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"Não vou gravar funk por enquanto"
Milton Nascimento comemora os 35 anos do Clube da Esquina, diz que a MPB vai bem e que não entende o que se passa no País

Por AZIZ FILHO

ALEXANDRE SAN’TANNA/AG. ISTOÉHá 35 anos, quando se juntou aos conterrâneos de Minas Gerais no disco Clube da esquina, Milton Nascimento tornou-se um artista universal. A potência da voz, a excelência dos arranjos e a poesia das letras criadas pela turma de Belo Horizonte nos anos 70 casou a África com a mineiridade e influenciou diversas gerações mundo afora. Este mês serão relançados os históricos álbuns Clube da esquina 1 e 2, remixados e remasterizados por João Marcelo Bôscoli. Com 65 anos, Milton nunca teve filho – e não gosta de tocar no assunto –, mas garante conhecer pelo nome seus 114 afilhados. Avesso à exposição da vida pessoal, o artista recebeu ISTOÉ em sua casa no bairro carioca do Itanhangá, entre miniaturas de locomotivas e centenas de fotos de crianças, duas de suas grandes paixões.

ISTOÉ – Você atribui o sucesso do Clube da Esquina mais à excelência dos arranjos ou à ruptura com a música convencional?
Milton Nascimento – Às duas coisas. O pessoal não estava acostumado com aquele tipo de música. Tanto que foi difícil no começo. Depois do primeiro Clube da esquina, aconteceu algo que sinalizou tudo. O Wayne Shorter tinha o grupo de jazz Weather Report. Vieram tocar no Theatro Municipal e, para ver meu show, eles encurtaram o deles. Corriam para me ver. No primeiro dia, quase morri de susto. Depois fui me acostumando. No último dia, o Wayne me chamou para gravar com ele nos Estados Unidos e perguntou se eu queria levar alguém. Levei Wagner Tiso e Robertinho Silva para Los Angeles, ficamos na casa dele e gravamos Native dancer, que abriu a porta para todo tipo de público. Eu não entendia nada. Era de Três Pontas e de repente estava em Nova York no meio da neve.

ISTOÉ – Sua voz foi o principal motivo do sucesso?
Milton – A voz também, mas era muito mais, um negócio diferente. Nunca tinham visto alguém tocar violão daquele jeito. O Maurice White, líder do Earth Wind & Fire, disse que o grupo dele passou a existir por causa do jeito que eu toquei no disco com o Wayne Shorter. Naquela época havia muita rixa entre os estilos musicais. O pessoal do pop não gostava do pessoal do rock, que não gostava do samba e por aí vai. Do nosso disco todo mundo gostou e começou a me chamar para gravar vários estilos. Estou em todas que me chamam, desde que eu goste.

ISTOÉ – Como vê a música brasileira hoje, tão diferente da música politizada daquela época?
Milton – Não tenho nenhuma exigência de música ligada a política. Tudo que faço é baseado no ser humano, geralmente a partir dos olhos das crianças. Eu fico pensando: pôxa, quem está acabando com a terra nunca olhou o brilho no olho de uma criança. Se olhar bem, não vai ter coragem de fazer nada para apagar esse brilho. Criança é a coisa mais importante do mundo.

ISTOÉ – Se criança é tão importante para você, por que não teve filhos?
Milton – É uma história na qual eu não gosto de tocar. Tenho 114 afilhados. Sei o nome de todos. As crianças gostam de mim e me chamam. Às vezes batizo três de uma mesma família. Segundo o candomblé, sou filho de Oxalá, mas sou cercado de erês, espíritos de crianças.

ISTOÉ – Gravaria um funk?
Milton – Não sei. Por enquanto não.

ISTOÉ – Gosta de funk?
Milton – Ô, meu Deus, estávamos falando de outra coisa.

ISTOÉ – Gosta?
Milton – Olha, tem lugar para todo mundo. Dizem que a música brasileira está uma porcaria, que não aparece nada novo. Está errada essa idéia. A MPB está boa, sim. Só que não é fácil aparecer.

ISTOÉ – Você é uma estrela internacional e consegue manter sua vida pessoal pouco exposta. Qual é o segredo?
Milton – Ué, eu estou aí, vê quem quer. Já sofri muito com mentira da imprensa. Quando meu remédio para diabete me deu anorexia, pegaram pesado demais. Foram à minha família, aos meus amigos, tudo. Divulgamos um atestado de que eu não tinha doença infecto-contagiosa, mas o negócio foi tão mau que escolheram médicos amigos dos meus médicos para falarem que meus médicos estavam mentindo, que diabete não provoca isso.

"Não sou preso a religião. A Missa dos quilombos foi uma idéia do dom Hélder Câmara. Fiz para os negros em geral"

ISTOÉ – Como está a saúde?
Milton – Ótima, graças a Deus.

ISTOÉ – Você é religioso?
Milton – Decidi que não seria preso a religião ou a partido porque quero conversar com todos. De vez em quando vou ao espiritismo, ao candomblé. Ao mesmo tempo, fiz Missa dos quilombos, para os negros em geral, uma idéia do dom Hélder Câmara. Falávamos coisas da África para quilombos dentro da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, com padres.

ISTOÉ – Seu cabelo é homenagem à África?
Milton – É uma homenagem a mim. Descobri que meu boné estava ficando mais famoso do que eu. Pensei: esse boné está muito metido. Aí, fiz as tranças.

ISTOÉ – Qual o tamanho da África em sua obra?
Milton – Está em meu corpo inteiro. Saiu meu DNA mostrando que 99,4% é africano, 0,3% índio e 0,3% branco.

ISTOÉ – Como conseguiu ficar no Brasil durante a ditadura?
Milton – Fui perseguido. Não fico tocando nisso porque chega de sofrer. Fui preso sob a alegação de que fazia barulho no prédio onde morava, na Lagoa – apesar de eu estar na Venezuela no dia da denúncia. Aí o delegado mudou a acusação, dizendo que eu escondia presos. Só não fiquei preso porque uma pessoa lá dentro me conhecia desde criança e falou: “Nem pense em tocar nesse cara.” Aí me soltaram.

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19/12/2007


 
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