ISTOÉ - Independente
 
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Comportamento  
Imprimir
 
Apetite real
Boa de garfo, a monarquia portuguesa tinha predileção por alimentos brasileiros

RODRIGO CARDOSO

MONTAGEM SOBRE REPRODUÇÃO
PRATO FEITO Dom Pedro I preferia arroz com feijão a refeições requintadas

“Hoje fiz uma verdadeira penitência; como não me deram senão peixe de lata, que não gosto nada, não comi senão arroz de manteiga e batatas.” Assim escreveu a princesa Isabel, 150 anos atrás, ao reclamar do cardápio imperial para a quaresma de 1858. Muito gulosa, a filha do imperador dom Pedro II tinha uma queda por doces de ovos, sorvetes e não resistia a um pão-de-ló acompanhado de chá. Por conta do paladar calórico, a primeira senadora do Brasil, que se notabilizou por assinar a Lei Áurea e abolir a escravidão no País, freqüentemente confessava em suas cartas uma preocupação com o peso. Os hábitos alimentares da princesa e de outros personagens históricos das famílias imperial brasileira e real portuguesa – que há 200 anos, a serem completados em março, aportaram no Brasil – estarão reunidos em um livro.

Sob o título Banquetes reais (ainda provisório), a obra editada na forma de romance histórico será lançada no segundo semestre do ano pela Jorge Zahar Editor. “Acho que sou uma encarnação da princesa Isabel”, diverte-se a historiadora portuguesa Ana Roldão, que assina o livro junto com o jornalista Edmundo Barreiros. “Gosto de todas as comidas que ela apreciava”, completa a escritora e pesquisadora de gastronomia dos séculos XVIII e XIX e da arte da mesa.

Há 14 anos no Brasil, Ana é gerente de negócios do Museu Imperial de Petrópolis (RJ) e, ao inaugurar um bistrô no local, passou a ouvir das pessoas: “O que o imperador comia? E a imperatriz?” Debruçada há um ano sobre anotações de viagens, de despensa, correspondências, livros de receitas e cadernos de mordomia, levantou banquetes, cardápios e as mudanças na alimentação com a chegada da corte de além-mar. “Goiaba e aguardente de cana, que era adicionada a frutas frescas, passaram a constar na alimentação dos portugueses”, conta ela.

Dom João VI e sua esposa, Carlota Joaquina, não dividiram o mesmo teto no Brasil. A mesa de jantar de cada um deles, porém, era composta de 12 pratos – duas terrinas de sopa, um cozido, um arroz, quatro guisados, dois assados e duas massas, além de fruta, pão, queijo e doce. Um banquete, por sua vez, chegava a dispor de 30 pratos diferentes. O rei de Portugal foi o que mais se rendeu às iguarias do Brasil. “Dom João descascava cinco mangas depois de comer três frangos”, conta Ana. “Eu vi a camisola de dom João que está sendo restaurada e estará em uma exposição futura. Dá para ver que ele era um homem grande e aí entende-se o tamanho de seu apetite.”

Carlota, por sua vez, além de conspirar contra o marido e tentar tirá-lo do trono várias vezes, é famosa pela predileção por cachaça. “Ela costumava misturar aguardente de cana com frutas, mas também a usava para conservar alimentos. Um escrito revela que era destinada ao quarto e à cozinha dela uma grande quantidade de aguardente”, afirma a historiadora.

Ana explica que foi com dom Pedro II, em 1838, que o consumo de massa entrou no cardápio. A Casa Imperial contava com um fornecedor oficial para o alimento, que tinha no talharim o tipo preferido na corte. Dom Pedro I, “o rapaz das cavalariças”, como diz Ana no bom português de Portugal, era avesso à pompa à mesa. “Ele comia arroz com feijão para mostrar que gostava de comida trivial brasileira, cujo tripé é arroz, feijão e mandioca”, conta ela. O imperador, célebre pelo grito da Independência, casou- se em 1818 com dona Leopoldina, que desembarcou no Brasil um ano antes trazendo na bagagem seus alimentos preferidos conservados pela salga. Vieram: salmão, atum, pescada, carne de porco, ervilha, feijão verde, alcachofras em azeite e, enfim, o bacalhau – talvez o único peixe que a princesa Isabel não chiava para saborear.

REPRODUÇÃO
GLUTÃO Dom João VI conseguia comer cinco mangas após três frangos

Sobremesa Imperial
Fatias à Pompadur é uma sobremesa do século XIX, um tipo de fatia dourada (denominação portuguesa) ou rabanada. Leia a receita:

“ Cortado o miolo de pão em bocados redondos ou quadrados, da grossura de dous ou tres dedos, deite-se por um instante de môlho em vinho branco da Madeira, ou em qualquer outro vinho branco; passem-se depois de escorridos, por ovos batidos, frijão-se, e repitão o mesmo duas ou tres vezes, como acima foi dito; depois de fritas, e de boa cor, sirvão-se com calda de vinho do Rheno, e assucar em ponto.

N.B. Todas as fatias se
podem fazer, molhando-se
em água, leite, ou em
o liquor que quizerem.” *

Fonte: Cozinheiro imperial Biblioteca do Museu Imperial


11/1/2008


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
       

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions



>