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''Governo e oposição não têm projeto para o país''
Afastado da política, o ex-governador critica o imobilismo dos partidos e propõe soluções para as grandes cidades

Por RUDOLFO LAGO

Como prefeito de Curitiba na década de 70, o urbanista Jaime Lerner surpreendeu o mundo com soluções inovadoras que mudaram o perfil da cidade. É dele, por exemplo, a idéia de corredores exclusivos para ônibus, uma solução hoje implantada em 85 cidades no mundo. Prefeito de Curitiba por duas vezes, governador do Paraná, há cinco anos Lerner resolveu afastar-se da vida política formal. Não conseguia encontrar ali, nos embates entre os partidos, o melhor caminho para solucionar a vida do País. Lerner, hoje com 69 anos, está filiado ao PSB, mas não passa pela sua cabeça voltar a disputar uma eleição. Ele quer fazer política pela arquitetura. E, nesse sentido, presta hoje assessoria a cidades governadas por diferentes correntes, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. “Falta tanto ao governo como à oposição um plano para o País”, acusa. “Ambos se contentam com o populismo.” Na sua condição de urbanista, nesta entrevista à ISTOÉ, Lerner sugere saídas para alguns dos mais importantes problemas vividos hoje pelas grandes cidades. Para desafogar Congonhas, por exemplo, ele propõe a criação de terminais remotos, nos quais o passageiro faria o check-in longe do aeroporto e se deslocaria até ele em ônibus circulando por vias exclusivas para embarcar em seu avião.

ISTOÉ – Em que medida os gargalos na infra-estrutura impedem o Brasil de crescer?
Jaime Lerner – O apagão na infra-estrutura é inegável. Ao lado da ausência de reformas fundamentais que são sempre adiadas, como a reforma tributária, o grande limite para o crescimento hoje está na falta de investimentos em infra-estrutura. Um bom exemplo disso acontece no agronegócio: o que se perde nos transportes anula o que se ganha em produtividade.

ISTOÉ – O que provocou essa situação? Quem seriam os principais responsáveis por isso?
Lerner – Tentar achar responsáveis pode ser uma perda de tempo. O Brasil quebrou nos anos 80 e parou de investir. Nos anos 90, tivemos a reforma econômica, com bons resultados restritos a essa área, ao fim da inflação e à estabilidade. Mas agora o mundo todo vive outro momento. E, nós, em vez de aproveitarmos os bons ventos da economia mundial para aprofundar as reformas necessárias e atrair capital e tecnologia, preferimos nos acomodar no assistencialismo.

ISTOÉ – Mas a falta de infra-estrutura decorre também de uma política fiscal muito baseada na contenção dos gastos orçamentários com investimentos. E isso não começou no governo Lula. É justo, então, responsabilizá-lo por isso?
Lerner – Cada governo tem os desafios do seu tempo. O presidente Lula não inventou o apagão da infra-estrutura, mas não pode fugir das suas responsabilidades. Entendo que cada problema tem a sua equação de co-responsabilidade. Para encaminhar um projeto de país, é necessário vontade política, visão estratégica e, sobretudo, montar para cada problema uma equação de co-responsabilidade.

ISTOÉ – Como assim?
Lerner – Por exemplo, educação e saúde são responsabilidade mais do governo. Infra-estrutura é mais iniciativa privada. Mas nada disso pode sair do papel se não houver um projeto claro de país. Para fazer acontecer alguma coisa, é preciso propor um cenário, uma idéia, que a grande maioria entenda como desejável. Se isso acontecer, todas as forças produtivas de um país se engajam nesse plano de país.

ISTOÉ – Apesar de toda essa situação de caos aéreo, de apagão na infra-estrutura, o presidente permanece incólume nos seus índices de popularidade. O que acontece?
Lerner – Se uma parte significativa da população se satisfaz com o assistencialismo, é fácil para um governo trabalhar só para isso. Enquanto a insatisfação da classe média não vazar para os segmentos mais pobres da população, tudo continuará dando certo para o governo. Agora, o problema é que a oposição também não demonstra a menor capacidade de se apresentar como alternativa à situação.

ISTOÉ – Por quê?
Lerner – Porque, da mesma forma, a oposição tem os olhos fechados para as questões reais. Não apresenta um projeto de país. Joga na mesma faixa do populismo. A oposição não consegue conquistar os pobres. Não inspira confiança aos ricos. E dá-se ao luxo de fazer ouvidos de mercador para os problemas da classe média. Quer retornar ao poder de que forma? Nós vemos os debates, as campanhas políticas, a gente raramente vê um debate de fato em torno de um projeto para o País. Se ninguém propõe um cenário, as campanhas se resumem a uma disputa entre agências de publicidade.

ISTOÉ – O que o sr. sugeriria para resolver os problemas do Aeroporto de Congonhas?
Lerner – A primeira coisa é evitar a centralização excessiva que acontece em São Paulo, tanto em Congonhas como em Guarulhos. É preciso respeitar as limitações de Congonhas. A crise aérea decorre principalmente de uma falta de planejamento estratégico adequado com relação às linhas aéreas. Grande parte dos problemas se resolveria com a criação de dois novos centros, um no complexo Cumbica/Viracopos e outro no Rio Grande do Norte.

ISTOÉ – No Rio Grande do Norte?
Lerner – Claro. Assim, descentralizaríamos as chegadas internacionais. Ali é a esquina do Brasil. É o ponto geográfico médio mais próximo dos grandes destinos da Europa e da América. Além disso, devemos utilizar mais Viracopos e os aeroportos do Rio e Belo Horizonte como ponto dos destinos internacionais. No caso dos vôos domésticos, utilizar mais operações em estrela – vôos que vão e voltam – e descentralizar da mesma forma São Paulo nas linhas de conexão. O que se faz hoje é jogar todos os passageiros internacionais para Guarulhos e todos os nacionais para Congonhas. É óbvio que uma hora isso iria estourar.

ROBERTO CASTRO
''O trem ligando os aeroportos, de que fala Serra, é a solução ideal. Mas é necessária uma alternativa enquanto o trem não ve''

ISTOÉ – Mas isso certamente decorreu também por pressão das companhias.
Lerner – Mas não é isso o que deve prevalecer. O fundamental é operar com segurança e eficiência. Não se pode nem argumentar que isso tenha barateado o preço das passagens aéreas no Brasil. O transporte aéreo doméstico brasileiro é mais caro que o transporte doméstico nos Estados Unidos ou na Europa.

ISTOÉ – Diz-se que a transferência de vôos para outros aeroportos vai fazer o passageiro perder horas em congestionamentos em São Paulo.
Lerner – Há solução para isso. O trem ligando os aeroportos, de que fala o prefeito José Serra, é a solução ideal. Mas a sua implantação é onerosa e demorada. Não faz sentido perpetuar o problema enquanto essa solução não chega. Enquanto não vem o trem, podese implantar facilmente linhas diretas de ônibus em corredores exclusivos, como eu fiz em Curitiba. E, aí, nós podemos evoluir para a criação de pontos remotos de embarque. Em vez da concentração do check-in no aeroporto, a pessoa faria o check-in num ponto remoto e seria transportado para embarcar no aeroporto. Essa centralização da operação toda num único ponto não tem sentido. Os aeroportos crescem loucamente, se transformam em shopping centers, e o espaço precioso para operar melhor os aviões está faltando. Assim, diminui-se esse espaço de atendimento de passageiros para o mínimo.

ISTOÉ – Mas numa cidade de trânsito imprevisível como São Paulo isso é possível?
Lerner – É possível. Um ônibus que saia da avenida Paulista, direto, que não pare até o aeroporto, e circule por um canal só dele, quanto tempo vai levar para chegar em Cumbica?

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15/8/2007


 
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