O mundo todo tem muito a comemorar. Na última semana, cientistas americanos e japoneses anunciaram um avanço espetacular no campo das células-tronco, as estruturas curinga que têm o poder de se transformar em novos tecidos do organismo. Por isso, servem como peças de substituição daquelas que, por algum motivo, não funcionam mais. Os pesquisadores reprogramaram células adultas presentes na pele pele humana para se comportar como células-tronco embrionárias, capazes de se diferenciar em qualquer célula do corpo. Essa é a grande vantagem em relação às células-tronco adultas, encontradas em fontes como o cordão umbilical e medula óssea, porém bem menos versáteis. Após a mudança, os cientistas conseguiram fazer com que as novas células se tornassem neurônios e células cardíacas.
A descoberta tem potencial para mudar os rumos da ciência nesta área. "Está no mesmo patamar de importância da clonagem da ovelha Dolly, da primeira extração de uma célula-tronco de um embrião humano e da produção de células- tronco a partir de embriões clonados de um macaco", explica o neurocientista Steven Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O criador da Dolly, o escocês Ian Wilmut, saudou o achado: "A descoberta terá implicações enormes na pesquisa e, um dia, em tratamentos", vaticinou. O pesquisador Robert Lanza, da companhia Advanced Cell Technology, foi mais longe: "Este trabalho é como aprender a transformar chumbo em ouro". O entusiasmo é compreensível porque, pela primeira vez, obteve-se célula embrionária humana sem recorrer a embriões humanos. Este era o grande obstáculo às pesquisas nesta área. Isso porque, até agora, a única fonte dessas células eram embriões descartados por clínicas de fertilização in vitro. Porém, o método é contestado por muitos porque implica na destruição de embriões.
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| BRINCADEIRA André recorreu a um banco público de cordão umbilical para se tratar de uma leucemia |
A novidade foi divulgada nas revistas científicas Cell e Science. No experimento da Universidade de Kyoto, no Japão, chefiado por Shynia Yamanaka, as células estudadas (fibroblastos) foram tiradas do rosto de uma mulher de 36 anos. O time de James Thomson, da Universi- ENTRE IRMÃOS João tinha leucemia. Recebeu célula tirada do cordão umbilical da irmã, Kamilli, e está curado dade Wisconsin-Madison, nos EUA, trabalhou com fibroblastos extraídos do prepúcio de um bebê recém-nascido. Além disso, foram feitos testes com fibroblastos existentes no líquido sinovial (encontrado entre as cartilagens) e também no pulmão. Para obter a mudança, os cientistas "infectaram" as células com um vírus que mistura seu material genético ao DNA da célula invadida. Os novos genes alteraram o comportamento das células fazendo com que voltassem a uma etapa anterior do seu amadurecimento, quando não tinham se diferenciado em tecidos específicos do corpo. Depois, estimularam-nas a se tornar células cardíacas e neurônios.
Agora, muita pesquisa será feita para tornar a descoberta realmente aplicável. Um dos empecilhos é o uso dos microorganismos para introduzir genes nas células. "A presença dos vírus pode causar mutações. Buscamos outras estratégias para inserir os genes", disse à ISTOÉ a cientista Junying Yu, que liderou a equipe americana. Também será imprescindível verificar se as células não têm potencial cancerígeno, uma vez que correm o risco de se multiplicar indefinida e desordenadamente. Outro ponto ainda não totalmente esclarecido é se elas têm o mesmo potencial das legítimas embrionárias. "Por tudo isso, levará anos para fazermos a primeira aplicação clínica", prevê Junying Yu.
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| ENTRE IRMÃOS João tinha leucemia. Recebeu célula tirada do cordão umbilical da irmã, Kamilli, e está curado |
O estudo teve forte impacto no Brasil. "Os resultados confirmam que o corpo adulto tem as informações para avançarmos no estudo das células-tronco, independentemente do sacrifício de embriões", diz Hans Dohmann, diretor do Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio de Janeiro. Na opinião da geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo, a reprogramação de células adultas é um passo importante. "Mas precisa ser concretizado", pondera.
Ao mesmo tempo que se buscam novas fontes de células-tronco embrionárias, procura-se expandir as opções de locais de onde podem ser retiradas as chamadas células-tronco adultas. Hoje, as principais fontes são o cordão umbilical e a medula óssea. Mas há alguns obstáculos no uso dessas fontes. Um deles é a quantidade de células que se consegue do cordão. Numa coleta padrão, retiramse dele por volta de 86 milhões de células diversas. Mas apenas cerca de 550 mil são as que podem gerar vasos sangüíneos, por exemplo. "E elas são difíceis de serem multiplicadas em laboratório", conta o cirurgião cardiovascular Paulo Brofman, da PUC do Paraná. Neste ponto, o cientista brasileiro teve uma vitória. Seu grupo criou uma técnica que aumenta em até 70 vezes a concentração de células extraídas do cordão e, tão bom quanto, criou vasos sangüíneos a partir delas.
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