ISTOÉ - Independente
 
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Editorial  
Imprimir
 
A Provas da operação navalha
Relatório da polícia federal implica o ex-ministro Silas Rondeau, o governador Wellington Dias e o presidente da Eletrobrás, Valter Cardeal, num esquema com a Gatama no Pi

POR HUGO MARQUES

O empresário Zuleido Veras, dono da Construtora Gautama, desembarcou em Brasília na quarta- feira 20 e foi direto para uma reunião com advogados. Ele soube que o Ministério Público Federal está prestes a apresentar a denúncia contra os 42 indiciados da Operação Navalha. ISTOÉ obteve com advogados a cópia de um relatório com um diagrama que a Divisão de Inteligência da Polícia Federal enviou ao Ministério Público e ao Superior Tribunal de Justiça, sobre irregularidades em contratos públicos com a Gautama. Com o título de “Corrupção no Ministério de Minas e Energia”, o diagrama mostra as conexões que levam a um suposto pagamento de uma propina de R$ 120 mil ao ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau para que o programa Luz Para Todos no Piauí fosse entregue à Gautama. Além dele, um novo personagem faz parte da rede detectada pela PF: o governador do Piauí, Wellington Dias, do PT. Homem de confiança da ministra Dilma Rousseff, o nome do presidente interino da Eletrobrás, Valter Cardeal, também é mencionado no relatório. “Não há nada que dê sustentação às denúncias”, insiste Zuleido Veras. “Está caindo tudo.”

TRIÂNGULO Zuleido Veras (de bigode), Wellington Dias e Silas Rondeau (em sentido horário) são citados no relatório e no diagrama da PF

As investigações da PF sobre corrupção no programa Luz Para Todos ganham força em seu conjunto, quando expostas em um quadro com todas as etapas já apuradas. São trechos de escutas telefônicas, fotografias, contradições de depoimentos e uma série de documentos apreendidos. O diagrama expõe a agenda de Zuleido Veras nos dias que precederam o suposto pagamento da propina. Em 13 de março, quando a diretora comercial da Gautama, Maria de Fátima Palmeira, entrega um envelope pardo ao ministro Silas, a agenda de Zuleido registra o telefonema que teria marcado o encontro: “Falar com ministro Silas”. Tem ainda a anotação: “Falar com Sérgio sobre MME”. Segundo a PF, é uma referência ao lobista Sérgio Sá, da Engevix, que intermediou as negociações entre a Gautama e o Ministério. A agenda de Zuleido registra ainda: “Ver nossos projetos no PAC”. Há também registro de uma conversa com “Piauylino”. Trata-se do ex-deputado pernambucano Luiz Piauhylino. A PF investiga um suposto pagamento de propina a Piauhylino. O nome dele também aparece numa lista de parlamentares que receberam presentes da empreiteira. Há ainda anotação de contato com o deputado José Carlos Araújo, do PR baiano. Bem depois da data da anotação da agenda, Araújo acabou sendo o relator do processo que inocentou na Câmara o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), investigado em razão de suas ligações com a Gautama.

AS ESCUTAS MOSTRAM SÉRGIO SÁ AGENDANDO ENCONTROS COM VALTER CARDEAL PARA DISCUTIR O ESQUEMA

Além da agenda de Zuleido, a PF recolheu a agenda do diretor financeiro da empresa, Gil Jacó Carvalho Santos. É ali que aparece a anotação que, para a Polícia Federal, é uma clara referência ao pagamento de propina a Silas Rondeau. No dia 6 de março, uma semana antes da entrega do envelope no Ministério, está registrado: “120.000 MINISTRO – BSB”. Procurado, o advogado do diretor financeiro, Frederico Donatti Barbosa, não quis se pronunciar. O diagrama também cruza outros documentos com as escutas telefônicas que foram feitas. No dia 9 de março, Zuleido já revelava numa das conversas grampeadas que “estavam indo cento e vinte, para entregar a Ivo”. A PF assegura que se trata de Ivo Almeida Costa, assessor do ministro. É uma conversa com Tereza Lima, funcionária da Gautama em Brasília. Zuleido pergunta a Tereza se ela sabe quem é Ivo. “Lá do Ministério”, responde ela. Zuleido a repreende: “Ok, mas não precisava dizer de onde era.” Foi Tereza quem pegou no Aeroporto de Brasília o envelope entregue no Ministério, com um funcionário da Gautama chamado Florêncio. Quem levou o envelope ao Ministério foi Maria de Fátima Palmeira. Lá, ela foi recebida por Ivo, e participou de uma reunião com ele, Sérgio Sá e o então ministro Silas Rondeau. Nos depoimentos que prestaram ao Superior Tribunal de Justiça, que conduz o inquérito, Rondeau e Ivo divergem. O ex-ministro diz que não há registro de visita de Zuleido a seu gabinete. Ivo, por sua vez, confirma que Zuleido esteve uma vez com Rondeau, junto com o lobista Sérgio Sá. Procurado por ISTOÉ, o advogado do ex-ministro, José Gerardo Grossi, não se pronunciou.

A agenda de Gil traz outras referências para a Polícia Federal sobre como funcionava o esquema de corrupção envolvendo as empresas de Zuleido. Na mesma página em que está anotada a referência ao ministro, aparece uma anotação de destinação de R$ 47 mil para “Márcio – Mauá”. Trata- se, ainda segundo a PF, de uma referência ao ex-vice-prefeito da cidade paulista de Mauá Márcio Chaves, do PT, que também foi responsável pela empresa Saneamento Básico do Município de Mauá – Sama. A propina estaria ligada a um contrato irregular de esgoto sanitário no valor de R$ 1,6 bilhão entre a prefeitura e a empresa Ecosama, pertencente a Zuleido, num prazo de 30 anos. O Ministério Público de São Paulo já pediu anulação do contrato na Justiça. Márcio Chaves é amigo pessoal do exministro José Dirceu. Quando Márcio teve a candidatura cassada em 2005, por participar irregularmente de uma festa durante a eleição, o então chefe da Casa Civil fez uma defesa pública em favor do amigo. “Seria uma grande injustiça política não termos uma segunda eleição”, dizia Dirceu.

O governador Wellington Dias aparece com destaque no diagrama produzido pela PF. Dias e seu ex-vice Osmar Júnior, hoje deputado pelo PCdoB piauiense, surgem no quadro da PF simbolizados como homenzinhos verdes. É o mesmo tipo de desenho que identifica o ex-ministro Rondeau. Dias é citado 17 vezes no relatório de inteligência da PF sobre o Luz Para Todos, precedido por Rondeau, mencionado 18 vezes. “Eu lamento profundamente ver meu nome nisto”, diz o governador. “Nunca vi o Zuleido na minha vida.” Ele admite, porém, ter tido reunião no Ministério com a participação de Sérgio Sá. “Eu acho que a Gautama mergulhou na licitação apostando na tradição que havia no Brasil de ganhar reajuste no decorrer das obras”, diz o governador. “Até hoje a Gautama nos atrapalha.” De fato, na semana passada, a Gautama conseguiu liminar na Justiça impedindo que a Chesf faça obras do Luz Para Todos no Piauí.

UMA SEMANA ANTES DA ENTREGA DO ENVELOPE A RONDEAU, HÁ O REGISTRO: “120.000 MINISTRO – BSB”
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

27/2/2008


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
       

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions



>