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Entrevista  
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FERNANDO GABEIRA
''Toda greve tem seus limites''
O deputado critica a ocupação da USP, o movimento no Ibama, a invasão de Tucuruí e modera o discurso sobre liberação da maconha

Por HUGO STUDART E RUDOLFO LAGO

ANDRÉ DUSEK
"Serra é um ex-líder estudantil. Creio que ele tem medo de um desgaste na sua biografia se endurecer com os estudantes"

ISTOÉ - O que o sr. sugere?
Gabeira - Uma estratégia política mais condizente com o atual curso da democracia no Brasil. Que possibilitaria atrair mais forças a seu favor. A mídia está aberta, a Justiça respondendo mais rapidamente. Assim, há como fazer a coisa crescer na sociedade.

ISTOÉ - O sr. pegou em armas, seqüestrou um embaixador. Por que a transgressão era válida naquela época e hoje não é mais?
Gabeira - Naquela época, tudo o que se fazia era vinculado a uma visão de transformação global. E achava-se que a estrutura legal impedia essa transformação, porque era uma estrutura legal burguesa criada exatamente para evitar essas transformações. Agora, no Estado Democrático de Direito, não é essa a relação que você tem com a lei. Se você não tem mais a expectativa de romper com o Estado Democrático de Direito, você tem outros caminhos para recorrer. Nossas opções naquela época implicavam prisão, tortura, perda de vida... Hoje são apenas estudantes lutando para que a sua concepção de universidade seja vitoriosa.

ISTOÉ - O movimento estudantil não está mais vinculado a uma discussão política mais ampla?
Gabeira - No passado, havia uma visão global de trocar o capitalismo pelo socialismo. Hoje, vivermos uma situação em que o capitalismo é uma realidade. As alternativas postas em prática pela história não deram certo. Então, hoje nada mais resta senão aceitar o capitalismo e tentar transformá-lo, não derrubá-lo. Hoje é possível utilizar outras formas de luta, que não rompem com os requisitos legais, com uma capacidade de êxito maior. Um contra-exemplo drástico é a invasão de Tucuruí.

ISTOÉ - Mas o sr. não defende o movimento das populações atingidas pelas barragens?
Gabeira - Defendo. Já estive muitas vezes com eles. Mas aquela invasão foi um equívoco muito grande. Um equívoco porque Tucuruí representa uma central de eletricidade que atende muita gente. Um equívoco porque a ação foi feita com violência, usando bombas caseiras. Um equívoco porque apertaram botões que eles não sabiam para que serviam. Podiam ter provocado um desastre muito grande. O próprio líder do movimento quando sai, diz: "Agora, eu vou derrubar uma torre." Em qualquer país do mundo, ele seria chamado a uma delegacia ou a um juiz e se explicaria a ele o tamanho do transtorno que ele poderia causar. Você pode tirar a energia de um hospital no meio de cirurgias graves. Provocar acidentes. Colocar doentes que dependem de aparelhos em risco de vida.

ISTOÉ - Faltou autoridade, então?
Gabeira - Em vários casos tem faltado uma clareza. E isso é explicável. Esses movimentos apoiaram a eleição de Lula. E eles meio que se sentem à vontade para tentar fazer as coisas andarem mais rápido. O governo Salvador Allende, no Chile, viveu isso o tempo todo. Agora, quando se dirige o País com uma perspectiva de estabilidade e não de transformação, então tem de tomar atitudes que deixem isso claro. Tem que impor os limites legais. Responsabilizar as pessoas.

ISTOÉ - É o que acontece também no Movimento dos Sem Terra?
Gabeira - Sim. É mais uma vez um movimento tentando pressionar o País para andar mais rápido. Mas, andar mais rápido para onde? Até que ponto a idéia que se tinha de reforma agrária se mantém? O governo já viu que a reforma agrária não se limita a dar um pedaço de terra. O Lula entende que aí precisa haver um ajuste. Mas, ao mesmo tempo, ele evita um confronto. O problema é que, quando você evita o confronto, talvez o processo posterior seja mais grave. Vai adiando e criando as bases, depois, para um novo confronto. No caso de Tucuruí, o governo agiu certo ao mandar as Forças Armadas ocuparem a usina. Porque é um bem ligado à segurança nacional. Mas, por outro lado, não houve uma condenação política clara quanto à ocupação.

ISTOÉ - No caso da USP, como o governo estadual pode negociar?
Gabeira - O governador Serra é um exlíder estudantil. Creio que ele tem medo de um desgaste na sua biografia se endurecer com os estudantes. Ao mesmo tempo, ele sabe que forças políticas adversárias estão integradas ao movimento dos estudantes. Isso gera uma relativa cautela. Mas essa cautela tem que ter limites.

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6/6/2007


 
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