Quando o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso começou, o senador Sérgio Guerra nem do PSDB era. Como deputado do PSB, fazia oposição a ele. Há quem aponte esse fator como um exemplo da renovação que a sua chegada ao comando do partido dos tucanos representa. No PSDB, esse político pernambucano de 60 anos já esteve próximo do governador de São Paulo, José Serra, e foi o coordenador da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência da República. Transita, assim, entre os diferentes grupos que se digladiam no partido. Uma característica que talvez facilite um pouco as difíceis tarefas que Sérgio Guerra terá como presidente do PSDB. Ele precisa manter coesos os grupos que se dividem hoje entre as pré-candidaturas de Serra e do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, para a sucessão de Lula em 2010, e as viúvas ligadas a FHC e a Alckmin. Conciliar as pressões que todos eles fazem quanto ao tom oposicionista que o partido adotará. E dar consistência a uma legenda que, distante das bases e sem capilaridade, encontra dificuldades para enfrentar a máquina do PT e o presidente Lula. Com a saúde renovada depois de enfrentar no início do ano uma delicada cirurgia que lhe extraiu boa parte do intestino por causa do agravamento de uma diverticulite, Sérgio Guerra acredita que terá condições de vencer tais desafios. É o que ele conta nesta entrevista à ISTOÉ.
ISTOÉ – Quem é o seu padrinho: José Serra, Aécio Neves, FHC ou Alckmin?
Sérgio Guerra – Nenhum deles. Ou todos eles. A indicação inicial foi feita pelo senador Tasso Jereissati, que era o presidente do partido. E hoje é encampada por todos esses citados.
ISTOÉ – É inegável que o PSDB vive uma disputa entre os projetos desses personagens. Como é que o sr. pretende administrar isso?
Guerra – Há mais discussão no PSDB do que divisão. A divisão mais notória é essa entre os pretensos candidatos à Presidência. Mas há uma convicção sólida de que o partido não se dividirá. Eu acho que os dois têm a perfeita compreensão de que é necessário que o PSDB cresça, se consolide, se modernize, para que o PSDB no plural e eventuais candidatos em particular tenham chances de ganhar a próxima eleição presidencial.
ISTOÉ – O sr. defende a idéia de prévias para que o partido decida entre Serra e Aécio?
Guerra – Acho que essa é uma idéia que tem que ser testada. Pode ser que ela não seja necessária e que se chegue a um entendimento antes. Mas, se houver disputa, é a melhor alternativa que vejo hoje para a escolha.
ISTOÉ – A divisão interna foi um fator determinante para o fracasso do PSDB nas duas últimas eleições presidenciais, não?
Guerra – Eu posso falar com mais propriedade sobre a última eleição, na qual estive mais envolvido, como coordenador da campanha. Vários fatores influenciaram no resultado. Mas um dos principais foi, sem dúvida, uma certa falta de solidariedade dentro do partido e na aliança que nós compusemos. Nós tínhamos uma base ampla no País todo. E essa base funcionou de uma forma deficiente na produção de uma campanha que pudesse fazer crescer os votos de Geraldo Alckmin. Mas não foi uma questão de divisão. Não foi bem isso. O que faltou foi um entrosamento, uma integração mais efetiva entre o partido no geral, seus candidatos e as bases nos municípios e nos Estados.
ISTOÉ – O sr. fala em modernização do PSDB. No que o partido precisa se modernizar?
Guerra – Em todos os aspectos. Precisa de um novo plano de comunicação, de maior capacidade de mobilização da sociedade, maior interação com grupos sociais que hoje não participam da vida partidária. Temos que ter capacidade de nos estruturarmos no País inteiro. Não podemos ter importância em certas áreas, como São Paulo, e ser praticamente irrelevantes em outras. Nós temos problemas gerais de organização. A solução não é fácil e as leis eleitorais atuais não ajudam a reestruturação partidária. A sociedade acha que os políticos do PSDB são os melhores, mas, por alguma razão que precisamos compreender e solucionar, o PSDB não é compreendido como estrutura viva nos Estados e municípios. O partido precisa melhorar e precisa se abrir.
ISTOÉ – Que tipo de oposição deve prevalecer: a radicalização da crítica ao governo ou a manutenção de pontos de contato com o presidente Lula?
Guerra – Um partido de oposição numa sociedade democrática como o Brasil deve conviver e se comunicar com o governo. O importante não é ser campeão do radicalismo, mas ser campeão da eficiência. Temos que mostrar e provar que somos diferentes. Nós somos um partido que não deseja quebrar o País. Não torcemos pelo quanto pior, melhor.
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| "Não vejo FHC como radical. É um democrata. Os comentários sobre Lula foram sobre o fato de ele às vezes falar mal o português" |
ISTOÉ – Isso significa que FHC perdeu o debate interno? Porque ele, na convenção, defendeu um aprofundamento das críticas ao governo e chamou o presidente Lula de analfabeto.
Guerra – Fernando Henrique defende que tenhamos várias características para desenvolver. Uma delas é a da coerência. Devemos honrar o nosso passado, o nosso presente e produzir um futuro para o nosso partido e para o País. De maneira nenhuma enxergo nele um radical. É um democrata absoluto, integral, moderno. Os comentários sobre o presidente foram sobre o fato de Lula às vezes falar mal o português. Coisa que todo mundo sabe. Considerar que tem a ver com preconceito é não enxergar dois palmos à frente do nariz. O que nos atormenta, não só a Fernando Henrique, são as coisas que Lula faz e diz e que comprometem não só a ele, mas também ao País.
ISTOÉ – Por exemplo?
Guerra – Por exemplo, essas declarações sobre a democracia na Venezuela. Dizer que Hugo Chávez governa a Venezuela democraticamente prejudica a compreensão da sociedade do que seja democracia no nosso país. E prejudica a avaliação que se tem do presidente. Se é um democrata de verdade, Lula não deveria falar o que falou. Não podia elogiar uma democracia que todo mundo sabe que não existe como tal, e que gera para o continente um quadro que nos preocupa.
ISTOÉ – O sr. acha que o terceiro mandato é um desejo do presidente Lula?
Guerra – Eu fiquei muito preocupado com essas últimas declarações sobre a Venezuela. Mais do que preocupado, decepcionado. Ele afirmar que um regime autoritário como o de Chávez é uma democracia, sendo ele presidente do Brasil e alguém que teve uma história na democracia, que ganhou com ela, que assumiu um governo depois de uma transição absolutamente limpa, é algo que assusta. Eu quero acreditar que são divagações demagógicas. Conversa fiada sem maiores conseqüências.
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