ISTOÉ - Há uma expansão do crack?
Laranjeira - Em São Paulo. No Rio não há muito porque os traficantes não deixam. Mesmo em São Paulo ele está mais relacionado com a periferia, com a pobreza. As pessoas que ficam muito tempo usando cocaína são mais vulneráveis. Aí, chega uma hora em que, na relação custobenefício do usuário, "fica melhor" usar o crack do que cocaína. Seu efeito surge mais rápido e, no final, ele acaba sendo mais barato. A classe média viciada em crack que atendo, como advogados e médicos, conta que tudo começou com cocaína.
ISTOÉ - Quanto o crack é letal?
Laranjeira - Estamos acabando de coletar dados do maior estudo feito no mundo. Não há nada tão longo. Pegamos os primeiros 130 usuários de crack internados em São Paulo, há 12 anos. Fizemos um acompanhamento depois de dois anos dessas internações. Em seguida, fizemos outro, cinco anos mais tarde. Agora estamos concluindo a análise desses usuários após 12 anos. A mortalidade é de quase 40% ao longo desse período. Nem leucemia mata tanto. A maioria dessas mortes é por causa da violência. Vimos que desse grupo ainda tem gente usando crack e que as famílias estão desgastadas. Notamos também que houve mais pacientes presos do que encaminhados para tratamento.
ISTOÉ - Qual é a droga mais perigosa?
Laranjeira - Toda droga produz dano. A questão é quanto tempo ela demora para isso. O cigarro demora 20, 30 anos para causar dano. Mas, de longe, o cigarro é a droga que mais mata. O crack é mais rápido. Os danos dependem da intensidade de uso.
ISTOÉ - Recentemente houve uma discussão em torno das cartilhas de redução de danos. Algumas pessoas acreditam que esse tipo de material é um estímulo ao consumo. O que o sr. pensa a esse respeito?
Laranjeira - Não concordo com isso. Cartilhas bem feitas não estimulam o consumo. Mas houve uma cartilha recentemente criticada, a da Parada Gay em São Paulo, que perdeu a chance de falar dos riscos do uso das drogas. O material se concentrou mais em orientar o consumo com baixo risco do que em alertar para o risco do uso. É o que critico de modo geral. É uma opção de política equivocada. Acho que as duas coisas podem ser feitas. Mas se ficarmos só cuidando de quem usa, esquecemos de fazer campanhas para as pessoas não usarem. Isso ocorre principalmente com o ecstasy, que é uma das drogas mais tóxicas que conheço para o cérebro. Pouco se fala de todos esses males relacionados às drogas no País. Estou concluindo agora um grande estudo patrocinado pelo governo que vai traçar o perfil dos consumidores de bebidas alcoólicas. Esse trabalho ficará pronto em agosto. Espero que o próprio governo utilize os dados para a formulação de políticas adequadas.
ISTOÉ - Existem campanhas de esclarecimento eficazes nas escolas? Em geral, elas criticam o consumo e advertem sobre as conseqüências, dizendo coisas como "a droga mata".
Laranjeira - Há muito poucas campanhas e isso é uma falha de extrema gravidade. No setor público, praticamente nada. O único trabalho que conheço é o da Polícia, que consiste em dar palestra. Não há verbas e nem cabeça pensando nessas questões. Deixou-se a escola de lado. Não há programa de prevenção para jovens de risco, fora ou dentro da escola. Teríamos de fazer programas de cuidados para essa população. As ONGs fazem, mas é pouco. Há algumas boas como o grupo Amor Exigente. São familiares de usuários que cuidam das próprias famílias.
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| "Há muito poucas campanhas de esclarecimento nas escolas. E isso é uma falha de extrema gravidade" |
ISTOÉ - O sr. acha que a liberação das drogas ajudaria a diminuir o consumo?
Laranjeira - Primeiro é difícil fazer isso. Segundo, há evidências demonstrando que, se as drogas forem legalizadas, o consumo vai aumentar. Isso pode diminuir a violência do tráfico, mas pode aumentar a violência entre os usuários e atingir outras pessoas. É ingenuidade achar que isso vai desmantelar a rede do tráfico, que os traficantes vão passar a vender flores em Ipanema. A gente não pode esquecer que a principal violência é a droga lícita, o álcool. Quando a prefeitura de Diadema determinou o fechamento de bares às 23 horas - lei que vai completar cinco anos -, houve uma redução no número de homicídios.
ISTOÉ - Muita gente diz fumar maconha socialmente, apesar de ser proibido no Brasil. Em outros países, há balas, bebidas e comidas com maconha. Quando se pode dizer que uma pessoa é dependente, do ponto de vista médico?
Laranjeira - Tem gente que ocasionalmente usa maconha. Mas a tendência é haver um número maior de usuários com consumo regular. Aumentou a disponibilidade da maconha na nossa sociedade. O que vai acontecer? Há três importantes evidências a seu respeito: ela piora o desempenho na escola, aumenta as chances de transtornos mentais - especialmente a esquizofrenia - e diminui o pique para fazer as coisas. Quem é usuário regular tem tendência de adiar tudo. O número desses consumidores diários vem aumentado. O número de quem usa no final de semana é muito pequeno. Quem usa regularmente vai ter mais ansiedade, mais depressão.
ISTOÉ - Diz-se que quem usa drogas procura entorpecer sensações ruins. Está correto?
Laranjeira - É mais pelo prazer do que para tirar sensações negativas. O problema é que as drogas modificam os processos cerebrais, incapacitando os usuários para recorrer a outras fontes de prazer menos imediatas e intensas.
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