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Entrevista  
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''O Cazuza era muito macho''
Primeiro brasileiro a ganhar o Grammy Latino, o pai do cantor fala da homossexualidade do filho e conta como revelou ídolos da MPB

Por AZIZ FILHO

ALEXANDRE SANT’ANNA/AG.ISTOÉÉ impossível contar a saga da música brasileira sem falar do carioca João Araújo, pai do roqueiro Cazuza, que incendiou os palcos do País nos anos 80 e morreu de Aids na década seguinte – tornando- se um símbolo da luta contra essa doença. João Araújo tem, e muito, o seu próprio mérito quando o assunto é música, embora, inevitavelmente (e para seu orgulho), tenha entrado para a história como “o pai de Cazuza”. Eis a prova de seu valor: na quarta-feira 7, em Las Vegas, ele será o primeiro brasileiro a receber o prêmio Grammy Latino, concedido a pessoas com importantes contribuições em gravação e promoção musical. João tem 72 anos de vida, 57 de indústria fonográfica e trabalhou em diversas gravadoras até se tornar um dos sócios da Som Livre. Nesta entrevista, ele quebra o seu temperamento reservado e expõe, como nunca fizera até então, sua relação com o filho. Mais: ele avaliza a tese de que o período de criação intensa da música brasileira se deu na ditadura militar.

ISTOÉ – Dos ídolos que ajudou a projetar, qual foi a experiência mais gratificante?
João Araújo – Ajudar o Djavan foi muito compensador, coitado, porque ele vinha das Alagoas, não tinha onde dormir. Tocava um violão que fascinava quem entende de música. Se ele tem cara de pobre agora, sendo rico, imagine a cara dele quando era pobre mesmo. Ele falava: seu João, tenho de voltar para o Nordeste, aqui não tenho nem onde dormir. Consegui numa boate do Leblon chamada 706, nos anos 70, um emprego para ele cantar em troca de uma miséria de cachê. Ele foi ficando, melhorando. É muito grato por isso.

ISTOÉ – Outros artistas?
Araújo – Quando eu contratei o Caetano (Veloso) e a Gal (Costa), o pessoal da gravadora achava que eles não iriam agüentar, iriam morrer cedo e de inanição, porque eram muito magrinhos. Projetei o Lulu Santos, que se chamava Luiz Maurício e era meu empregado. Projetei a Xuxa, cujo recorde na vendagem de discos nunca foi batido na América Latina. Projetei Ney Matogrosso. São muitos.

ISTOÉ – E o Cazuza?
Araújo – No primeiro momento, eu achava a sua música muito ruim. Fui com o Moraes Moreira ver o primeiro show do Barão Vermelho em um cafofo em São Conrado. Mambembe. Os instrumentos, coitadinhos. Mas senti uma luz no Cazuza, cantava de forma diferente. Antes disso, eu nem sabia que ele mexia com música.

ISTOÉ – Não sabia?
Araújo – Ele chegava depois da meianoite, lá pelos 17 ou 18 anos, e ficava compondo até as quatro da manhã. Eu nem via. Aí chegou o Guto Graça Melo e o Zeca Jagger (Ezequiel Neves), que eram amigos dele, e me deram uma fita para ouvir. Era o Cazuza se abrindo para o sucesso. A música dele que eu mais gosto deu o título ao último show, a coisa mais linda que eu vi na vida: O tempo não pára.

ISTOÉ – Foi difícil lidar com a opção sexual de Cazuza?
Araújo – Não. O que eu não suporto é o gay que gosta de se vestir de mulher e fala que é mulher. O homossexual é diferente disso, é um desvio de ordem sexual, que não implica a personalidade. O Cazuza era muito macho, gostava de sair na mão e não ouvia desaforo. Mas era homossexual. Soube disso numa época terrível porque ninguém falava desses assuntos, era um tempo em que homossexual escondia a sua condição sexual.

ISTOÉ – O Cazuza também?
Araújo – Não. Ele falava de seu homossexualismo de forma aberta. Custou mais para falar da Aids, mas falou do homossexualismo assim que teve certeza. Ele deve ter feito experiências na adolescência e, quando viu que gostava desse lado, começou a falar.

ISTOÉ – O que o sr. acha de ele ter assumido publicamente a Aids?
Araújo – Cazuza era ótimo para tirar as pessoas da crise. Sempre foi otimista e eu vendia otimismo para ele. Telefonava- lhe comentando qualquer notinha de jornal que falasse de algum avanço contra a Aids. Eu dizia: Cazuza, daqui a pouco vai ser como diabete, controlada com remédio, não vai matar mais. Eu tinha de falar isso, mesmo sabendo que não era assim. Ele sabia que não tinha saída, mas fazia a mesma coisa com os outros. Naquele tempo tinha um remédio chamado AZT. Hoje temos 16 antivirais. Tem gente com HIV vivendo muito bem.

DIVULGAÇÃO
"O Chico sempre fez o estilo tímido. Ele me disse que tinha umas musiquinhas. Eram A banda e Quem te viu quem te vê, primeiros sucessos"

ISTOÉ – Como era a relação pai e filho?
Araújo – Tínhamos uma relação de profundo amor. Claro que brigávamos e uma vez eu o expulsei de casa. Ele sempre foi rebelde demais. Certo dia, com uns 20 e poucos anos, ele entrou em casa e disse, sem mais nem menos: “Estou indo para a Bahia.” Perguntei se ele já tinha falado com a Lucinha (Lúcia Araújo, a mãe), e ele respondeu: “Não vou falar com ninguém, eu vou e pronto.” Parecia que estava drogado. Eu também engrossei: “Você só vai se passar por cima do meu cadáver.” Ele foi para o banho, eu entrei também debaixo do chuveiro e foi uma pancadaria aquática. Isso tudo acabou umas três horas depois, com beijos e abraços. Eu queria mostrar a ele que tinha alguém, além de Deus, no qual ele não acreditava muito, a quem devia dar satisfação: eu e a mãe dele.

ISTOÉ – Qual é o melhor momento da MPB?
Araújo – Foram os anos 60, os anos 70 e início dos 80, a fase da contestação. A música brasileira tem 80% de participação no mercado nacional, mas realmente se tornou forte e polêmica nessa época. Ficava todo mundo querendo saber qual era o significado de determinada música. Foi quando apareceu Chico Buarque, Caetano Veloso e muitos outros. Surgiram os festivais. Tivemos diversos movimentos musicais, como a tropicália e a bossa nova, além da jovem guarda, que não tinha a ver com política.

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7/11/2007


 
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