A FELICIDADE PODE SER MORTAL
Joaquim Castanheira
Pode ser que, como disse o presidente Lula, a economia nunca tenha passado por um momento tão brilhante desde que o marechal Deodoro da Fonseca ergueu sua espada no Campo de Santana, no Rio de Janeiro. Mas a felicidade, muitas vezes, enevoa os riscos que podem destruí- la. Recentemente, o IBGE divulgou um estudo alarmante que pouca atenção mereceu de autoridades e empresários: a indústria de ponta brasileira encolheu 16% nos últimos dez anos.
Em contrapartida, o setor produtivo mais básico cresceu 9%. O perfil das exportações caminhou no mesmo sentido. Ou seja, na contramão do que fazem China e Índia, por exemplo, estamos voltando a ser fabricantes de matérias-primas, deixando para outros países o mercado de produtos mais sofisticados e de maior valor agregado.
Câmbio, carga tributária, juros - tudo isso ajuda a explicar esse desastre econômico. Mas o primordial é a paralisia do empresariado e do governo diante do assunto. Os empresários caíram em certo comodismo, já que os preços das commodities têm garantido um excelente retorno para suas operações. Por que, então, investir em máquinas e pesquisa e desenvolvimento? O governo concorda. Os saldos da balança comercial e os bons números da economia parecem dizer: "não se preocupe". Mas justamente a situação confortável cria as condições para promover mudanças sem grandes riscos de transtornos. Brasília poderia desenvolver políticas industriais que estimulassem o investimento em produtos mais avançados tecnologicamente.
Anos atrás, diante da entrada de sapatos europeus no Brasil (feitos com couro brasileiro), o governo elevou a alíquota de exportação de couro cru e reduziu a de sapatos prontos. É uma atitude mais inteligente e efetiva do que lançar pacotes de bondades para compensar a queda da exportação. Mas para que esquentar a cabeça se jamais na história deste país tudo correu tão bem?
Joaquim Castanheira é Editor Executivo da revista Dinheiro
ENERGIA, ÁGUA E SOBERANIA
Plínio de Arruda Sampaio
Escassez de petróleo e escassez de água - problemas que vieram para ficar na agenda mundial. O Brasil é ator importante nessa pauta. Possui, como nenhum outro, condições para produzir energia de origem vegetal e está montado em cima do maior reservatório de água doce do mundo.
Tamanhas benesses não estão isentas de perigos. O maior deles é a invasão de capitais estrangeiros. Megaempresas como a Cargill, Global Foods, Tereos, Itochu e megainvestidores como Banco Rothschild, Opportunity, estão investindo bilhões na compra de enormes extensões de terra para instalação de usinas de álcool e açúcar. A estimativa mais conservadora é de R$ 34 bilhões nos próximos cinco anos! Para se ter uma idéia da magnitude dessa invasão, basta pensar que, com R$ 24 bilhões, o Brasil assentaria, em quatro anos, um milhão de famílias sem terra.
A localização das novas usinas bem em cima do aquífero Guarani aumenta o perigo dessa invasão de capitais estrangeiros. Em um mundo temeroso de ficar sedento dentro de umas quantas décadas, a cobiça por essas terras é grande e maior ainda o risco de que sejam poluídas pela expansão de uma cultura dependente de altas doses de agrotóxicos.
Na metade dos anos 50 do século XX, o Brasil cedeu ao capital estrangeiro o controle de sua indústria, mas a propriedade do solo permaneceu majoritariamente nas mãos do capital nacional. A transferência desse patrimônio aos estrangeiros terá conseqüências, não apenas econômicas, mas desdobramentos sociais e políticos certamente gravíssimos do ponto de vista da soberania dos brasileiros sobre o seu território.
Urge alertar a opinião pública, a fim de ver se ainda há possibilidade de deter esse processo, embora saibamos que a consciência da cidadania pareça anestesiada. Segundo os biólogos, as espécies que desaparecem são aquelas incapazes de perceber os perigos que a ameaçam.
Plínio de Arruda Sampaio é dirigente do PSOL e ex-deputado constituinte