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“NINGUÉM MERECE”
O prefeito anunciou viagem à Europa num Carnaval em que diabos satirizam seu partido ao acusá-lo de ter vendido a alma ao DEMO |
Para não haver dúvidas, está oficialmente registrado o placar da derrota de César Maia na Prefeitura do Rio de Janeiro: 356 a 43. Para quem apontou a desordem urbana como o inimigo número 1 da cidade, o estudo da prefeitura que mediu a variação da área ocupada por 750 favelas é a contabilidade da ira de uma cidade contra seu prefeito. Entre 1999 e 2004, 43 favelas ficaram menores e 356 aumentaram de tamanho. Depois de 2004, a impressão de todos é que o avanço se acelerou. E esse é apenas mais um dos indicadores contra um prefeito que parece estar costurando a unanimidade entre os cariocas. A antipatia geral contra a série de medidas impopulares se avoluma em protestos semanais cada vez mais agressivos em relação a Maia.
No Carnaval, contribuintes fantasiados de diabo vão se infiltrar nos blocos de rua para reforçar a campanha pela suspensão do pagamento do IPTU até depois das eleições. Eles já desfilaram pela orla carioca e agora levarão cartazes acu- Crescimento de favelas, ruas esburacadas e mal iluminadas e aumento do IPTU põem cariocas em pé de guerra com César Maia B R A S I L CONTRA uma cidade HÉLCIO NAGAMINE/AG. ISTOÉ sando Maia de “vender a alma ao DEMO”, uma referência ao partido do prefeito, o DEM. O movimento anti- IPTU, lançado na zona sul, atravessou o túnel e fará no dia 17 uma manifestação no Méier, zona norte.
Os avanços da favela Chácara do Céu sobre o Leblon e do Morro dos Cabritos em direção à Lagoa, dois bairros nobres, foram a gota d’água. Na quinta- feira 31, o movimento já unia 23 associações de moradores. “Ele esqueceu a cidade e passa o tempo em seu blog sacaneando o Lula e as Farc na Colômbia”, critica a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiaradia, que já votou em Cesar Maia e hoje está entre os líderes da revolta. Para ela, “a cidade degringolou de vez”. Entre os problemas de seu bairro, além do crescimento das favelas, ela aponta a profusão de camelôs, mendigos e pivetes cheirando cola e assaltando em torno da estação do metrô, às escuras.
"A insatisfação é muito mais um movimento virtual de imprensa, uma opinião publicada e não pública"
Os conflitos de César Maia no Rio decorrem do que se pode chamar de dupla traição política. Na esfera local, ele mostrou desfaçatez com eleitores como o advogado Augusto Boisson, que o apoiou para prefeito porque acreditava que ele daria jeito na desordem urbana. “César democratizou o Rio porque daqui a pouco todos estaremos no mesmo favelão”, diz ele. “Nunca o Leblon esteve tão esculhambado.” O ódio, no caso, tem motivo extra: como presidente da Associação de Donos de Prédios no Leblon e em Ipanema, Boisson defende proprietários que tiveram seus imóveis transformados em patrimônio cultural, o que reduziu seu valor comercial.
Nacionalmente, Maia jogou por terra o respeito que os Democratas haviam conquistado com luta contra a CPMF e rasgou a bandeira pró-contribuinte que seu partido tenta erguer. No fim de 2007, um decreto do prefeito reduziu o valor venal dos imóveis com direito a um desconto de 40% no IPTU. A medida, revogada diante da pressão do movimento, produzia aumentos de até 300%. Ele reajustou o IPTU em 4,38% e reduziu de 10% para 7% o desconto para quem paga de uma vez só, em fevereiro. O mesmo ocorreu em Brasília, onde outro político do DEM, José Roberto Arruda, chegou a aumentar o IPTU em 300% e também foi obrigado a recuar.
Esse é o quarto mandato de César Maia no Rio, totalizando 16 anos de gestão. Com todo o conhecimento que adquiriu da cidade, contudo, a maior reclamação das entidades é com a falta de diálogo. “O Legislativo nunca foi tão aviltado. Aqui não tem mensalão, tem diarião”, ironiza a vereadora Andrea Gouvêa Vieira, pré-candidata do PSDB à prefeitura. “Ele faz maioria dando esmolas no orçamento e só quem legisla é o Executivo, com decretos.” No Ministério Público Estadual, o prefeito virou persona non grata. Já é réu em duas ações de improbidade. A promotora Rosani da Cunha Gomes o acusa de omissão diante de ocupações desordenadas em dois bairros nobres, o Leme e o Alto da Boa Vista. “Nunca consegui assinar um termo de ajuste com este prefeito. Não há diálogo”, afirma Rosani, cuja ação, se vitoriosa, pode resultar na inegibilidade do réu.
É com essa maré contra que Maia vai encarar o desafio de eleger um sucessor neste ano. Suas maiores realizações, segundo ele, foram reduzir o número de crianças fora da escola e “dignificar e profissionalizar o servidor”. Para a campanha, ele conta com uma corporação (o funcionalismo, privilegiado com benefícios generosos), uma região da cidade (a zona oeste, onde inaugurou obras de saneamento) e uma aposta política (a pulverização dos candidatos de esquerda). Juntas não chegam exatamente a ser uma garantia, mas podem se tornar um trunfo capaz de levar sua candidata, a deputada Solange Amaral, ao segundo turno, quando ele espera um adversário com alta rejeição. Há dois no horizonte: o deputado e apresentador Wagner Montes (PDT) e o senador Marcelo Crivela (PRB), bispo da Igreja Universal. Cabe a eles, por enquanto, explorar as mais visíveis omissões da prefeitura: hospitais aos frangalhos, creches fechadas, camelotagem, ruas esburacadas e uma iluminação fúnebre em todos os bairros. As idéias de Solange para o debate eleitoral, até agora, escorregam na defensiva. Para ela, o crescimento das favelas “não é bem assim” e a violência e o tráfico são assuntos estaduais.
Questionado por ISTOÉ sobre a insatisfação, Maia respondeu, por e-mail, que “é muito mais um movimento virtual de imprensa, opinião publicada e não pública”. Apesar de o orçamento para iluminação ter sido reduzido em R$ 11,7 milhões para 2008, ele disse que “o percentual de luz apagada é o mesmo de sempre”. Segundo o Instituto de Segurança Pública, o assalto a transeunte, que prolifera na escuridão, é o crime que mais cresce. “Roubo de transeunte é roubo de celular. Nada a ver”, reagiu o prefeito.
César Maia chega ao Carnaval de 2008 sem condições de repetir impunemente, no Sambódromo, as aparições ícones de sua popularidade nos anos 90, quando beijava mulatas e dançava com vassouras. Na terça-feira 29, ele entregou a chave da cidade ao Rei Momo e afirmou que estava viajando à Europa. Pode ser uma separação de Carnaval ou um divórcio. Em qualquer hipótese, como diz a presidente da Associação de Moradores de Botafogo, na típica expressão carioca: “Ninguém merece”.