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Depois da prisão
Zuleido Veras, dono da Gautama, fala pela primeira vez sobre as acusações de corrupção em obras públicas e conta suas relações com políticos fisgados pela Operação Navalha da Polícia Federal

Por LEONARDO ATTUCH E MÁRIO SIMAS FILHO

"O que aconteceu comigo pode acontecer com qualquer empreiteiro"

Eram exatamente 11 horas da quarta-feira 4 quando o empreiteiro Zuleido Veras, pontualmente, abriu a porta da suíte 1411, no 14º andar do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. Não escondia uma certa tensão, que foi logo tratando de justificar: "É a primeira vez na minha vida que concedo uma entrevista", avisou. "Nunca falei a ninguém." Sobre uma pequena mesa de centro na saleta com cerca de 15 metros quadrados, Zuleido tinha à disposição uma pilha de documentos demonstrando a participação de sua empreiteira, a Gautama, em licitações de vários Estados. No alto da pilha estava a primeira boa notícia, desde que foi preso em 17 de maio, acusado de comandar uma quadrilha que corrompeu políticos e fraudou obras públicas em cinco Estados. Era um despacho da ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça. O documento permite que Zuleido possa vender um imóvel para pagar salários que estão atrasados. "Sou só um peixe pequeno", disse. "Um lambari." E foi liso e ágil como um lambari que Zuleido respondeu às perguntas que lhe foram feitas durante três horas. Escaldado depois de ter suas conversas gravadas por mais de um ano, Zuleido interrompeu a entrevista em diversas ocasiões para falar ao telefone. Mas, agora é monossilábico. Ao retomar a entrevista, depois de uma dessas ligações, ele desabafou. "Nenhum empresário, mesmo fazendo a coisa certa, resistiria a tanto tempo de grampo."

ISTOÉ - A Polícia Federal e o Ministério Público o definem como o chefe de uma quadrilha que corrompe políticos e desvia dinheiro de obras públicas. Isso é verdade?
Zuleido Veras -
Isso é uma grande injustiça. A prisão de toda a direção da Gautama é absurda. Fomos vítimas de uma violência que jamais ocorreu no Brasil. A Gautama é uma empreiteira como qualquer outra que está no mercado. A única diferença é que nós somos lambaris bem pequenos perto das outras. Sou só um peixe pequeno. Nossa empresa nasceu quando eu saí da OAS, depois de uma briga de sócios que houve lá dentro, e achei que poderia iniciar uma construtora. Nosso modo de agir sempre foi o tradicional e hoje faturamos R$ 150 milhões por ano. É pouco.

ISTOÉ - Mas a PF aponta índícios de superfaturamento nas obras da Gautama. É assim que as outras também trabalham?
Zuleido -
Todas as nossas obras foram fruto de licitação pública. Os contratos foram disputados por cinco, seis empreiteiras. Hoje, esse mercado de construção não é o mesmo do passado. Não existe mais a inflação que permitia ajustes enormes. Os preços são muito apertados e as margens são baixíssimas. Se as coisas estivessem tão boas, as grandes empreiteiras não estariam partindo todas elas para novos negócios.

"Não conheço o governador Jackson Lago. Nunca falei com ele nem por telefone. Os sobrinhos dele, conheci apenas na prisão. Nunca existiu dinheiro para eles"

ISTOÉ - As conversas telefônicas gravadas pela PF mostram que a Gautama tem uma proximidade enorme com vários políticos.
Zuleido -
Um político hoje não faz você ganhar uma obra. Ele às vezes até tenta demonstrar uma influência maior do que ele tem, tanto para o empresário como para a população.

ISTOÉ - Não são os políticos que conduzem as obras públicas?
Zuleido -
Sim, mas eles não têm força para fazer uma empreiteira ganhar uma obra. As coisas não funcionam assim, há muita fiscalização.

ISTOÉ - E o que faz uma empreiteira ganhar um contrato?
Zuleido -
Às vezes, o preço. Às vezes, a vontade de arriscar mais. Vou te dar um exemplo. No programa Luz para Todos, nada menos que 18 empresas compraram o edital. Quando elas viram as condições, todas abandonaram o barco e terminou só com a Gautama. Ficamos porque aceitamos correr um risco. Decidimos que iríamos fabricar os postes na própria obra, para reduzir os custos. A Lei de Licitações, a 8.666, é muito dura.

ISTOÉ - Mas consta nos relatórios policiais que o sr. não entregou a obra.
Zuleido -
A fábrica de postes foi instalada, três mil casas foram atendidas e nenhuma fatura foi paga.

ISTOÉ - O Programa Luz para Todos era conduzido pelo ex-ministro Silas Rondeau. Ele saiu do governo depois que a PF mostrou a imagem de uma diretora da Gautama entregando um envelope a um assessor no gabinete do ministro. Não era pagamento por alguma ajuda?
Zuleido -
Outra injustiça. Tanto é que já dizem que o presidente Lula está pensando em chamá-lo de volta para o governo.

ISTOÉ - Não havia dinheiro no envelope?
Zuleido -
Não havia dinheiro ali dentro. Se houvesse dinheiro, por que eles não deram um flagrante?

ISTOÉ - O que havia no envelope?
Zuleido -
Papel. Nós estávamos tendo prejuízo com uma obra em Urucu (AM), para o seu sistema viário, e a Fátima (Maria de Fátima Palmeira, diretora da Gautama) foi falar com o Ivo (Ivo Almeida Costa), o assessor do Silas, para levar o nosso pleito de R$ 17 milhões. A obra estava com prejuízo de R$ 7 milhões e a Fátima foi tentar resolver. Era uma coisa normal, de rotina. O envelope continha o dossiê que demonstrava nosso prejuízo.

ISTOÉ - Ela teve contatos com o ministro?
Zuleido -
Nunca.

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5/7/2007


 
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