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Economia & Negócios  
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Qual inflação o Brasil quer ter?
Entre a proposta de 4,5% da Fazenda e de 4% do Banco Central, Lula ficou no meio do caminho, num momento em que o dragão começa a querer sair da toca

LANA PINHEIRO

Não é preciso ir longe para perceber que alguns setores só estão à espera de alguma brecha para ativar suas antigas máquinas de reajustes. Os produtores de eletroeletrônicos já admitiram que estão pressionados pelos fornecedores de insumos para conceder aumentos. E, com a economia aquecida, alguns segmentos até se anteciparam ao afrouxamento do governo. As siderúrgicas anunciaram aumento de 7% para o aço, mesmo patamar que as resinas termoplásticas sofreram. É a chamada "inflação de demanda", que, segundo os economistas, seria uma das mais assustadoras. Diante desse quadro, a Anfavea, associação que reúne as montadoras instaladas no País, externou sua preocupação com o aumento das matérias- primas em patamares bem maiores do que a inflação, sem eco algum em Brasília. A saída para algumas de suas associadas para manter a produção em alta e evitar mais falta de produtos no mercado interno foi buscar aço no Exterior. Fiat e Ford foram as primeiras. "As commodities industriais têm tido aumento, pressionando os custos de produção", admite Rogelio Golfarb, diretor de Assuntos Corporativos da Ford na América Latina. "Não há como a indústria absorver estes aumentos que vêm se acumulando nos últimos anos." Segundo levantamento da Anfavea, de janeiro de 2002 a abril de 2007 o aço subiu 142%, os metais não ferrosos, 115% e o plástico, 84%. No mesmo período o IGP (Índice Geral de Preços) ficou em 62%. "Apesar da apreciação do câmbio que serve como âncora inflacionária, podemos sofrer uma pressão da demanda", afirma Junkiel dos Santos, do ABN-Amro. "Mas não será nenhum grande susto." Para José Márcio Camargo, no entanto, a situação é ainda mais grave. "Não há dúvida que a pressão inflacionária está a caminho", afirma. "E ela virá tanto nos setores de produtos comerciáveis como no de não comerciáveis - leia-se serviços."

AÇO Siderúrgicas aproveitaram o aumento da demanda brasileira para reajustar preço em 7%

Para quem acha que a visão de Camargo é alarmista demais e não se contenta com o exemplo do aço ou das resinas plásticas, a Fundação Getúlio Vargas constatou que construir no Brasil está cada vez mais caro. O Índice Nacional da Construção Civil subiu de 0,46% em abril para 1,15% em maio. Os metais puxam a elevação com o aço tipo vergalhão subindo 1,43% em maio, a alta mais intensa dos últimos três anos. O reflexo apareceu no mesmo índice medido pelo IBGE, que constatou aumento de 5,17%, nos últimos 12 meses, patamar bem acima da inflação do período. E também acima da meta proposta, seja ela a de 4% ou a de 4,5%. "O aquecimento da demanda já está ameaçando a economia", afirma Márcio Nakame, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPCsumidores Fipe). "O aumento de renda doméstica nos últimos meses vai continuar pressionando o preço de serviços e produtos e a inflação deve subir."

Levantamento do instituto mostra que uma grande pressão virá do setor de serviços. "Os itens não comercializáveis cresceram 6,3% de janeiro de 2006 a maio de 2007", diz Nakame. E a inflação do período? 4,4%. Para piorar ainda mais a situação, o Brasil está em meio ao que Nakame chamou de um minichoque agrícola. Com uma demanda maior do que a oferta, os conIPCsumidores viram o preço do leite disparar e crescer 11,64% no acumulado de janeiro a junho de 2007, enquanto a inflação ficou em mero 1,8%. E, para acompanhar o leite, o velho e bom pãozinho sofreu um reajuste de 10% desde 1º de julho. "A questão agrícola é temporária, sazonal, e tem impacto restrito na inflação" afirma o mesmo Nakame, mas "os indicadores de renda doméstica continuarão muito fortes e devem exercer uma grande pressão sobre os preços". O resultado aparece no acumulado dos 12 meses em que a inflação está passando de um patamar de 3,5% para o de 4%.

Apesar dos indícios de alta, Ricardo Amorim, diretor executivo para mercados emergentes do Banco WestLB, trata de acalmar os ânimos. "É muito improvável que a demanda gere uma pressão inflacionária importante no Brasil neste ano e mesmo no próximo", afirma. "Um crescimento acelerado de importações e investimentos tem contribuído para a expansão da oferta e é improvável que isto mude nos próximos meses." O professor Rogério Mori, da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, vai na mesma linha ao defender que o aumento da demanda não é suficiente para gerar uma pressão inflacionária, "que permanecerá comandada pelo câmbio sem perspectivas de reviravolta nos próximos meses".

Postas as cartas, ainda resta saber qual a inflação que o Brasil realmente quer. O intervalo está posto. Varia de 2,5% a 6,5%. "Esquizofrenia pura", como bem disse José Márcio Camargo. Quem tem coragem de discordar?

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4/7/2007


 
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