária, os sem-tora são financiados pelas serrarias clandestinas ou semilegais. Eles instalam- se em acampamentos precários e se retiram depois de arrasarem a floresta nativa. “É uma quadrilha”, diz o secretário do Meio Ambiente do Estado do Pará, Walmir Ortega. Os troncos são vendidos para as serrarias a preços bem abaixo do mercado. Quando o proprietário da terra ou o governo se dão conta da invasão e entram na Justiça, as árvores já foram derrubadas e os invasores estão saindo. Calcula-se que 97% das toras usadas nas serrarias clandestinas do Pará provenham de áreas nativas. E nada menos do que 70% da extração de madeiras feita no Estado é ilegal.

No Pará estão registradas 1.500 madeireiras. Estima-se número igual de clandestinas. As legais movimentam quase R$ 4 bilhões por ano, a metade do PIB do Estado, e empregam 200 mil pessoas. Delas depende gente como o migrante maranhense José da Rita, como é chamado, que ganha a vida derrubando árvores. Com suas quatro motosserras, cobra em média R$ 5 mil para fazer mil metros cúbicos de madeira – cerca de 250 árvores. “O fechamento das madeireiras provoca desemprego. E a falta de trabalho gera inadimplência, fome, invasões no campo, violência”, diz João Medeiros, vice-presidente do Sindicato da Indústria Madeireira e Moveleira de Tailândia. “Nós não conseguimos autorização para desmatar por causa da burocracia do Meio Ambiente. Por isso, muita gente trabalha com madeira ilegal”, argumenta Gilberto Miguel Sufredini-empresário, com 150 empregados e 2.500 hectares de terra. Com uma produção de 1.000 m3 mês, Sufredini exporta 60% de sua produção de lâmina de compensado para os EUA. O que o madeireiro quer dizer é que, com a investida do governo federal contra o desmatamento ilegal, o governo do Pará só irá autorizar o desmate de cerca de quatro milhões de metros cúbicos de madeira por ano. “A demanda do setor é de 12 milhões”, argumenta Sufredini. “Esses montantes não serão liberados nunca mais”, adverte o secretário Ortega. Duas semanas depois de ser entrevistado por ISTOÉ, Sufredini teve 2.000 m3 de madeira apreendidos por documentação ilegal. Ele foi pego na teia da Operação Arco de Fogo, que deve manter os mil homens da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança durante um ano na região. A primeira parada da tropa foi na cidade de Tailândia, no Pará, onde foram apreendidos cerca de 15.000 m3 de toras nos pátios das madeireiras – o equivalente a 3.700 árvores.

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5/3/2008


 
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