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"O mundo do lado de cá"
Cineasta critica a globalização, diz que o Brasil está permissivo demais e aposta em uma reação que venha das periferias

Por FRANCISCO ALVES FILHO

Sílvio Tendler é um cineasta com curiosa mistura de outsider e campeão de bilheterias. No único intervalo em sua filmografia política, Tendler fez O mundo mágico dos Trapalhões e levou 1,8 milhão de espectadores aos cinemas. É o recorde para um documentário no Brasil. Os segundo e terceiro lugares também são dele, Jango e Os anos JK, respectivamente. Hoje, as bilheterias andam minguadas, mas ele resiste. "Não se pode ter a monotonia do entretenimento, como se no cinema não houvesse espaço para a reflexão", defende. Formado em história, ele discorre nessa entrevista sobre a desorganização social e política do País, a esperança numa renovação vinda das periferias e em novas formas de manifestação dos estudantes, que também lhe serviram de tema para um documentário sobre a UNE. Agora, chega às telas o documentário Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá, em que o intelectual expõe seu conceito de globalitarismo, a opressão patrocinada pelo atual modelo de globalização. "A grande batalha de hoje é pela opinião pública e eu acho que a gente tem de colocar pontos de vista diferentes, alternativos", enuncia Tendler.

Reconhecido por intelectuais de todo o mundo, o geógrafo Milton Santos recebeu o cineasta carioca para expor suas idéias numa tarde de 2001. Durante a conversa, documentada por uma câmera, Santos expôs suas críticas ao modelo de globalização que torna escassos os recursos naturais e empobrece ainda mais os miseráveis. Quase ao fim da conversa, Tendler questionou: "Professor, o que lhe dá a certeza de que suas idéias vão ter algum tipo de conseqüência?" Com os olhos brilhantes e o sorriso simpático, o geógrafo respondeu: "Você". Foi sua última entrevista - ele morreria cinco meses depois, de câncer - e, desde então, Tendler sentiu-se comprometido em multiplicar a mensagem do único acadêmico do Hemisfério Sul a receber o prêmio Vautrin Lud, espécie de Nobel da Geografia. Diabético, cardíaco e hipertenso, o cineasta mantém o bom humor e o espírito provocativo.

ISTOÉ - O que é globaritarismo, conceito criado por Milton Santos?
Sílvio Tendler - Ele formulou essa idéia em 2001, no livro Por uma outra globalização, pouco antes de morrer. É o fundamentalismo que faz do consumo a grande característica da nossa sociedade. A economia se ancora nisso. O mundo está produzindo muito mais do que a sociedade tem capacidade de consumir. Esse processo está levando à destruição do planeta e à desigualdade social. Isso é o globaritarismo: a imposição de padrões consumistas, inclusive a quem não tem condições de consumir. Milton Santos comparou esse fenômeno ao nazismo e ao fascismo.

ISTOÉ - Qual o modelo viável para substituir esse globaritarismo?
Tendler -
Milton Santos não foi contra a globalização. Ele diz no filme, inclusive, que nunca houve civilização, agora é que estamos fazendo os primeiros ensaios do que será a humanidade. É contra a perversidade de nossos dias. Temos que construir um futuro melhor. E eu acredito nisso. Outro dia um jornalista me perguntou se eu não achava que a globalização era inevitável. Eu respondi que não só inevitável como necessária, desejada. Não sou contra a globalização. Mas contra esse modelo que permite a circulação de mercadorias e não permite a circulação de humanos.

ISTOÉ - Vivemos em desorganização política e social. Como implantar um modelo mais justo?
Tendler -
Isso não é necessariamente ruim, já que evita o aparelhamento político que vivemos em outros tempos através de correntes políticas hegemônicas que pregavam idéias quase de forma totalitária. Temos uma grande diversidade política cultural em que várias minorias expressam seus pensamentos: os homossexuais, os sem-teto e por aí vai.

FRED JORDÃO/IMAGO
"Há uma cultura emergindo da periferia. Meninos da Baixada Fluminense com uma câmera de R$ 200 fazem cinema"

ISTOÉ - De onde viria essa renovação?
Tendler -
Há uma cultura que está emergindo da periferia. Há os rappers que revelam a realidade das favelas. Temos meninos da Baixada Fluminense com uma câmera de R$ 200 fazendo cinema. Dou aula em uma universidade na qual o pessoal só quer filmar com câmeras caras. Ninguém acredita que com uma camerazinha de R$ 200 se pode fazer um filme de verdade. Tem o índio na floresta que usa a câmera para denunciar a derrubada de árvores. O outro índio, graças à internet e à parabólica, cria a rede de povos da floresta. Hoje há vários movimentos culturais autônomos na periferia. Não há como explicar o fenômeno dos Racionais MCs, por exemplo, que não aparecem na tevê. Tem o YouTube como uma vertente de renovação cultural, com trabalhos que fugiram do controle da grande mídia.

ISTOÉ - Um de seus trabalhos recentes é sobre a história do movimento estudantil. O sr. acha que os estudantes ainda podem mudar o País?
Tendler -
Entrevistei do primeiro presidente da UNE ao que estava em exercício quando fiz o filme, o Gustavo Petta. Os dois dizem que a força do movimento jovem se deslocou para a periferia. A juventude está engajada, mas de outras formas. Hoje lidam com hiphop, lutam pelos direitos das minorias. Mudaram as formas de luta. Cabe aos líderes adequar as práticas da UNE à demanda do movimento estudantil.

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31/8/2007


 
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