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Depois da prisão
Zuleido Veras, dono da Gautama, fala pela primeira vez sobre as acusações de corrupção em obras públicas e conta suas relações com políticos fisgados pela Operação Navalha da Polícia Federal

Por LEONARDO ATTUCH E MÁRIO SIMAS FILHO

ISTOÉ - Qual era o papel do lobista Sérgio Sá?
Zuleido -
Foi ele quem apresentou o Ivo à Fátima. Ele era de uma empresa de projetos, a Engevix. Essas empresas de projetos estão sempre na frente das obras.

ISTOÉ - Como?
Zuleido -
Eles sabem das obras antes dos editais justamente porque fizeram os projetos. Por isso, eles têm contatos políticos e também com os empreiteiros.

ISTOÉ - Isso não caracteriza uma intermediação que pode gerar corrupção?
Zuleido -
Não. Isso é legítimo. Todos os projetistas fazem isso, pois têm interesse em realizar a obra.

DIDA SAMPAIO/AE
"José Reinaldo estava comprando um C3. Disse que ele deveria comprar um C5 e ele comprou. Depois, num telefonema, perguntei se ele tinha gostado do carro''

ISTOÉ - Se ministros, governadores, prefeitos e deputados pouco podem influir nos contratos de obras públicas, por que a Gautama mantém um relacionamento político tão intenso?
Zuleido -
Toda obra de engenharia é executada por uma secretaria ou por um órgão da administração pública. E todo secretário é indicado por um político. Portanto, falar com políticos é natural. O político vende para a população o benefício da obra. E muitas vezes diz mais do que faz. Mas, nenhuma empreiteira sobrevive sem obras públicas.

ISTOÉ - As conversas telefônicas gravadas pela PF mostram que a Gautama estava com dificuldade para receber os pagamentos de algumas obras. É nesse momento que surgem as propinas?
Zuleido -
Pode até acontecer alguma tentativa, mas não funciona. Nós, por exemplo, temos obras no Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT). Todo mês tem medição. E eles só pagam em ordem cronológica. Não adianta ir brigar para passar na frente.

ISTOÉ - O grampo revela que a Gautama lutava pelo pagamento da construção de pontes no Maranhão e posteriormente mostra o sr. perguntando se o então governador José Maranhão gostou do carro. O sr. comprou um Citroën C5 para o governador?
Zuleido -
Eu assisti à compra do carro na concessionária. Soube que o governador estava lá e fui cumprimentálo. Vi que ele estava comprando um C3 e até brinquei. Disse: "Governador, o senhor deveria comprar um carro maior! Um C5". Ele gostou do C5 e então comprou. Depois eu perguntei num desses telefonemas se ele tinha gostado do carro. Só isso. Quem comprou o carro foi ele.

ISTOÉ - A PF descobriu que o pagamento do carro foi feito com um cheque e que depois esse cheque foi devolvido, pois alguém teria ido à concessionária e trocado o cheque por dinheiro.
Zuleido -
Isso eu desconheço totalmente. Eu só assisti à compra do carro.

ISTOÉ - E no caso do atual governador do Maranhão, Jackson Lago. Os sobrinhos dele falam com funcionários da Gautama e combinam o recebimento de R$ 240 mil. O que aconteceu?
Zuleido -
Eu não conheço o governador Jackson Lago e nunca falei com ele nem por telefone. As obras que tenho no Maranhão vêm de outros governos.

ISTOÉ - A polícia apreendeu na Gautama um papel mostrando uma suposta lista de propinas para autoridades no Maranhão. É um documento codificado. Nele, há um "chefe maior", e depois nomes como Gordo, Baixinho e outros. Do que se trata?
Zuleido -
Não reconheço esse papel. Essa letra não é minha e também não é da Fátima.

ISTOÉ - Então o governador Jackson Lago não é o "chefe maior"?
Zuleido -
Já disse que nem o conheço.

ISTOÉ - Qual era o papel dos sobrinhos do governador?
Zuleido -
Eu os conheci na prisão. Nunca existiu dinheiro nenhum para eles.

ISTOÉ - Algum diretor da Gautama poderia estar pagando propina à sua revelia?
Zuleido -
Não. O que havia de dinheiro no nosso caso era pagamento para os funcionários das obras e para os subempreiteiros. Muitas vezes nossos funcionários precisam levar o dinheiro em espécie para o pagamento nos canteiros de obras. Isso é comum em todas as empreiteiras.

ISTOÉ - O sr. contribuiu financeiramente na última eleição?
Zuleido -
Fiz pequenas doações.

ISTOÉ - Para quais candidatos?
Zuleido -
Para o governador André Puccinelli (PMDB-MS) dei R$ 100 mil. Para o senador Papaléo Paes (PSDB-AP) também dei R$ 100 mil. E outros R$ 40 mil para três deputados: Osvaldo Reis (PMDB-TO), Gastão Vieira (PMDB-MA) e Átila Lins (PMDB-AM). Tudo está declarado. Não tinha dinheiro para ajudar os outros que pediram.

ISTOÉ - Quando se faz uma doação, não se espera uma contrapartida?
Zuleido -
Hoje não. Antigamente os empreiteiros eram mais generosos. Mas hoje não tem mais mágica. Depois que a inflação acabou, as coisas ficaram muito mais transparentes. Antes, o empresário ganhava a obra com um preço baixo e depois conseguia um baita reajuste. Isso não acontece mais. Hoje, existe um controle de preços muito severo.

ISTOÉ - Não há outras formas de aumentar o valor dos contratos? Toda a imprensa divulgou fotos de pontes da Gautama no Maranhão que levam o nada a lugar nenhum.
Zuleido -
Nós temos um contrato de 110 pontes, que são para as travessias dos rios do Maranhão. Antes, essas pontes eram feitas de madeira e agora são de concreto, porque as anteriores tinham de ser trocadas todos os anos. Nesse caso, como é praxe no mercado de engenharia, as licitações das obras de arte, que são as pontes, não são as mesmas licitações das estradas. O nosso trabalho foi feito, mas aquelas fotos foram exploradas para nos prejudicar. As estradas não são de responsabilidade nossa.

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5/7/2007


 
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