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| Interesse No Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (acima e à dir.) jovens interagem com o idioma: 580 mil visitantes por ano |
O Brasil vive um momento positivo na economia, apesar da crise nos mercados financeiros mundiais. Os investimentos estão em alta, a demanda cresce e o nível de desemprego registrado em 2007, de 9,3%, foi o menor em cinco anos. Mesmo com os ventos favoráveis, quem não possui qualificação tem mais dificuldade de se colocar no mercado de trabalho e é mais mal remunerado. Só um maior acesso à educação é capaz de mudar esse quadro. E a ferramenta indispensável para tirar proveito dos estudos, causar boa impressão numa entrevista de emprego e abrir as portas do crescimento profissional é a correta utilização da língua.
Esse é um dos maiores problemas do brasileiro. Pesquisas mostram que, no País, apenas 26% das pessoas entre 15 e 64 anos são plenamente alfabetizadas. Isto é, têm domínio total das habilidades de leitura e escrita.
Exames aplicados em estudantes também refletem essa realidade. Os resultados do Pisa (sigla, em inglês, para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), prova que mede a eficiência de leitura em adolescentes de 15 anos em 56 países, divulgados no ano passado, foram muito ruins. O Brasil ficou na 48ª colocação. Numa escala até cinco, mais da metade parou no nível um ou abaixo disso. Ou seja, só conseguem localizar informações explícitas no texto e fazer conexões simples. Pior: o desempenho dos estudantes foi inferior ao da prova aplicada em 2003.
“Nós necessitamos de um esforço nacional para combater nossa incapacidade de lidar com a língua escrita”, diz a lingüista Stella Bortoni, professora da Universidade de Brasília (UnB). “Há uma incongruência entre nossa capacidade econômica e de leitura crítica da informação. É preciso que o aluno saia da escola lendo com produtividade.” Com 30 anos de experiência de sala de aula e 20 assessorando empresas, o professor Sérgio Nogueira, autor do livro O português do dia-a-dia, diz que as pessoas só começam a se preocupar quando essa carência afeta a vida profissional. “Aí correm desesperados atrás de cursos”, afirma ele, consultor das Organizações Globo, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de vários escritórios de advocacia.
E não há muitos cursos disponíveis. Com exceção de aulas de português voltadas para concursos, o que existe são companhias preocupadas em investir na qualidade da comunicação de seus funcionários, como a PricewaterhouseCoopers. Há mais de dez anos, a empresa de auditoria contrata os serviços do professor Sérgio Nogueira. “A idéia é consertar vícios de linguagem que as pessoas têm, ensiná-las a ler, interpretar e escrever de maneira adequada no mundo dos negócios”, diz João Cesar Lima, sócio e líder de recursos humanos da Price. Essa preocupação é ainda maior com a nova geração criada com a internet, meio em que a comunicação ocorre de maneira bastante informal.
A popularização do e-mail, aliás, pode ser considerada um divisor de águas. Antes, a correspondência das empresas se dava por carta, que era redigida com calma e revisada por três ou quatro pessoas até chegar ao destinatário. “Hoje, a troca de informação ocorre com muita rapidez e sem intermediários. Por isso, o e-mail expõe o profissional”, diz Nogueira. Se cometer erros de português, ele corre o risco de virar motivo de chacota entre os subordinados ou ser malvisto pelo chefe. E as pessoas parecem ter consciência disso. Quando começou a prestar consultoria, nos anos 80, Nogueira era chamado para dar aulas para secretárias. Na década passada, o público foi ampliado, mas a primeira meia hora era tomada em um processo de convencimento da importância do curso. Hoje, ele não sente nenhuma dificuldade em começar a aula e as turmas estão sempre cheias.
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“A troca de informação ocorre com muita rapidez e o e-mail expõe o profissional ”
SÉRGIO NOGUEIRA, PROFESSOR DE PORTUGUÊS E CONSULTOR DE EMPRESAS |
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