Psicoterapeuta e professora titular em relações de gênero da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Noeli Montes Morais é autora do livro Fica comigo para o café da manhã, que nasceu da tese de doutorado Sapos não viram príncipe, defendida por ela. “Percebi que a mulher entre 20 e 30 anos, após uma noite de amor, queria que seu parceiro ficasse para o café, mas não necessariamente para o almoço”, diz Noeli. “Significa que deseja uma relação estável até certo ponto. Porque não tem a expectativa de que o casamento, o amor se perpetuem para sempre.” Para a psicóloga Márcia Bittar Nehemy, da PUC, o jovem está reinventando novas fórmulas de manter vínculos com outras pessoas. “Quando ele diz que não quer casar, foge, na verdade, do modelo de casamento tradicional, aquele que oprime, usurpa, dá direito à herança e à divisão de bens materiais”, afirma ela, especialista em sexualidade humana. “Mas viver aos pares é visceral, algo acima da racionalidade de não querer se juntar a alguém.”
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| "Não vou terminar meu relacionamento só porque minha parceira ficou com outra pessoa " Rafael Dias, que namora Aline há dois meses |
Calcado na idealização de uma vida a dois, o amor romântico – que nasceu entre os abraços de Tristão e Isolda na Idade Média e, depois da Segunda Guerra Mundial, entrou no casamento quando desapareceu de vez o costume de os pais escolherem os parceiros dos filhos – está perdendo espaço. Para a psicanalista Regina Navarro Lins, autora do best seller A cama na varanda, cuja segunda edição acaba de ser lançada, os jovens estão mais interessados em satisfazer suas individualidades e descobrir os próprios potenciais.
Depois de oito namoros, a gaúcha Alessandra Marder deixou o romantismo de lado para priorizar uma vida mais livre, voltada para desejos e objetivos próprios, sem expectativa de um relacionamento. Solteira há mais de um ano, ela mora sozinha há seis meses e sai pelo menos três vezes por semana. Aos 29 anos, diz que não fica se “rifando, pegando todo mundo” na balada. Mas estabelece bem um dos pontos dessa nova liberação sexual dos brasileiros: “Se eu transar com um cara na primeira noite, sei que ele vai achar que eu não sirvo para namorar”, diz ela, numa referência aos velhos costumes. “Mas isso não me impede de, às vezes, sair pensando em fazer sexo na primeira noite, se pintar a oportunidade. As mulheres querem ser assim mas não assumem”, completa, indicando a nova postura.
Com tantas transformações em curso, como será, então, a família do futuro? Para Regina Navarro Lins, um filho poderá crescer sem a figura do pai e da mãe sob o mesmo teto e ter irmãos em casas diferentes. “E eu não acredito que a família será regida pela exclusividade sexual. Um casal poderá estar ligado por questões afetivas, profissionais, familiares, e ter uma vida amorosa se multiplicando com outras pessoas”, afirma Regina, que conhece homens e mulheres que já convivem dessa forma.
A escritora observa ainda que mesmo os pares que estão juntos sob um pacto de fidelidade toleram cada vez mais uma relação extraconjugal. “A mulher está separando sexo de amor, como o homem sempre fez. E ele está enxergando isso”, afirma Regina. “Depois de sete anos de casamento e dois filhos, uma paciente minha transou com um homem numa viagem a trabalho. O marido ficou chocado, mas sua preocupação era se a esposa estava envolvida emocionalmente com o outro. Não pensou em separação, não a chamou de vagabunda, nada disso.”
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| SEM PRESSA Denise recusou cinco pedidos de casamento |
A psicoterapeuta Noeli Morais afirma que os cônjuges, atualmente, tendem a discutir o ocorrido com o intuito de descobrir o sentido da infidelidade. “Não vou terminar meu relacionamento só porque minha parceira ficou com outra pessoa. Sinto um ciuminho, mas isso não interfere”, diz o web designer carioca Rafael Dias, 24 anos. A namorada dele, a modelo Aline Figueiredo, 28, trocou beijos com duas outras pessoas nesses dois meses em que estão juntos. Rafael divide um apartamento com Aline, com quem espera construir uma história feliz. Não enxerga a infidelidade dela como uma mancha e segue firme com o relacionamento. “É mais valioso o que sentimos um pelo outro. Não pode é haver possessividade”, opina ele. É mais um traço dessa liberação sexual dos brasileiros. Na primeira grande revolução, na década de 60, o sexo trazia consigo um discurso de contestação, ruptura ou independência em relação à família, à religião ou à sociedade. Agora, a geração desejo o enxerga de um jeito bem direto: sexo existe para dar prazer.
Agradecimentos: Modelos: Paula Millen e Rodrigo Piva - Produção: Frida Abrahão e Braga Junior - Fundo grafitado por EduArtes
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