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Medicina & Bem-estar  
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Mania de ser SAUDÁVEL
Aumento da ortorexia, distúrbio caracterizado pela obsessão por alimentos saudáveis, preocupa os especialistas

CILENE PEREIRA

CUIDADO Antes de comprar, Simone lê os rótulos com atenção

Há um velho ditado segundo o qual tudo o que é demais passa. Nada mais verdadeiro quando o assunto é a preocupação com a saúde. Na medida certa, é garantia de uma vida com mais qualidade. Em excesso, transforma-se em um pesadelo que pode atrapalhar a vida do indivíduo e a de quem está ao seu lado. O problema é que, nestes tempos de informações maciças sobre a necessidade de adoção de um estilo de vida adequado, muita gente está começando a ir além do ponto. São pessoas que padecem do que os especialistas chamam de ortorexia.

Trata-se de um distúrbio de comportamento caracterizado por uma preocupação demasiada em ser saudável. É diferente da anorexia, transtorno cujo sintoma é a recusa em se alimentar. Os anoréxicos querem emagrecer a qualquer custo. Os ortoréxicos querem ser sadios. Para isso, o indivíduo desenvolve uma obsessão por dietas que considera apropriadas. Ele não come nada que ache nocivo. Entre os alimentos normalmente banidos estão enlatados e carne vermelha. Quase sempre, ingere apenas frutas e legumes – de preferência orgânicos –, risca do cardápio inclusive carnes brancas e passa longe de açúcares e farinhas, por exemplo. O resultado é que as refeições tornam-se o centro principal de atenção da vida da pessoa. Ela perde horas planejando o que vai comer ou gasta um tempo muito grande nos supermercados porque quer ler o rótulo de tudo o que pretende comprar.

Os especialistas diagnosticam um ortoréxico quando essa situação chega a um nível tal que o indivíduo começa a ter prejuízos na sua vida pessoal e/ou profissional. “Ele não quer mais sair para comer fora e se vai à casa de alguém leva sua própria comida, por exemplo”, explica a médica nutróloga Daniela Hueb, de Bauru, interior de São Paulo. É claro que essas atitudes geram problemas nos relacionamentos. Foi o que aconteceu com a nutricionista Simone Odassi. Tudo começou porque ela queria perder peso. Depois, quando viu, recusava-se a ir a casas onde considerava a alimentação inadequada e não queria mais jantar fora com o marido. “Fiquei radical demais”, admite. Hoje, ela tem o apoio do esposo para alertá-la quando está sendo muito rigorosa com as restrições alimentares, mas confessa que ainda passa muito tempo nos supermercados lendo os rótulos.

ALERTA Daniela trata muitos portadores do problema

A ortorexia não é considerada uma doença. Mas tem aumentado tanto que os especialistas estão preocupados. “Há dez anos era raro atender um portador. Hoje, por exemplo, estou com cinco casos no consultório”, afirma o endocrinologista Tércio Rocha, do Rio de Janeiro. No consultório de Daniela é a mesma coisa. “O problema está crescendo demais”, diz. O grande temor é que os indivíduos evitem tanto os alimentos que, aí sim, tornem-se vítimas da anorexia, distúrbio que pode levar à morte.

O tratamento se baseia em medicação (antidepressivos) e psicoterapia. “Queremos ajudar a pessoa a mudar a forma de ver os alimentos”, explica a psicóloga Sueli Guimarães, da Universidade de Brasília. Uma das abordagens é expor o indivíduo gradualmente ao alimento que rejeita. “Aos poucos, ele percebe que nada de tão ruim acontecerá se souber comer corretamente”, afirma a psicóloga. A dona de restaurante Queila Santos já entendeu isso. Ela havia retirado as carnes do cardápio, entre outras coisas. “Comecei a ter tonturas”, lembra. “Percebi que não estava sabendo dosar os cuidados”, conta. Agora, voltou a uma alimentação mais equilibrada. “Só continuo não comendo produtos com corantes e enlatados”, diz.


8/2/2008


 
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