ISTOÉ - E quanto à utilização das tropas na ocupação das fronteiras? No meio militar, muitos se preocupam com a falta de vigilância na Amazônia.
Passarinho - Repare no caso do Projeto Calha Norte. Não houve dinheiro para mantê-lo. Ainda que haja uma importância simbólica de se fincar uma bandeira no meio da floresta e se informar que ali é que começa o Brasil, o fato é que, no caso do narcotráfico, a fronteira está no ar. Aí, o que precisa é a autorização para abater essas aeronaves, que por sinal já existe, com a aprovação da Lei do Abate. Mas o maior problema hoje na Amazônia é a ameaça à nossa biodiversidade.
A nossa biodiversidade está escapando toda para o Exterior a partir do trabalho das ONGs que atuam livremente na Amazônia.
Calcula-se que existam cerca de 100 mil homens trabalhando livremente nisso na Amazônia, recolhendo amostras para enviar a laboratórios no Exterior.
ISTOÉ - E isso não é algo que o Exército possa ajudar a combater?
Passarinho - Como? Nós estamos sendo espionados, estamos vendo isso e não podemos fazer nada. Porque a lei protege o funcionamento das ONGs. Seria necessária uma reforma constitucional que desse ao País o direito de fiscalizar e interferir.
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| "Eu me recuso a comparar o Lamarca com o Prestes, que era brilhante. Lamarca era medíocre e matou um refém" |
ISTOÉ - O sr. foi ministro em três governos militares e em um governo civil. Existe algo que o sr. se arrepende de ter feito ou defendido?
Passarinho - Muito se critica o meu apoio ao AI-5. Eu não posso isolar o AI-5 do seu tempo e das suas circunstâncias.
Naquelas circunstâncias, eu, de novo, apoiaria o AI-5. Agora, ao mesmo tempo, eu era ministro do Trabalho naquela época e consegui o fim de uma greve de canavieiros estabelecendo, parafraseando o Lula, "pela primeira vez na história deste País", critérios de previdência social para o trabalhador do campo. Do que eu me arrependo? Quando era ministro da Educação, me impediram de aprovar um projeto que fizesse com que os estudantes ricos pagassem a universidade pública para que os pobres não precisassem pagar. Pelo meu projeto, o filho do Antônio Ermírio pagaria para que o filho do Zé da Silva pudesse pagar depois de formado. Deveria ter insistido mais nisso. Me arrependo também de não ter implantado cursos noturnos nas universidades públicas.
ISTOÉ - E quanto à sua participação no governo Collor?
Passarinho - Fiquei 11 meses no governo Collor. Talvez devesse ter ficado menos. O que eu gostaria é de não ter chegado aos 87 anos tendo que convencer os meus 14 netos e sete bisnetos de que este não é um país de ladrões.
Onde a Justiça vende sentenças. Onde um juiz superfatura a obra de um prédio e arrasta consigo um senador da República. Um país onde a propina é algo comum desde o guarda de trânsito. Onde o escândalo mais recente apaga de nós a memória dos escândalos anteriores. Isso me gera um sentimento de revolta. Eu gostaria de poder manter nos meus netos e bisnetos a chama de esperança de que eles podem fazer um país diferente.
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