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JUCA CHAVES

"Político tem que trabalhar de graça"

Com a língua afiada, o humorista completa 50 anos de carreira, conta sua relação com o poder e critica a Lei Rouanet

Por IVAN CLAUDIO E MÁRIO SIMAS FILHO

Reconhecido como humorista, Juca Chaves prefere ser tratado como cantor e compositor de formação erudita. No entanto, por mais que ele deseje, é impossível separar as coisas. Em seus 50 anos de carreira, a marca registrada do artista reside nas inteligentes sátiras políticas, boa parte delas em forma de modinhas como O Brasil vai à guerra e Presidente bossa nova, por exemplo. São cinco décadas de piadas. De Juscelino Kubitschek, que o

RENATO ROCHA MIRANDA/TV GLOBO

recebeu descalço no Palácio do Planalto, ao presidente Lula e seus ministros, não há autoridade brasileira - inclusive os sisudos militares que governaram o País de 1964 a 1984 - que não tenha servido de matéria- prima ao menestrel. "O político brasileiro é um prato cheio para piadas", diz Juca Chaves, que, às vésperas de completar 70 anos, enfrenta o desafio de obter patrocínio para seu novo espetáculo, Jubileu de ouro - 50 anos de menestrel. "Estou há mais de um ano tentando obter recursos pela Lei Rouanet. Mas tudo fica na gaveta", lamenta. O projeto de Juca é estreá-lo em março no seu teatro, o Espaço Cultural Juca Chaves, localizado no bairro do Itaim, em São Paulo. O teatro, aliás, é outra preocupação do artista. Inaugurado no ano passado, com a presença da primeira-dama de São Paulo, o espaço dispõe de 1.250 metros quadrados, um teatro de 360 lugares e três salas de ensaios. Atualmente, boa parte da estrutura é utilizada para projetos voltados a crianças carentes, como aulas de dança, música e artes cênicas. "Faço com prazer, mas não tenho incentivo nenhum e não posso continuar a bancar isso só com o meu bolso", diz o humorista. "Se continuar assim, transformarei o espaço cultural em espaço sexual. E, se mesmo assim não conseguir dinheiro, farei o espaço espiritual e sairei do Brasil com dólares na cueca." Foi nesse amplo centro, por enquanto cultural, que Juca Chaves concedeu à ISTOÉ a seguinte entrevista:

ISTOÉ - Metade de sua carreira foi composta com sátiras aos presidentes militares. No entanto, o sr. nunca foi exilado ou preso. Havia algum esquema de proteção?
Juca Chaves - Eu não fui preso nem cassado porque recebi informações privilegiadas e saí do Brasil antes de a coisa estourar.

ISTOÉ - Recebeu informação de quem?
Juca - Meu pai era grão-mestre da maçonaria e, por intermédio da maçonaria, no finalzinho de 1963 fiquei sabendo que iria estourar a revolução de 1964 e que seria preso pelo Cenimar, da Marinha, por causa da música do porta-aviões. A canção dizia: "Brasil já vai à guerra, comprou um porta-aviões. Um viva para a Inglaterra de 82 bilhões, ah ah, mas que ladrões." O Jango estava numa fase já muito difícil, o Brasil cheio de greves. Era evidente que estava mesmo para estourar. Eu saí quatro meses antes e, quando estourou, estava em Portugal. Lá é que fui preso.

ISTOÉ - Como foi essa prisão?
Juca - Fui preso por causa de uma piada que soltei sobre o primeiro-ministro e também por causa de uma frase que cantei. Era assim: "Me levaram para conhecer a Avenida da Liberdade/ eu disse quando é que inaugura?" Essa piada ficou famosa. Em Portugal, em compensação, recebi a maior homenagem da minha carreira. Os estudantes de Coimbra jogaram as capas negras ao chão para que eu passasse por cima. Falavam que eu era o menestrel da liberdade.

ISTOÉ - Como se deu sua volta ao Brasil?
Juca - Voltei definitivamente em 1970. Mas em 1968 dei um pulo aqui porque minha mulher, Yarinha, junto com alguns amigos, articulou para que eu fosse recebido no porta-aviões. Não foi de graça. Tive que fazer um elogio à embarcação e disse: "Isso dá uma boate incrível." O capitão, que era muito simpático, riu, e aí eu percebi que no Brasil os grandes não se incomodam com a sátira. São os pequenos que querem ser mais realistas que o rei.

ISTOÉ - Era fácil lidar com o poder?
Juca - Com os grandes era fácil. O Juscelino, que tirou o sapato ao me receber, tinha um assessor chamado Geraldo Carneiro que era contra a minha ida a Brasília. Ele era confrade, era poeta lá na corte. Aí eu escrevi um soneto para o Juscelino. Era assim: "São Paulo, 2 de julho, cordialmente venho propor à simpática excelência o nosso encontro na maior urgência no palácio em Brasília. Anteriormente já propus ao Carneiro seu servente, que, também sendo autor por coincidência, não me levou temendo a concorrência..."

ISTOÉ - E o presidente então o recebeu?
Juca - Ele achou gozado e me recebeu em Brasília. Eu tirei o sapato, ele tirou também, mas ficou de meia - não furada. E ficamos cantando modinhas. Eu sempre gostei de modinhas, tanto que comecei cantando esse gênero de música, depois passei para a sátira política e o humor veio paralelo. Mas não sou humorista, não gosto de humor.

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15/2/2008


 
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