ISTOÉ - Independente
 
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA E TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Entrevista  
Imprimir
 
"Faria tudo de novo"
O ex-ministro diz que não se arrepende de ter assinado o AI-5 e que há cinco desaparecidos do Araguaia que estão vivos

Por HUGO STUDART E RUDOLFO LAGO

ROBERTO CASTROSua casa, erguida num canto discreto e bucólico do bairro do Lago Norte, em Brasília, vem sendo há décadas cenário de conspirações, articulações políticas e debate de idéias. Afinal, Jarbas Passarinho é personagem proeminente do período republicano que começou com o regime militar de 64, passou pela redemocratização e prossegue pela atual fase de globalização. Coronel de artilharia, administrador cartesiano, acabou quatro vezes ministro - do Trabalho (Costa e Silva), da Educação (Médici), da Previdência (Figueiredo) e da Justiça (Collor). Leitor compulsivo, orador refinado, articulador paciente, destacou-se também como um dos grandes políticos da restauração democrática. Foi eleito senador três vezes, foi governador do Pará e chegou a presidente do Congresso. Aos 87 anos, seis livros publicados, dedica seu tempo entre dar consultoria e escrever artigos para jornais. Dias atrás, escarafunchando a memória, Passarinho se lembrou que em fins de 1973, quando terminava a guerrilha do Araguaia, o general Antônio Bandeira o procurou em segredo para pedir que abrigasse cinco presos políticos. Ele ajudou. As organizações de direitos humanos suspeitam que cinco dos guerrilheiros do Araguaia teriam recebido nova identidade e depois entrado para a lista de desaparecidos. Passarinho pode ser a chave para desnudar esse episódio ainda não resolvido da história.

ISTOÉ - Dentro de alguns dias a Secretaria de Direitos Humanos inicia uma nova tentativa de encontrar os corpos dos desaparecidos no Araguaia. Quais as chances de sucesso?
Jarbas Passarinho - Sou muito pessimista. Acho que numa luta de floresta é muito difícil que se consiga, tantos anos depois, encontrar corpos de pessoas ali enterradas. Já fizeram várias tentativas.

Nada conseguiram. Quando eu era ministro da Justiça, fui procurado por um grupo de parentes de desaparecidos. Me comoveu uma senhora, mãe dos irmãos Petit (Maria Lúcia, Jaime e Lúcio Petit).

O que ela desejava era poder dar a cada um deles uma sepultura cristã. Eu concordo com isso e tentei ajudá-la. Mas não consegui informações.

ISTOÉ - Não chegou o momento de os militares abrirem os arquivos secretos, revelar o que sabem e acabar com as lacunas na História do País?
Passarinho - Mas a esquerda não quer acabar, ainda alimenta o revanchismo.

Agora mesmo, a Comissão de Direitos Humanos vai retomar o caso do Lamarca. Querem de novo investigar a morte do Lamarca. Desde que Lamarca desertou, o Exército, por tradição, o considerou como morto. Desde aquela época, a viúva de Lamarca recebia pensão. Depois, nessa revisão, promoveram Lamarca a coronel. Depois, deram R$ 150 mil de indenização. Eu me pergunto: o que é que ainda falta fazer? Isso é um absurdo.

Lamarca não é isso. Me recuso a compará- lo com Luís Carlos Prestes. Primeiro porque Prestes era um oficial brilhante, primeiro de turma, tinha grande influência sobre os companheiros. A Coluna Prestes nunca foi batida. Lamarca, não; era medíocre. Atirou em dois sentinelas, matando-os. Também matou um refém, um tenente. Esse crime, para nós militares, é dos mais repulsivos: matar um refém! E matou a coronhadas. Como coronel do Exército, é coisa que não admito.

ISTOÉ - Além de coronel, o sr. é um intelectual respeitado, um apreciador da História. Como então avalia o comportamento das Forças Armadas, que até hoje evitam que documentos do período militar venham a público?
Passarinho - Essa grande lacuna no arquivo da História só existe com relação à guerrilha do Araguaia. Foi de fato uma guerra sem prisioneiros, algo que também se justificou em algumas guerras na Europa. O que aconteceu no Araguaia que produz esse silêncio, só quem esteve lá pode dizer. Já a história da guerrilha urbana é toda conhecida em detalhes.

ISTOÉ - O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, acredita ser possível um acordo para que militares que participaram da guerrilha ajudem na localização dos corpos. Em que termos os militares poderiam aceitar um acordo?
Passarinho -
O secretário pode levantar a tese que quiser. E eu tenho o direito de discordar. Não acho possível que, 30 anos depois, naquela selva ainda seja possível encontrar algum corpo. Será que seria possível o comandante do Exército fazer uma comissão de recrutamento de quem esteve no Araguaia? Primeiro: grande parte já morreu. Segundo: isso poderia dar margem a manifestações, a todo tipo de revisão e revanchismo. Por causa da visão geral negativa que ficou sobre o período militar. Nós transformamos o Brasil na oitava economia do mundo. Mas aí a esquerda nos transformou nos trogloditas da História por conta dos excessos que alguns cometeram. Acho compreensível que os militares resistam a colaborar com a montagem de uma história que parta dessas premissas. Principalmente se for para colaborar naquilo que o humorista Millôr Fernandes define muito bem: "Eles não fizeram uma guerrilha, fizeram um investimento." Além disso, pode ser que nem todos os desaparecidos estejam de fato mortos.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>
20/6/2007


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
       

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions