Esse é um daqueles fenômenos que acontecem de forma tão lenta e suave que a gente não consegue definir com precisão em que momento a vida mudou. Então, como se você encontrasse uma foto no fundo da gaveta, depois de ter se olhado no espelho, percebe a ação do tempo – e tudo aquilo que foi se desenrolando aos poucos vira instantaneamente uma grande transformação. O Brasil sepultou de uma vez por todas três décadas de crises intercaladas por soluços de crescimento. E o ano de 2008 representa o ingresso numa nova era, marcada por mudanças tão positivas quanto radicais. Nesta edição especial de ISTOÉ você vai entender como as bases para esse salto se processaram ao longo dos últimos governos e por que a nova realidade vai permitir aos brasileiros uma vida melhor.
Se fossem resumidas a manchetes de jornais, as bases das mudanças que aconteceram no Brasil seriam assim estampadas:
O País completa o maior período democrático da história – Levando em conta a conservadora medida de que a democratização começou com a promulgação da Constituição de 1988 (e não com a eleição de Tancredo Neves três anos antes), o Brasil completou 19 anos de inquestionável democracia. Antes, o maior período com eleições diretas e liberdade de opinião tinha sido entre 1946 e 1964.
PIB cresce mais que inflação – Se você tem menos de 60 anos de idade, não sabe o que é isso: pela primeira vez desde 1950, a taxa de variação do Produto Interno Bruto do Brasil vai superar a da inflação. No ano passado, a economia cresceu 3,7% contra uma inflação de 4,18%. Em 2007, a previsão do Banco Central era repetir a mesma inflação, mas com um crescimento de pelo menos 4,7%. Só que, com os resultados do terceiro trimestre, divulgados no dia 11 de dezembro, o País ultrapassará a casa dos 5%. Entre os países do BRIC, novas estrelas da economia mundial, o Brasil tem a menor taxa de inflação. O País, de fato, cresce menos que a média dos emergentes. Mas, quando comparado com Argentina ou Venezuela, seu avanço econômico é mais sólido.
Em 1973, no auge do chamado milagre econômico, quando o Brasil teve crescimento de 13,97%, o PIB ganhou da inflação por 0,0044 ponto. A última ocasião em que o País viveu algo parecido com 2007 foi entre 1948 e 1950. Oficialmente, a economia não conhece recessão desde 1992, quando o PIB ficou negativo em 0,47%. Mas as taxas de 1998 e 1999 somadas não dão 0,3% – ou seja, vivíamos na estagnação econômica. Nessa nova fase, já são 22 trimestres consecutivos (cinco anos e meio) de crescimento, na comparação com o mesmo período do ano anterior. “É o mais longo ciclo das últimas décadas”, diz o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
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| Competitividade internacional e deslocamento regional marcam o agronegócio |
A sociedade está menos desigual – Todos os indicadores sociais melhoraram no século XXI. “Incorporamos 30 milhões de brasileiros ao mercado de consumo”, diz o ministro da Economia, Guido Mantega. A taxa de desemprego caiu de 9,7% da população economicamente ativa em 2003 para 8,5% em 2006. A melhoria do nível de emprego tende a ganhar velocidade por causa da curva populacional: com a redução da taxa de fecundidade, o ciclo de superoferta de mão-de-obra registrado nas décadas de 1980 e 1990 está chegando ao fim. A escolarização atinge 97% das crianças. O consumo final das famílias, que inclui gastos com bens de consumo (comida e roupa, por exemplo), é praticamente o triplo de há dez anos.
As diferenças regionais estão sendo reduzidas. Segundo o BNDES, o Índice de Desenvolvimento Social (que leva em conta o nível de escolarização, quantidade de domicílios com água e esgoto e renda familiar, entre outras coisas) da região Nordeste se multiplicou por três em uma década. Entre 1995 e 2006, o nível dos indicadores sociais era cinco vezes menor no Nordeste em comparação com o Sudeste. Hoje, ele é apenas a metade do índice do Sudeste. “Não se pode negar que os programas sociais, como o Bolsa Família, ajudaram a reduzir a pobreza e melhorar a renda dos mais pobres”, diz o sociólogo Sérgio Fausto, ligado ao PSDB. Esse avanço social coincide com o declínio dos coronéis da política e a redução do poder do antigo PFL, atual DEM, no Nordeste. Hoje, o partido tem apenas um governador (no Distrito Federal) e dois prefeitos de capitais (no Rio de Janeiro e em São Paulo).
O fato é que democracia, crescimento econômico, inflação baixa, distribuição de renda e redução das disparidades regionais jamais aconteceram ao mesmo tempo no Brasil. Nos anos JK, houve democracia e crescimento, mas com inflação. Durante o milagre econômico dos anos 1970, houve crescimento alto. Mas eram os anos mais virulentos da ditadura. A inflação anual média de 1969 a 1973 foi de 18,4%. Portanto, não pode ser considerada baixa. Na década de 1990, alguns períodos tiveram democracia, inflação sob controle e desenvolvimento. Mas a distribuição de renda foi nuvem passageira, como no início do Plano Real, em 1994. E, em parte como causa, em parte como conseqüência das transformações que esses elementos proporcionam, outras manchetes deveriam estampar o noticiário de 2007.
A dívida externa acabou – Segundo o Banco Central, ela era de US$ 194,6 bilhões em outubro, aí contando as dívidas dos governos e das empresas privadas. Atualmente, as reservas estão em torno de US$ 176 bilhões. Estima-se que até março de 2008 a dívida total seja igual ao nível de reservas. Mas o País nem precisaria chegar a tanto para decretar o fim dessa ameaça que paralisou o Brasil em duas moratórias (1982 e 1987) e em outras duas agudíssimas crises de liquidez (1992 e 1998). Segundo Natan Blanche, da consultoria Tendências, um dos maiores especialistas em câmbio, o Brasil fechará 2007 tendo pago cerca de US$ 2 bilhões em serviço da dívida externa. No próximo ano, os rendimentos do atual nível de reservas serão suficientes para pagar parcelas e juros da dívida externa e ainda sobrarão US$ 3 bilhões no caixa do BC.
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