Quando o tema é aquecimento global, Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, é o segundo cientista mais citado no mundo nos últimos dez anos, de acordo com o Science Citation Index. O levantamento, feito por meio de referências em revistas na área, revela a importância científica de suas pesquisas na Amazônia, onde desembarcou em 1976. Formado em biologia pela Universidade do Colorado e Ph.D. em ecologia pela Universidade de Michigan, aos 57 anos Fearnside comanda uma equipe que mapeia os serviços ambientais prestados pela floresta. Sua proposta é ousada e radical: ele sugere que os países do mundo paguem pelos benefícios ecológicos que a floresta traz, como organismo que regula o fluxo de chuvas, a temperatura e evita o agravamento do efeito estufa. Para Fearnside, o ressarcimento material por esses benefícios produzidos pela floresta garantiria a qualidade de vida da sua população, mantendo preservada a Amazônia.
Ele critica as medidas anunciadas pelo governo, como a suspensão de autorizações para desmatamento em 36 municípios da Amazônia, e diz que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) poderá ser ainda mais prejudicial para a conservação da região. Pessimista em relação à influência do aquecimento global, Fearnside estima que até 2080 poderá ocorrer o fim da floresta.
ISTOÉ – Qual a razão para o fato de a Amazônia ter perdido sete mil quilômetros quadrados de floresta só no segundo semestre de 2007?
Philip Fearnside – São vários fatores. Um deles foi a estiagem entre os meses de agosto e novembro do ano passado. Geralmente esse período é de chuvas na Amazônia. Também contribuiu para o desmatamento a alta do preço de alguns produtos, como carne e soja. Não só internacionalmente, mas também no mercado interno. Está havendo uma migração de pecuária de outras partes do Brasil para a Amazônia.
ISTOÉ – O rebanho brasileiro está sendo redistribuído?
Fearnside – Está saindo de Estados como São Paulo e Rio Grande do Sul em direção à Amazônia. Inclusive, a conversão de pastagem em cana para biocombustível nesses Estados também vai aumentar o fluxo para a Amazônia. É importante absorver esse recado e tomar as medidas necessárias. Foi bom o governo ter assumido que houve o aumento do desmatamento. Agora precisa tomar medidas para evitar mais derrubadas de árvores na Amazônia.
ISTOÉ – Então o sr. discorda do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes? Ele diz que o plantio da soja não seria responsável pelo aumento do índice de devastação da Amazônia.
Fearnside – Em Mato Grosso, a soja foi fator sim de desmatamento. Não dá para dizer que nada tem a ver com a soja. O ministro está falando uma coisa que não se aplica à realidade aqui na Amazônia. São vários os problemas, não um só. E o governo precisa enfrentar todos eles.
ISTOÉ – Entre as medidas anunciadas pelo governo na tentativa de combater o desmatamento está a suspensão de autorizações para desmatamento nesses 36 municípios da Amazônia. É suficiente?
Fearnside – É necessário muito mais do que foi anunciado. Não é tão fácil baixar um decreto assim. Muita gente continua desmatando. Inclusive, em alguns desses municípios, sobretudo no sul do Pará e no noroeste de Mato Grosso, acontece muito desmatamento fora do controle do governo. É muito precária a fiscalização que é feita através de campanas e blitze intensivas. O alvo do governo é diminuir o desmatamento até julho deste ano. Mas é um objetivo muito limitado. São necessárias também medidas de longo prazo.
"Não dá para dizer que nada tem a ver com a soja. O ministro Stephanes disse algo que não se aplica aqui na Amazônia” |
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ISTOÉ – Quais?
Fearnside – Por exemplo, há uma decisão do governo de construir estradas que passam pela região. Isso vai provocar um desmatamento muito grande. O PAC foi anunciado sem nenhum estudo prévio, sem nenhuma análise da área que irá ser desmatada.
ISTOÉ – O sr. fala da BR-319, que liga as cidades de Porto Velho e Manaus?
Fearnside – Exato. A BR-319 não tem EIA-Rima. Hoje, 80% do desmatamento é concentrado na periferia da floresta. Lado sul e leste. Mas, se forem concluídas essas estradas, o centro e o norte da Amazônia ficarão expostos para o problema do desmatamento.
ISTOÉ – Mas as obras de infra-estrutura não são necessárias para a Amazônia?
Fearnside – Acho que o princípio para todas as decisões é analisar os impactos e os benefícios antes de tomar a decisão.
ISTOÉ – Então, o PAC, da forma como está sendo viabilizado na região, será prejudicial?
Fearnside – Sem dúvida o PAC ajuda a desmatar. Quando abrirem a BR-319, vai ampliar o quadro do desmatamento. E vão invadir áreas que hoje estão intactas. E não é só a BR-319. Também está prevista no PAC toda uma rede de estradas laterais ao longo dos rios Madeira e Purus, que abrirá todo aquele bloco de floresta intacta no oeste do Estado do Amazonas. Isso muda a geografia do desmatamento. É muito importante que isso seja repensado.
ISTOÉ – E a construção das hidrelétricas do rio Madeira?
Fearnside – Podem causar problemas. O mais importante é o impacto sobre algumas espécies de animais que não foi pesado pelo governo. Um é que vai bloquear a migração de peixes. São 31 mil toneladas de bagres. Os grandes bagres sobem o rio Madeira e vão se reproduzir na cabeceira dos afluentes, no Peru e na Bolívia. Depois, descem a correnteza e povoam o Madeira e o Amazonas. O rio Madeira é um dos rios mais piscosos da Amazônia. É uma perda irrecuperável. Mesmo fazendo passagens para peixes, já se sabe que não funciona para estas espécies, que são muito diferentes do salmão e das carpas. As hidrelétricas vão inundar também a Bolívia. A segunda barragem, de Jirau, vai justamente até Abunã, na divisa com a Bolívia. Durante a época de cheia, a água estará mais ou menos no mesmo nível de hoje. Mas no resto do ano o nível continuará alto, não vai descer, como é o ciclo natural, inclusive na parte da Bolívia. Isto vai causar problemas, porque o rio Madeira é um dos rios com mais sedimentos do mundo. Metade de todo sedimento do rio Amazonas vem do rio Madeira. Os sedimentos vão formar uma segunda barreira, na entrada do lago, aumentando a área submersa. Metade desta inundação vai ficar dentro da Bolívia.
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