UMA SOLUÇÃO BEM EMBAIXO DO NARIZ
Leonardo Attuch
Aparentemente, a decisão já foi tomada. Apesar dos protestos dos ambientalistas, o governo federal deverá mesmo licitar a obra para construção de duas usinas hidrelétricas do rio Madeira, que poderão vir a gerar 6,5 mil megawatts no futuro. São pelo menos R$ 20 bilhões, sem contar os custos das linhas de transmissão para trazer essa energia da Amazônia para o Centro-Sul do País. Ao defender a obra, o presidente Lula usou mais uma de suas metáforas de pescador. Ele, que comparou seu irmão Vavá a um simples “lambari”, disse que os “bagres” do Madeira não poderiam travar o progresso.
Ampliar a oferta de energia, num momento em que grandes empresas adiam investimentos com medo de apagões futuros, é um movimento louvável. A questão é que, hoje, despontam alternativas mais eficientes, mais econômicas e também mais ecológicas. Uma delas, bem embaixo do nosso nariz, é a geração de energia a partir da queima do bagaço da cana-de-açúcar. Estudos técnicos comprovam que seria possível ampliar em 7 mil megawatts a capacidade do sistema elétrico brasileiro com um programa de modernização das usinas. Com caldeiras e geradores novos, que poderiam ser financiados pelo BNDES, as empresas do setor, próximas dos centros industriais, poderiam rapidamente despejar toda essa energia nas linhas de transmissão.
Quem já visitou uma usina feita com tecnologia moderna também se impressiona com outro aspecto. Quase todos os equipamentos são produzidos no Brasil e grande parte vem do pólo industrial de Sertãozinho (SP), que é um dos melhores exemplos da capacidade empresarial brasileira. Lá, há várias histórias de torneiros mecânicos que se tornaram industriais de sucesso. E o presidente Lula, ele próprio um ex-torneiro, empregaria muito mais companheiros se despertasse de vez para a energia que vem da cana. Do contrário, poderá se tornar refém dos “tubarões” das empreiteiras.
Leonardo Attuch é Editor das revistas ISTOÉ Dinheiro e Dinheiro Rural
A REFORMA POLÍTICA
João Paulo Cunha
A reforma política a ser votada na Câmara dos Deputados é hoje uma das principais demandas do País. Nosso sistema partidário e eleitoral requer alterações para que a sociedade sinta-se efetivamente representada por suas instituições políticas.
Apesar de as pesquisas apontarem índices muito baixos de apoio aos políticos, não tem sido fácil encontrar um consenso que leve à superação do anacronismo atual. À resistência dos parlamentares a mudanças na forma como são eleitos soma-se a falta de mobilização efetiva da sociedade civil. Não podemos mais conviver com essa dissonância que afasta cada vez mais a prática política da realidade brasileira. Por isso, devemos buscar um consenso possível para aprovarmos o financiamento público das campanhas, o voto em listas partidárias e o fim das coligações proporcionais.
Se hoje na Câmara está consolidada uma maioria a favor da fidelidade partidária, devemos avançar aprovando a votação em listas partidárias. Assim, o voto deixará de ser personalizado, com o eleitor escolhendo a partir dos projetos apresentados pelos partidos, politizando sua decisão. O financiamento público das campanhas criará um ambiente político mais democrático, em que as propostas partidárias tenham a primazia e a fiscalização dos gastos nas campanhas seja feita de forma cristalina pela Justiça Eleitoral e pela sociedade, eliminando a cooptação do mundo político pelo poder econômico.
Precisamos ainda eliminar as coligações nas eleições proporcionais, acabando com o atual desvio da intenção do eleitor que vota num determinado candidato e ajuda a eleger um de outro partido que obteve bem menos votos.
O avanço da democracia brasileira requer partidos políticos programáticos, que qualifiquem a prática da representação política, contribuindo para o aprimoramento das instituições políticas em busca de um Brasil mais justo.
João Paulo Cunha é Deputado Federal – PT/SP