ISTOÉ - O sr. tem esperança de que o País mude de rumo?
Dom Tomás - A esperança não morre nunca. Olhando pelas bases do povo, da sociedade, que conserva o vigor do povo latino-americano, vejo que há um potencial, um cabedal de vida, de transformação, que aponta para um futuro diferente. Isso já está presente nos diversos fóruns sociais e nos encontros e assembléias das organizações camponesas. Temos os levantamentos no Equador, na Bolívia, na Venezuela. O povo está muito vivo, apesar de séculos e séculos de dominação da elite, de formação do Estado a serviço da elite, que é o que temos.
ISTOÉ - A única alternativa da América Latina ao capitalismo seria o populismo ou personalismo, como o de Hugo Chávez na Venezuela?
Dom Tomás - Não chamo de populismo, mas de liderança carismática, que Lula também é. Em termos de organização popular, temos mais cabedal do que qualquer país latino-americano. Acho essa mobilização boa, válida, necessária, mas chega um momento em que é preciso haver uma liderança de consenso da maioria. Podem chamar de populismo ou sei lá o quê, mas tem de ser assim. No caso da Venezuela, é o Chávez. Ele tem seus defeitos, mas responde em grande parte a demandas dessas bases populares, contrariando os interesses das elites, que gostariam de vê-lo morto, e do próprio império americano. No caso da Bolívia, essa liderança é o Evo Morales.
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| "No Pará, o Projeto Paz no Campo, da governadora Ana Júlia Carepa (PT), levou à prisão de 200 lavradores" |
ISTOÉ - Por que o sr. é contra a transposição do São Francisco?
Dom Tomás - Pelas mesmas razões de dom Luiz Flávio Cappio (bispo de Barra, na Bahia) e de uma centena de bispos. A transposição é para a elite rica e não vai matar a sede da difusa população nordestina do semi-árido. Vão fazêla para os projetos de exportação de frutas para a Europa, de caranguejos em cativeiro e para a irrigação da cana, além dos grandes centros urbanos. Existe uma alternativa elaborada pela Agência Nacional de Águas, muito mais barata, com recursos locais. É basicamente água de chuva, com o aproveitamento do subsolo e, sobretudo, agenciamento das águas. As águas acumuladas em açudes evaporam sem um serviço de distribuição para quem precisa delas. É três vezes mais barato do que este projeto faraônico que não beneficia a população. Esse negócio de dizer que vai para 12 milhões não é verdade. Vai é para a elite. O outro, mais simples, poderia beneficiar 44 milhões.
ISTOÉ - E por que o governo não optaria por este projeto alternativo?
Dom Tomás - Ele foi abafado pelo próprio governo. No semi-árido brasileiro chove muito mais do que em outros semiáridos. Na Espanha, há uma área semelhante em que o pessoal vive bem porque a água foi racionalizada, com um sistema de atendimento adequado à população. Aqui a cultura é do desperdício de água, mesmo no Nordeste. Quando se fala em retomada do serviço da água, é na mesma linha da indústria da seca, que canaliza o dinheiro para a elite.
ISTOÉ - Exportação e agronegócio não geram empregos para os nordestinos?
Dom Tomás - Todo projeto gera emprego, mas estamos falando de água. Uma coisa é aumentar um bolo para depois, quem sabe, dividi-lo. Outra é levar a água diretamente à população que dela precisa. A água da transposição seria excessivamente cara, bombeada a 300 metros de altura para alimentar três Estados. Seria a água mais cara do mundo.
ISTOÉ - O governo Lula reduziu o conflito no campo?
Dom Tomás - O conflito continua intenso, sobretudo no Norte. No Pará, o resultado do projeto Paz no Campo, da governadora Ana Júlia Carepa (PT), foi a prisão de 200 lavradores em 2007, com violência policial muito forte. Foi um desarmamento dos lavradores pedido pelos fazendeiros, que queriam vacinar seu gado e eram atrapalhados pelas ocupações. O governo pôs a polícia para apoiar os fazendeiros. O lavrador é visto como bandido. Coincidentemente, em uma dessas batidas a polícia encontrou um arsenal de guerra de um fazendeiro. Isso acaba dando em guerra.
ISTOÉ - O governo não diminuiu o índice de mortes nos conflitos?
Dom Tomás - Diminuiu um pouco, mas há uma tensão crescente, sobretudo no Pará, pelo fato de o Incra estar criando assentamentos em terras públicas distantes, insalubres, com malária, em florestas primárias. Isso não é futuro para a reforma agrária, pois acaba beneficiando as madeireiras e contrariando a vida dos ribeirinhos. Interessante é que, em vez de desapropriar áreas próximas aos centros de consumo e escolas, hospitais, o governo faz a reforma agrária no sentido da deportação para longe. É a reforma agrária como deportação. Isso gera tensão e perpetua o trabalho escravo.
ISTOÉ - O agronegócio mecanizado, no mundo todo, é um importante gerador de divisas. No Brasil é diferente?
Dom Tomás - Ele toma a terra que poderia ser da reforma agrária para produzir etanol, para exportar. É um retrocesso, uma volta ao sistema colonial de exportação.
ISTOÉ - Mesmo que o etanol reduza a poluição, o saldo da cultura da cana é negativo?
Dom Tomás - No sentido da terra, é negativa a chamada "energia limpa". A Via Campesina diz que ela é limpa do cano de descarga do carro para fora. Até chegar lá, é tão suja que inclui até trabalho escravo. Retira a terra de quem precisa dela para viver. E agride o meio ambiente transformando a mata em monocultura. O cerrado, que equilibra o planeta e é a caixa-d'água das nossas bacias hidrográficas, está sendo transformado na monocultura de eucalipto, cana, soja ou algodão. O etnol compensa para o mercado do Primeiro Mundo, que está precisando de energia para seus motores, mas de nós ele tira a chance de solucionar nossos problemas. O agronegócio tem um valor importante, mas não pode ser prioridade da política pública para o campo.
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