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Cultura  
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Especial música
Bossa Nova, 50 anos
O ritmo criado por Tom Jobim e João Gilberto colocou o Brasil no mapa da música mundial e ainda influencia novos artistas

Por ELIANE LOBATO E AZIZ FILHO

A bossa nova viveu sua infância nas madrugadas. A jornalista Danuza Leão, irmã de Nara e um dos ícones do glamour da vida noturna do Rio na época, se lembra que, muitas vezes, chegava à casa dos pais às 8h da manhã e os amigos de Nara ainda estavam lá. "Para mim, aquilo não tinha importância. Eram só crianças cantando e tocando violão. Meu pai dava liberdade e abria o apartamento, mas não admitia uma gota de álcool. Droga nem existia, eles se alimentavam só de som." Sempre ligada à moda, Danuza reparava na simplicidade dos jovens. "Eles não compravam roupa nem gostavam de dinheiro, só de música." Em 1966, trouxe de Paris para a irmã um vestido prateado para que ela usasse ao interpretar A banda, de Chico Buarque, no Festival da TV Record. "Demorei semanas para convencê-la a usar e, graças a Deus, consegui. Ela ficou linda."

MULHERES DA BOSSA Nara Leão (à esq.), Sylvinha Telles e Elizete Cardoso (à dir.) romperam a tradição artística brasileira na qual as cantoras tinham de ser trágicas para conquistar o público

Bem antes, em 1959, e sem vestido fashion, Nara fez um show, ao lado de João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Roberto Menescal, Johnny Alf e outros artistas, no anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da Praia Vermelha, no Rio. Segundo o pesquisador de música brasileira Ricardo Cravo Albin, foi "um impacto enorme para a juventude, que estava acostumada a ouvir nas rádios as músicas pungentes cantadas por Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Ângela Maria". Na mesma década, tinha aparecido o rock'n'roll através da música de Bill Halley e seus Cometas e Elvis Presley. "Até então, a maioria dos sucessos tinha a marca do samba-canção e a bossa nova representava um sopro novo, vinha com mais luz, descontração." O pesquisador classifica a nova música como filha do samba. "Nada mais é do que o batuque popular modificado pelo espírito inovador de João Gilberto, que o tornou administrável aos músicos de jazz."

O diferencial, frisa o cantor e compositor Francis Hime, "é a harmonia", embora "o mais comentado fosse a famosa batida de João Gilberto". Mas, para Hime, tudo "foi nascendo" muito antes, nas músicas de Ataulfo Alves, Pixinguinha e Ary Barroso, por exemplo. "Esse movimento foi maturado em décadas. Não nasceu de repente. Concretizou- se, mesmo, nas figuras de Tom Jobim e João Gilberto." Hime se diverte, hoje, ao lembrar do pânico que sentiu quando ouviu a "batida-goteira" de João: "Eu não sabia como tocar aquilo no piano!" Hime não era o único pego de surpresa. Aos poucos, porém, o ritmo foi conquistando espaço e vem sendo fantasticamente reinventado ao longo de cinco décadas. Isso é bossa nova, isso é muito natural.

Colaboraram: Francisco Alves Filho e Natália Rangel

As lendas de João Gilberto

MANIA João gostava de tocar violão no banheiro porque achava que a acústica era melhor

João Gilberto não dá entrevistas e relaciona-se com poucas pessoas, mesmo do meio musical. Por isso, é cercado de lendas. Ao ser perguntado por ISTOÉ sobre a última vez que o viu, Roberto Menescal devolveu: "Ele existe?" O estudioso carioca Sóstenes Pernambuco Pires Barros conta que João morava com quatro amigos no apartamento de Ronaldo Bôscoli, no Rio, dividindo com eles as despesas do supermercado. "João Gilberto só comprava o que ele gostava: tangerina!" Um dia, encantado com uma As lendas de João Gilberto blusa de Bôscoli, disse: "Que suéter bonito, Ronga! Vocês cariocas têm bom gosto. Me empresta?" Não só não devolveu mais o suéter como teve a "carade- pau" de tirar foto com ele para a capa do LP Chega de saudade.

Carlos Lyra diz que o músico sempre foi "esquisitão". E lembra um episódio relacionado com a ojeriza de João a ruídos, passado durante o show que deu no Rio com Menescal e Tito Madi. "O Tito estava ensaiando no camarim dele quando o João foi lá e falou para ele parar de fazer barulho. O Tito não gostou e, depois, foi ao camarim do João e do Menescal tirar satisfação e começou a insultá-lo. O João deixou o violão dele de lado, pegou o do Menescal e tacou na cabeça do Tito. Ele era frio e calculista, pensou bem e pegou o violão do outro para não estragar o dele." Segundo Marco Antonio Bompet, último namorado de Nara Leão, o banheiro foi importantíssimo para João Gilberto concluir sua inovação musical. "Ele passava o dia de pijama tocando violão no banheiro da casa da irmã, no interior de Minas, porque achava que a acústica era favorável." A mania perdurou quando ele foi morar com Bôscoli, em Copacabana. Ali, acrescentou outra esquisitice: cantar no corredor do prédio. E os vizinhos tiveram que se acostumar a vê-lo nas quinas das paredes ensaiando "O pato / Vinha cantando alegremente / Quém! Quém!"

A bossa no tempo

1957

Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sylvia Telles e Luiz Eça fazem shows no Beco das Garrafas, em Copacabana. A casa de Nara Leão, na avenida Atlântica, era o ponto de encontro dos jovens músicos

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18/1/2008


 
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