ISTOÉ - Independente
 
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA E TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Entrevista  
Imprimir
 
"Faria tudo de novo"
O ex-ministro diz que não se arrepende de ter assinado o AI-5 e que há cinco desaparecidos do Araguaia que estão vivos

Por HUGO STUDART E RUDOLFO LAGO

ISTOÉ - Como assim?
Passarinho - Me recordo que em fins de 1973 o general Antônio Bandeira me procurou. Ele era diretor-geral da Polícia Federal e, antes, fora comandante da segunda campanha do Araguaia. Naquela época a guerrilha estava terminando; eu era ministro da Educação. O Bandeira disse que tinha cinco rapazes arrependidos que queriam uma chance de se reintegrar. Ele queria inserir esses rapazes na sociedade. Naquele período, da forma como os órgãos de informação funcionavam, eles mesmos não sentiam força. Então, ele veio me pedir se eu podia dar um jeito. Ele não me disse se eram do Araguaia, nem se haviam trocado de identidade. Não perguntei, mas achei que eram, pois o Bandeira fora comandante lá. Eu estava reformulando umas revistas do MEC e eles foram empregados lá. Eu não fiz ficha, não guardei os nomes; me dêem o direito de envelhecer, a minha memória falha.

Agora, é possível que haja registros no Ministério que ajudem nessa identificação. Há, portanto, a hipótese de alguns desaparecidos políticos do Araguaia ainda estarem vivos e com nova identidade.

"Fizemos do País a 8ª economia do mundo, mas a esquerda nos transformou em trogloditas, pelos excessos de alguns"

ISTOÉ - Como o sr. avalia hoje sua participação na ditadura?
Passarinho - Depois do fim do ciclo militar, e é com esse termo que prefiro me referir ao período, já como senador, fiz amizade com uma moça que chegou a ser torturada, a exdeputada Moema Santiago. Um dia, ela me revelou algo que lhe foi dito por uma outra ex-militante, Inês Etiene Romeu. Ela foi torturada na chamada Casa de Petrópolis (local usado para sessões de interrogatório e tortura nos anos 70).

Depois de uma das sessões, um dos inquiridores resumiu o seu plano. Segundo ele, primeiro morreriam aqueles, como ela, que pegavam em armas para tomar o poder. Depois, morreriam os comunistas que naquele momento não pegavam em armas mas que um dia poderiam pegar. E, finalmente, morreriam os "melancias", os infiltrados. E completou: "Como o ministro Passarinho. O presidente Médici gosta dele, mas ele não escapa." Essa história prova que a linha-dura me considerava um "melancia", apelido para quem seria verde por fora e vermelho por dentro.

ISTOÉ - E quanto ao papel das Forças Armadas no Estado Democrático de Direito? Há quem defenda que elas deveriam ser usadas no combate ao narcotráfico ou contra o crime nas favelas.
Passarinho - Os militares não são treinados para fazer o papel de Polícia Militar. Nenhum militar tem hoje condições de ensinar, em qualquer quartel, um recruta como ele deve fazer para enfrentar os bandidos nos morros. Ele é preparado para matar, e não para prender.

ISTOÉ - Mas não é isso que fazem as tropas brasileiras no Haiti: combater o crime? Não é um paradoxo gastar o dinheiro para manter a paz no Haiti e não usá-lo para garantir a paz no Rio?
Passarinho - O Brasil não é o Haiti. O Brasil assumiu uma missão de paz e, se foi para lá, tem que agüentar as conseqüências, como entrar em favelas. O Brasil buscava uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Isso foi um compromisso do presidente Lula e seu chanceler do B, o professor Marco Aurélio Garcia. É o caso de se perguntar: por que os EUA não foram para o Haiti? Porque sabiam que teriam que entrar em favelas. Mas o papel das Forças Armadas é outro, é garantir a soberania. Para combater o crime internamente, temos a Polícia Federal, a Polícia Civil e a Polícia Militar.

Lembra-se do que aconteceu quando as Forças Armadas invadiram os morros? Os soldados subiram, fincaram uma bandeira. Uma bela fotografia. Mas o que aconteceu depois? Os traficantes voltaram. Mudou alguma coisa?

ISTOÉ - E sobre usar os soldados no combate ao narcotráfico internacional, como querem os Estados Unidos?
Passarinho - Insisto: traficante é um problema de polícia civil. Você vê que sistematicamente se coloca alguém para investigar essa área e o policial se corrompe. É um negócio de milhões de dólares e o sujeito ganha R$ 2 mil por mês.

Outra coisa: se nós entrássemos nisso, com a lógica militar, o que faríamos? Invadiríamos a Colômbia? Só invadindo a Colômbia poderíamos combater com eficiência militar o narcotráfico.

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >>
20/6/2007


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
       

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions