Na verdade, a raiz dessa falta de atenção pode estar na maneira como em geral a sociedade encara a sexualidade na velhice. “O velho é invisível como cidadão. Ninguém imagina que aquele senhor ou senhora de cabelos brancos tenha vida sexual ativa”, afirma Gylce Cruz, coordenadora do curso de pós-graduação em infectologia e geriatria da Universidade Católica de Santos, em São Paulo. A pesquisadora é uma das poucas no País que se dedicaram a estudar o assunto com mais profundidade. Entre 1999 e 2003, ela realizou sua tese de mestrado traçando um perfil epidemiológico de soropositivos na terceira idade atendidos no município paulista. Foram estudados 54 homens e 43 mulheres com idades entre 60 e 79 anos. Entre outros dados, o estudo mostrou que 31,5% dos homens tinham se infectado em relações com múltiplas parceiras. Em relação às mulheres, 39,5% haviam sido contaminadas pelos maridos. “É ingênuo pensar que o idoso não se relaciona sexualmente. Portanto, é urgente que se criem medidas preventivas para essa faixa etária,” afirma Gylce. Porém, um dos sinais de quanto a questão ainda é ignorada é o fato de o assunto não ter entrado na pauta de prioridades da Organização Mundial da Saúde, por exemplo.

Além das questões que envolvem a prevenção e os cuidados físicos, os especialistas têm pela frente a tarefa de criar um sistema de apoio psicológico dirigido aos mais velhos, considerando sua situação. “A família fica abalada. É difícil para aquele homem visto como o bom pai, o avô carinhoso, por exemplo, assumir que está com Aids”, afirma Gorinchteyn. Quanto às mulheres, se forem casadas, há o ressentimento de terem sido infectadas por companheiros de anos e anos de casamento. “Mas em nome da família e da longa caminhada que o casal tem junto, ela o acolhe e passa a cuidar de si e da saúde do companheiro”, conta o médico.
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Enganado pela aparência
SÉRGIO DE ABREU SANTOS
67 ANOS, ADMINISTRADOR DE EMPRESAS
“Estava com 51 anos e tinha mantido vários relacionamentos. Anos antes, fiz um teste para detecção de HIV depois da morte de um parceiro por causa da doença. Como o resultado deu negativo, fiquei sossegado. Tempos depois, conheci um rapaz. Ele tinha 21 anos e um físico invejável. Nem passou pela minha cabeça que ele poderia estar infectado. Se eu, com mais de 50 anos e depois de tantas experiências, não havia me contaminado, como um rapaz como ele poderia ser soropositivo? Naquela época, a imagem que eu e a maioria das pessoas tinha da Aids era a de uma doença que deixava as pessoas com péssima aparência, e em questão de meses. Não era o que eu via no meu companheiro. Iniciamos uma vida conjugal, mas sem pensar na prevenção. Quatro meses depois, meu parceiro fez um teste para HIV incluído numa bateria de exames admissionais para um emprego. Deu positivo. Continuamos nosso relacionamento sem prevenção. Em 1991, foi a minha vez de receber o diagnóstico positivo. Um ano depois, meu parceiro morreu. Até hoje não tive infecções oportunistas, embora sofra as mazelas dos efeitos colaterais dos anti-retrovirais, que nos reduz a quase esqueletos e nos deixa constrangidos até para expor o corpo na praia e tomar um banho de mar.” |
A vergonha e o medo de serem julgados fazem com que mais da metade dos pacientes não conte às famílias. Também é comum recorrerem a disfarces para não ser descobertos. Mentem que vão ao cardiologista quando precisam ir ao infectologista, trocam a embalagem dos remédios e pedem ao especialista que não se identifique se precisar ligar para suas casas. O militar aposentado João, 60 anos, de Brasília, portador há quatro anos, é um dos que escondem sua condição. “As pessoas são preconceituosas. Ficaria muito deprimido se sofresse discriminação”, diz.
Preconceito destruidor
BEATRIZ PACHECO
60 ANOS, ADVOGADA
“Fui casada durante 24 anos com o pai dos meus quatro filhos. Ele me deixou por outra mulher. Anos depois, comecei um relacionamento com outro homem. Ele tinha cirrose hepática e fazia transfusões de sangue. Como éramos parceiros fixos, fazíamos sexo sem proteção. Nem sequer pensava em Aids. Para mim, e naquela época, a doença era vista como a “peste gay”. Em 1997, recebi o diagnóstico. Fiquei chocada. Minha família também. A médica disse que eu teria 18 meses de vida. Vivi como se me despedisse de tudo a cada minuto. Mas socialmente foi tudo muito estranho. Me sentia uma pessoa diferente e tinha a sensação de que todo mundo sabia o que estava acontecendo comigo. Muita gente se afastou. As pessoas não nos olham como cidadãos. Somos vistos como indivíduos diferentes. Decidi lutar contra esse preconceito e ingressei no Movimento das Cidadãs PositHIVas, que dá apoio às mulheres infectadas. A discriminação alcança nossas famílias. Muitas vezes, meus filhos, que em momento algum me abandonaram, foram chamados nas empresas em que trabalhavam para que dissessem se tinham HIV porque, depois do meu diagnóstico, passaram a falar sobre prevenção. O preconceito que sofremos foi tão destruidor que até hoje há quem afirme que meu ex-marido, que por fim morreu de câncer, não de Aids, faleceu vítima do HIV!”
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