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''A esquerda é conservadora''
Para o presidente do PPS, os progressistas têm que apresentar um contraponto à "revolução da informática"

Por RUDOLFO LAGO

ISTOÉ – Mas a democracia nunca foi um valor defendido pelos comunistas, pelo menos depois da ascensão de Josef Stálin na URSS.
Freire – Mas essa é a revisão que só nós fizemos, a partir das denúncias feitas por Nikita Kruchóv dos desmandos do período stalinista. Hoje, porém, eu avalio que o autoritarismo não foi uma característica apenas do período de Stálin. Eu tenho dito que o socialismo, na verdade, foi o ovo da serpente. Nasceu com Stálin algo que já estava instalado desde o começo. Era um modelo de lógica militarista, difícil de conviver com a democracia. Eu não creio que se (León) Trotsky tivesse triunfado sobre Stálin a coisa viesse a ser muito diferente no que diz respeito a liberdades democráticas.

ISTOÉ – O sr. diz que apenas o PCB fez uma revisão do autoritarismo. Como isso se reflete na esquerda brasileira?
Freire – A esquerda brasileira não é democrática na sua origem. Isso não justifica o golpe de 1964, mas não deixa de ter razão quem afirma que o projeto da esquerda brasileira antes daquele ano também não era democrático.

ISTOÉ – O que era, então?
Freire – O que houve ali foi uma disputa entre dois blocos que pensavam em regimes autoritários para ver quem dava o golpe primeiro. Triunfou o bloco da direita. Depois, entre aqueles que pregaram a luta armada, desejava-se a derrota da ditadura militar para a instalação de um regime socialista também não-democrático. A verdade é que os partidos de esquerda que formaram o PT não fizeram nem a primeira das revisões, que foi a denúncia de Kruchóv dos desmandos cometidos por Stálin no XX Congresso do Partido Comunista da URSS em 1956. Ali, um monte de convicções foi jogado fora. Começa a se esboçar ali a idéia de luta dentro do campo político institucional, da chamada via pacífica, da possibilidade de tomada do poder não pela via da força. Em 1962, parte dos comunistas discorda dessas revisões e se fundou aqui no Brasil o PCdoB. No PCB, isso se consubstancia posteriormente na decisão de não apoiar a luta armada e de se engajar no MDB no combate à ditadura. Em certa medida, nós fomos os grandes responsáveis por fazer com que o MDB deixasse de ser o “partido do sim”, como a ditadura o chamava, para se tornar de fato o “partido do não”. Em 1974, quando o MDB deu o primeiro grande susto na ditadura, elegendo 16 senadores, outros partidos de esquerda pregavam o voto nulo.

ISTOÉ – E o que isso tem a ver com o que representa atualmente o PT?
Freire – O PT surge de blocos de esquerda que não estavam no PCB. E só o PCB estava na luta democrática durante a ditadura. Esses demais partidos só vão ingressar no MDB depois do fracasso total da luta armada. E vão internamente disputar espaço conosco. Foram, por exemplo, contra a entrada de Teotônio Vilela no partido porque ele havia apoiado o golpe em 1964. Ora, se mudou de idéia depois, teria que ser bemvindo, porque a sua chegada enfraquecia o regime que nós combatíamos. Depois da redemocratização, foram buscar a hegemonia das esquerdas contra nós no voto. Então, a relação entre o PCB e o PT sempre foi conflitante.

ISTOÉ – Adversários de origem...
Freire – No sindicalismo, éramos adversários. Na política, nos colocamos várias vezes em posições antagônicas. Depois da luta pelas eleições diretas, o PT ficou contra a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Unimo-nos para o impeachment de Fernando Collor, mas outra vez o PT não aceitou participar do governo Itamar Franco. E, assim, o PT foi crescendo, beneficiando-se desses momentos, mas evitando participar das alianças para governar o País que poderiam descaracterizá-lo perante os olhos do eleitorado. E foi ganhando também em cima das nossas fraquezas.

ISTOÉ – Que fraquezas?
Freire – A verdade é que o PCB viveu um calvário depois da anistia. O exílio é um processo que rompe a trajetória política das pessoas. Mas a vida não pára. Os exilados, depois, querem retomar as coisas a partir do ponto em que as deixaram, ignorando essa evolução. Acho que foi um pouco o que aconteceu com Luís Carlos Prestes. Ele voltou com a anistia e iniciou um processo de luta interna que dificultou a possibilidade de crescermos naquele momento da retomada da democracia. Aí, essa luta interna se somou à realidade mundial, com o fim da experiência do socialismo real na União Soviética, que nos obrigou a repensar tudo.

VICENZO PINTO/REUTERS
"Se Chávez tivesse ganho o plebiscito, ele instalaria uma ditadura. E o apoio da esquerda a ele pode incentivar uma direita não-democrática"

ISTOÉ – E o que virou o PCB depois que passou a se chamar PPS?
Freire – O cerne de tudo passou a ser para nós a defesa da democracia. O PPS é resultado da crise do socialismo. Mas é também o resultado de toda essa experiência de revisão em torno da questão democrática. Eu ainda sou marxista, mas não sou mais comunista, porque o comunismo acabou.

ISTOÉ – Mesmo adversário, o PT é um partido de esquerda no poder. Não é incoerente que os ex-comunistas estejam com conservadores históricos como o DEM?
Freire – Nós não temos um governo de esquerda. O PT no governo caiu para o cinismo. Quando foi para o governo, abriuse para alianças no campo conservador numa ótica simplesmente eleitoreira. Nós chegamos a apoiar e participar inicialmente do governo, mas nos afastamos na medida em que nada do que propúnhamos era sequer levado em consideração. Nós temos hoje um governo que herdou o que havia de pior na prática dos partidos conservadores tradicionais. Que não formula nada. Que não reflete nada. Que não pensa nada. Que apenas se aproveita de um bom momento internacional e da sua política de marketing para vender o que não existe.

ISTOÉ – Mas a situação econômica não melhorou?
Freire – Não podemos ficar nessa de nos compararmos apenas a nós mesmos. O discurso do governo baseia-se em comparar o agora com uma fase anterior do Brasil, ignorando que o mundo inteiro vive hoje um bom momento. Como é que nós estamos em comparação com a China, ou com a Índia? Ou mesmo em comparação com alguns dos nossos vizinhos? Essa é a comparação que se tem de fazer. Além disso, o que hoje me preocupa é como essa falta de compromisso com a democracia se revela no poder.

ISTOÉ – Falta de compromisso com a democracia?
Freire – Se Hugo Chávez tivesse ganho o plebiscito na Venezuela, ele instalaria ali uma ditadura. E como a esquerda brasileira da qual o PT faz parte se posicionaria diante disso? Como se posicionaria Lula, que chegou a elogiá-lo publicamente? Em que medida isso não tem relação com esse discurso de terceiro mandato? O risco disso é que tal postura pode incentivar também uma direita igualmente não-democrática. E aí? Vamos voltar ao velho cenário anterior a 1964? Não podemos aceitar isso. É o oposto do caminho que pregamos.

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7/12/2007


 
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